terça-feira, julho 31, 2007

Palavra muda

Palavras que são apenas o escape. Palavras escritas, palavras faladas, palavras sentidas. A palavra que é tocar-te. O significado do contorno dessa pele morena. A morfologia da tonalidade do olho. O acento tónico do sorriso. A luz sobre todas essas palavras. Saber que nenhuma, qualquer que ela seja, é capaz de traduzir-te.
Na realidade, as palavras são efectivamente vãs. Para a grande maioria, ocas. Destituídas. Fracas. Embora não o sejam para todos. Congratulo e admiro os que sentem as palavras proferidas. Ou os que só as proferem quando (as) sentem. A palavra é sentimento. A palavra é, não raras vezes, aquilo que não se consegue explicar. É a ausência de sentido próprio, a pluralidade de demonstrações impossíveis de concretizar. É a redução motora de algo supremo. Como a lógica de um silêncio. Um cigarro pensativo.
Gostava de não falar. De ser incapaz de to dizer. Nessa medida, ser obrigado, unicamente, a demonstrá-lo. Sem provas faladas. Ainda que as palavras sejam esse meu reflexo. Represento-as.
Sei que falo. No entanto, prefiro que o sintas. Entendo que mais do que qualquer palavra que possa dizer, sentida, o gesto do meu corpo, a profundidade do meu olhar, o beijo dos meus lábios, o carinho da minha mão, o abraço quente e seguro dos meus braços, e o que sentes a sair-me dos poros, serão sempre as palavras que desejas ouvir. Porque a nossa mudez é eloquente. Se bem que as palavras nos alegrem, tudo o que não são palavras, arrepia-nos.
Como o odor. O teu.
E a mão.
As pálpebras fechadas.
Quero sentir-te sem as palavras. Usá-las porque sou humano. Amar-te porque sou teu.
Sem elas, as palavras.

sexta-feira, julho 27, 2007

Calmaria

Do chorrilho de letras
Nessa noite corrida
Se faz um dia de cinza cor,
Numa memória vaga
De descompasso e vertigem
No banho do silêncio em tons púrpura.
A luminosidade pictórica do ventre
O claro acolhimento de suave fragrância
Que sofre o contágio que é doce, a folha de algodão
No lábio trémulo e na mão de ferro.
Semente de sol sem raios,
Sem o alaranjado da alma
Com a noção do equilíbrio na corda bamba
A exigência de uma carne queimada
O hálito fechado em língua dormente.
Abraço de calor. Frio interior.
São bonecos de palha, são fios de louvor
Meros estilhaços de dor.
Que doença é essa?
Ausência de letras
Mortificação do ser tão simples
Ordem para avançarmos, para seguirmos
Na amplitude do sentimento que toca
Essa necessidade de protecção
Esse cabelo de saudade imensa
Na volúpia de um corpo que bate
Bate em pedra esculpida
Como um rosto que beija

E uns dedos que te tocam
Na Palavra.
O som dito
Ouvido no eco
Do desejo profundo
Da comunhão etérea
Como são as gotas do prazer
E os segundos eternos
Desse sorriso
Ainda do inexplicável
Que é descobrir-te
E augurar os dias
Do lado da imagem que crio

Tua.
Quero-te sem as palavras
Só nessas letras
Que formam um único som.

