Calmaria
Do chorrilho de letras
Nessa noite corrida
Se faz um dia de cinza cor,
Numa memória vaga
De descompasso e vertigem
No banho do silêncio em tons púrpura.
A luminosidade pictórica do ventre
O claro acolhimento de suave fragrância
Que sofre o contágio que é doce, a folha de algodão
No lábio trémulo e na mão de ferro.
Semente de sol sem raios,
Sem o alaranjado da alma
Com a noção do equilíbrio na corda bamba
A exigência de uma carne queimada
O hálito fechado em língua dormente.
Abraço de calor. Frio interior.
São bonecos de palha, são fios de louvor
Meros estilhaços de dor.
Que doença é essa?
Ausência de letras
Mortificação do ser tão simples
Ordem para avançarmos, para seguirmos
Na amplitude do sentimento que toca
Essa necessidade de protecção
Esse cabelo de saudade imensa
Na volúpia de um corpo que bate
Bate em pedra esculpida
Como um rosto que beija
E uns dedos que te tocam
Na Palavra.
O som dito
Ouvido no eco
Do desejo profundo
Da comunhão etérea
Como são as gotas do prazer
E os segundos eternos
Desse sorriso
Ainda do inexplicável
Que é descobrir-te
E augurar os dias
Do lado da imagem que crio
Tua.
Quero-te sem as palavras
Só nessas letras
Que formam um único som.

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