quinta-feira, julho 26, 2007

Ser assim

Nunca delimitei fronteiras. Acredito no crescimento e na aprendizagem, no entanto, confio também no que é genético, naquilo que nos define enquanto seres humanos diferentes uns dos outros (e tão iguais). Procuro, como base condutora, não recriminar opções nem julgar comportamentos. Exijo, sim, responsabilidade perante tudo o que se faz. Arcar com as consequências e não só com os louros.
A esfera pessoal traz-nos imensos panos sobre os quais nos podemos deitar e dirimir. É comum haver e encontrarem-se similaridades entre as pessoas, sobretudo entre os sexos. Este é não só um dado por si só óbvio, como acaba por nos ajudar a entender um pouco aquilo que, por inerência, é incompreensível: nós mesmos. Fornece-nos uma linha, um raciocínio a seguir, uma ilusória noção de conhecimento.
Entendo que jamais procurei a diferença; não sei se ela se formou dentro de mim, se nasceu formada, ou se foi (é) fruto do processo de crescimento. Sou diferente. No bem e também no mal. Ou melhor, sou diferente no bem porque também o serei no mal – quiçá. Não me afecta. Nunca me afectou. Foi algo que não defini para mim. Aconteceu. Limitei-me a optar, sempre. A agir em consciência. A ser eu próprio, fosse qual fosse a situação e, sobretudo, fossem quais fossem as influências negativas a penderem sobre a minha decisão. Gosto de confrontar as pessoas. Gosto da minha cabeça. Dos meus sentimentos. Sei, sobretudo, que não sou único. Não pretendo sê-lo. Pretendo, sim, e sendo como sou, fazer de uma pessoa, única. Esse alguém que me terá, tal como eu sou.
Mais ninguém.

terça-feira, julho 24, 2007

Indivisível

Escrever um tratado.
Descrever.
Explicar por palavras.
Alcançar o impossível e desejar ainda mais.
Cada gesto teu.
O estado de sermos quem somos, verdadeiramente.
A força que me atrai; que me impele a dar sempre tudo.
Verbo transitivo.
Adjectivos no paroxismo do sentimento.
Noção do caminho que agora recebe os primeiros passos.
Linguagens.
Sentir-te dentro de mim, parte de algo.
Não querer explicações para nada.
Reverberar perante a felicidade dos outros.
Alegria imensa.
Saber como és. Perceber-te. Alcançar-te.
O tempo que se ganha. Aquele que se conquista.
O mar que avança. O vento que sopra e o calor que se sente.
Jardins sem metáforas.
Amor.
Palavras de papel.
Versos escritos.
Corpos na lua.
Imagens sentadas.
Tudo o que se reduz.
Não nas letras.
Não no som.
Nisso, aí dentro...
Que só tu sentes.
Porque eu... sou apenas um.

segunda-feira, julho 23, 2007

MM de Luz

Luz. A palavra que me assola à cabeça.
Luz. O que vejo.
Luz. A noite transformada em dia. A noite vivida. A noite sentida.
Luz. Esse olhar de tonalidades que me cerca e me fascina.
Luz. A força de uma partilha sem receios. A claridade de dois seres que não temem as verdades.
Luz. Compreensão espelhada.
Luz. A vontade de te ter do meu lado. De te ver sorrir. De sentir.
Luz. As letras que te compõem.
Luz. As brincadeiras criadas sem se saber. Os risos perdidos na beleza das palavras que trocamos. Sentir a tua respiração colada à minha, o teu cabelo no meu ombro... a tua mão. A pele que me chama. O toque que me arrepia. A sinceridade que se respira. A admiração que é um simples olhar. Mudez.
Luz. Os desejos que se trocam. As promessas que não se fazem. A noção de saber que és assim, de reconhecer qualidades e defeitos. A percepção permanente de que o tempo é nosso. Sem pressas.
Luz. Abraço a Luz. Respiro-a. Toco-lhe.
Luz. Seres assim. A sensibilidade. O coração e a mente. A boca. O som que ouço, candido. Perder-me nas tuas palavras. Sentir cada gesto teu.
Luz. Do teu lado.
Luz. Viver cada dia com uma certeza apenas: quero-te aqui.
O aqui sou eu.

sexta-feira, julho 20, 2007

Sei o teu nome

Cantar de alegria porque a manhã nunca se perde
Viver a noite como se o teu rosto fosse a luz da madrugada
Tocar na pálpebra que fecha como reflexo do sentimento
Saber que as minhas palavras não têm qualquer sentido
Que o silêncio é a magia que nos envolve
Como um abraço que é dado sem amanhã que exista
Parar o tempo.
Voar para fora da cápsula e perceber que o teu sorriso encanta os meus poros
Que o controlo existe para se perder
Para deixar que o sentimento seja a razão de ser
E olhar o brilho do olhar que me mira.
Olhar-te
Na alma.
Nas sombras brancas, no perfumes e nos odores.
Volta para mim.
Prende-me a mão.
Diz... o que só tu conheces
Mesmo que não precises de o fazer, fá-lo
Apenas por saber que o sentes
Tal como eu
Sentimos esse nós.

quarta-feira, julho 18, 2007

Olhar por ti

A música como veículo. A intensidade das cordas que não prendem. Saber que gostar de alguém é querer que essa pessoa seja como é. Recolhê-la. Deixar que o nosso interior penetre o seu. Crescer do lado. Errar e aprender. Amar esses defeitos que nos conquistam. Sorrir nas dificuldades. Fazer do dia-a-dia uma descoberta constante. Aprender a olhar o mundo com os seus olhos também. Evitar egoísmos. Saber que para se fazer alguém feliz é preciso, antes de mais, ser-se feliz consigo mesmo.
A busca que nunca termina.
A palavra que se dedica.
O som que se partilha.
O momento que toca.
A liberdade que se cria.
Rumar em conjunto e abrir a mão para te recolher.
Dar-te cada pedacinho de mim. Assim, como sou.
Como te descobri. Como te quero. Sempre assim.
Do lado.

segunda-feira, julho 16, 2007

Abraço do tempo

O que se diz sem que as palavras soem
Os tais silêncios que falam
Os dedos de poesia que carregam mares inteiros
Salgados
A ternura da presença e o aperto da ausência

Quero ter-te junto a mim
Poder tocar-te
Abraçar-te.
Sorrir só para ti
Andar, passear sem destino e sem tempo
Esquecê-lo, ao tempo

Aproveitar o sol interior
Saber que o amanhã existe sem me preocupar com ele
Porque hoje estou contigo. E é contigo que quero estar
Partilhar a história que trago escrita em mim e servir de folha e de lápis
Abraçar-te.

Ouvir a tua voz e sentir o afago do beijo
Reagir à gargalhada, ao olhar que me prende
Não pensar. Não olhar para o relógio. Não me preocupar com mais nada a não ser com o abraço que te envolve
Contigo
Com tudo o que quero dizer-te. Ouvir. Sempre
Nesse tempo do mundo. Nosso
Só nosso.

sexta-feira, julho 13, 2007

Um dia será de alguém

Nada tem que ser perfeito, nada tem que ser fácil. Mas também nada tem que ser difícil só porque foi sempre difícil. Somos nós que o decidimos. É essa é a magia do futuro. Por isso, para mim, o passado significa o caminho que nos trouxe, nos uniu, o presente é o agora, e o futuro o amanhã que queremos alcançar. O futuro nunca está longe demais. Nunca. O futuro somos nós, é aquilo que fazemos, que dizemos, que queremos. São os nossos Sonhos. Eu sou o Sonho. O teu?
A tua alma gémea. Que Deus criou.
Sempre pensei que as almas gémeas fossem gémeas por serem «iguais». Sempre me perguntei se existiriam, até. No dia em que te conheci, fiquei a perceber que elas existem, sim, e que existem para nos completarem. Elas são o «oposto» e o semelhante que nos aproxima, nem mais. Como as peças de um puzzle, que são todas diferentes entre si, mas que se unem para formar uma só peça, gigante, una. As almas gémeas. Diferentes por serem tão iguais.
Acredito que fomos «feitos» assim por um motivo. E eu sei qual é esse motivo. Reconheço as tuas qualidades como se elas fossem uma espécie de ar puro para mim. Ar esse que desejo respirar. Encontro nos teus defeitos uma forma de amor, um olhar dócil e terno que me faz desejar ter-te do meu lado. Dar-te a mão. Tenho sempre o meu abraço pronto para te receber. A minha boca para te confortar. Porque eu sou assim. Faço das minhas fraquezas as forças dos que amo. Por isso amo tão poucas pessoas. Não tenho lugar para mais. Não consigo mais. O meu mundo é assim. E é nele que te recebo. Que me dou a ti. Por isso sou incondicional. Por isso te percebo e compreendo. Por isso sou a peça do teu puzzle. Porque sou aquilo que te faz falta. Porque não tenho que fazer qualquer esforço para te aceitar.
Mas nada é perfeito. Nem pode ser! Lutemos sempre contra a perfeição.
E se olho as tuas fraquezas com um sorriso é porque sou, eu próprio, fraco. E porque preciso da tua força. Levanto-te para que me levantes a mim. Quero-te feliz para ser feliz também.
Perguntas.
Respostas.
Espaços em branco.
Perguntas sem respostas.
Respostas sem perguntas.
Encontrámo-nos, finalmente. Eu não te quero perder.
Prefiro pensar que sim. Que te mereço. Que tu me mereces.
Porque... assim como tu és... eu amo.

quinta-feira, julho 12, 2007

Dia e noite

Dia de silêncios. Dia de estradas contadas pelos dedos.
Dia de nascimentos. Dia de esconder os olhos. Dia de revelar o sorriso da alma.
Dia de sol. Dia de calor. Dia de escrever a lápis e apagar o que se escreveu.
Dia de pensar que tudo tem uma explicação.
Dia de saber que foi esse passado... que conduziu a este presente.
Dia de encontrar pedaços perdidos.
Dia de ouvir músicas que nos tocam e partilhar esses momentos.
Dia de dar parte do que somos.
Dia de não prometer nem jurar.
Dia de ser.
Dia de sentir essa presença.
Dia de não poder dizer nada.
Dia de perceber.
Dia... dia... dia...
Dia de esperar pela noite, e sonhar.

quarta-feira, julho 11, 2007

Rastilho de ti

O encanto servido em bandeja de prata. Flores em jeito de prosa. Versos ao mar!
A areia da praia que se infiltra nos ossos. A espuma de sal como coroa à volta da cabeça.
O sentimento que não se perde e que o sol aquece com ternura.
O cinzento que se esbate na lonjura que é o arco-íris.
Vento calmo. Sem promessas. O passar do tempo, tranquilo.
Dias que se seguem. O mundo que se recolhe. A felicidade que se conquista a todo o instante porque não há razões para não a sentir, para não acreditar nela.
Fundir almas.
Não encontrar explicações para o inexplicável. Vivê-lo.
Passar a mão no cabelo para nos sentirmos vivos.
Soltar a gargalhada que arrepia. Conter a lágrima que se esconde.
A maciez dos dedos no ventre. A esperança de guardar dentro de ti parte de mim.
O baú dos sonhos. O sonho da realidade diante dos teus olhos.
Milhares de sentidos num só significado. Tempos unidos.
Beijos perdidos no abraço.
Narizes que se tocam. Corpos de cera. Luz.
O fósforo que é a vida. A chama que és tu.
Uma vela em mim.

terça-feira, julho 10, 2007

Poesia falada

A chuva que nos conquista a alma. Aquele dia de não sair de casa. Olhar o mundo pela janela da sala. Sentir o sofá como a cama perfeita para os nossos sonhos. Beber chá. E ter aquela companhia que faz toda a diferença porque é a que desejamos. Sentir que o sentido existe. Que a loucura dos dias fica lá fora porque cá dentro somos só eu e tu. O filme que se vê e comenta. O riso. As frases que se trocam dos livros que se lêem. O toque da mão dada. Aquele carinho melífluo do tempo que pára. Aconteça o que acontecer, estaremos ali, juntos, embrulhados num cobertor de olhares a ver a chuva cair. Esse calor. O contágio do som das gotas no parapeito.
Adormeces do lado com a cabeça no meu colo. Tiro a fotografia e fico a contemplar-te mudamente, sem me mexer. Acaricio o teu cabelo e confesso-te ao ouvido que gosto de ti assim; sei que me ouves, mesmo durante o sono. Ouves-me porque és também a minha voz e a minha boca, e essa magia é única e imperdível. São momentos que não se esquecem, mesmo quando sabemos que o tempo é nosso, que somos nós a construir os segundos que se sucedem. As pequenas coisas; os pequenos gestos. O passeio dentro de casa. A impressão de que se tem tudo para dizer e não se consegue dizer nada, porque à medida que vamos falando vai havendo mais e mais para dizer. Para te dizer.
Mesmo que todas essas palavras não sejam suficientes.
Mesmo que só uma seja o ar que respiro.
O teu nome.

segunda-feira, julho 09, 2007

Peito

Entupido de palavras. Razões de escuro sangue. Sentir o peito a rebentar. Prisão sem grades. Ritmo descompassado. Escrever por metáforas para não assustar. E não para ser ou não ser descoberto. Revelado. Será difícil perceber que é esse o desafio, que luto por encontrar esse «outro lado»? Será difícil de entender que a busca é incessante porque não faço nada pela metade, apenas?
Construir. Partilhar. Dar e receber. Ter a noção de crescimento. Olhar e sorrir para o sorriso. Olhar de dupla cor. Abraçar o carinho e sentir essa dor. Beijar a dor e sentir o carinho. Acariciar o rosto e sentir ardor. Encostar a mão e sussurrar-te ao ouvido. Dizer-te que és... o que procuro, que encontrei sem saber que procurava. Que queria. Dizer-te que as palavras não bastam. Que o nariz queima.
Queima...
Como quando não sei o que fazer com elas. Elas, as palavras.
As palavras do meu peito.
Schhh...

sexta-feira, julho 06, 2007

Improviso

Esse sorriso que não se apaga nunca
A doçura de ter os cabelos ao vento
A sombra que não ensombra o brilho do olhar
O batom que marca a presença do beijo

A mão cuidada e a pele de cetim
A maciez dos sentimentos e a certeza da voz
A alegria que contagia, a brincadeira que se cria
A paz que se sente no caminho que pisas

Roupas, fitas, pulseiras e cintos
E os mesmos traços por dentro,
Mesmo quando o rosto chora
Trazer o que é pequeno dentro do coração
E torná-lo grande por ser teu
Tranquilidade conquistada, ternura aberta
No sol, no céu, asas ao vento e beijos no ar
Esse amanhã que brilha
Porque quem brilha és tu.

Suspiro

Palavras como bolhas de sabão que o ar não destrói. O encanto não do sorriso, não do olhar, não do toque - a pulcritude do teu ser; a personalidade moldada pelo carácter que exala. Os ponteiros do relógio que se sucedem com um grito perante a espera que lava a esperança e a mantém viva.
Tinha de te encontrar.
Batida que o ritmo provoca dentro de nós. Sons de génio. Loucuras triviais. Caminhos. Passos entrelaçados pelo desejo de ter perto o segredo que revela o amanhã. Construir a arca. Recuperar o fôlego. Estrelas que não brilham porque não se vêem. Música escrita para ti. As cores do mundo. A voz da prece. A beleza de trincar o lábio quando se está perdido.
Pego nesta flor e imagino o teu rosto por detrás dela. A fotografia viva do odor.
Qual imagem?
Linhas de retoque no teu rosto. Curvas de plasticina. Coragem de barro seco.
Partilha. Saber que são as qualidades que nos conquistam; que os defeitos nos mantêm juntos. Reconhecer que nos movem, que nos fazem amar a pessoa que está do nosso lado. Para a vermos crescer, connosco; e que esse crescimento seja mútuo.
Palavra de tinta que pinto no teu corpo.
Essa palavra. A única.
A palavra que não é som.

quinta-feira, julho 05, 2007

Como tu

Confesso que não era nada disto que eu queria fazer. Admito que não eram estas as palavras que gostaria de escrever. Sinto-as, sim, mas sinto que são redutoras e nada expressam. São palavras meigas quando queria que fossem arrebatadoras.
Como tu.
Confesso que adoro confessar-me. Deixar que a minha suave fragrância penetre pelos poros. Ser envolvido pelo odor alheio. Sentir aquele arrepio quando pensamos em alguém que mexe connosco porque... nos surpreende. A magia existe e eu acredito nela. Vamos conhecendo alguém lentamente, deixando que o seu ser nos arrebata, que a sua «voz» seja o nosso sorriso constante. A palavra dela é mais forte e sentida, o abraço é único, o beijo consegue curar qualquer enfermidade da alma, a personalidade faz-nos sentir seguros e conquistados, o carácter encaixa no nosso, a sua força é aquilo que nos faltava. O olhar, o cabelo, o tom da pele e o seu aroma irreproduzível. O gesto. A mão. O carinho. O mimo. A doçura. Aquele pormenor que simplesmente faz a diferença em nós. Porque se partilha. Porque se sente. Lembra-me a diferença entre oferecer um ramo de cem flores a quem não gosta de flores ou oferecer uma flor a quem ama as flores. É essa a diferença. A diferença que faz destas palavras muito mais do que o significado de cada uma delas. Como que se virando o texto de pernas para o ar ele tivesse o seu verdadeiro sentido expresso entre as linhas do inverso. Mas deixaria de ser lido. Único.
Como tu.
Confesso.

quarta-feira, julho 04, 2007

Fundo

Acusam-nos de sermos ou de não sermos; não nos perguntam se somos ou se não somos.
Interessa-me essa condição avassaladora alheia. Diverte-me. Sobretudo quando a análise é profundamente errada. É o tal equívoco prazeroso. Acontece amiúde. E tem lugar porque eu próprio o procuro nos outros. Encaro-o como uma verdadeira condição; à qual só os que penetram no meu coração escapam. E esses são tão raros... Ia escrever «infelizmente» mas... é com convicção que reescrevo, «felizmente». É fantástico conhecermos novas pessoas, lidarmos com elas, aprendermos a fazer e a não fazer mediante o que vemos nos outros, no entanto, é pequena a parcela daqueles que ficam guardados cá dentro. E ainda bem! Não que o nosso coração não tenha espaço para muito mais, porque o tem, na verdade, contudo, é quase uma prova de destaque para os que se distinguem dos demais. São as pessoas que fazem a diferença, aquelas que lembramos e recordamos a cada instante. Aquelas em quem pensamos nos bons e nos maus momentos. Diria que têm mesmo de ser raras; poucas. As relações são vastas, os círculos imensos, mas o nosso «mundo» é reduzido, é um pequeno canteiro de luxos, cores e odores. Tudo adquire mais sentido. Essas pessoas conhecem-nos. Vão-nos conhecendo mais e mais. Vão abrindo as nossas portas. Lutam por nós com galhardia. Como eu adoro essas pessoas! Haverá sentimento mais especial do que o da ínfima partilha com elas?
Aliás... não sou só eu que digo que «gosto das pequenas coisas».
É o que faz a diferença.
E tu fazes.

segunda-feira, julho 02, 2007

Jardim de pétalas

E se as pétalas que caem da rosa voltassem a ela ainda com mais vigor?
Curiosa associação se pensarmos que a amizade é assim mesmo. Aqueles amigos que vamos fazendo ao longa da nossa (nada extenuante) vida são precisamente essas pétalas que queremos ver re-coladas no nosso ser, à rosa e ao caule que é o nosso tronco de massa disforme.
Por muito que os anos passem como uma vertigem (dura realidade), essas pessoas com quem estabelecemos laços profundos, de uma maneira ou de outra, estão (estarão) lá. Considero essa a beleza e a magia da verdadeira amizade. «Longe mas sempre perto de nós.» É um absurdo se pensarmos que tão pouco fazemos para mantermos essas pessoas por perto. O reencontro é tão bom, tão prazeroso, mas não o será mais ainda a manutenção e o aprofundamento?
Pessoas que marcam. Que não esquecemos. Que para sempre consideraremos nossas amigas. Estranha função. Tal como aquele odor que não desaparece. O bálsamo de um cabelo que não esquecemos. A palavra que nos lembra, o gesto que aviva recordações. E nunca nada é posto em causa; porquê? Amizade. Os anos pesam quando falamos de alguém que nos conhece para lá do que é possível contabilizar. Por muito longe que tenhamos estado, que estejamos, a presença é sempre sentida. Salutar. Resta-nos fazer por manter esses laços; procurar essas pessoas; trazê-las para junto do nosso mundo. Ele ganhará novas cores com esses amigos de velhas tonalidades. Um arco-iris de metamorfoses perenes.
É tão incompreensível ir deixando cair essas pétalas ao mesmo tempo que se procuram outras, novas... O ideal será sempre manter bem regadas as que temos, sem nunca descurar a descoberta e a procura que tanta falta nos faz. Até porque só assim as novas e as antigas pétalas farão sentido. Nenhuma rosa faz um jardim. Por maior que esta seja ou menor que ele pretenda ser.
A «vocês» que se plantaram no meu jardim há tantos e tantos anos... isto é vosso.

visitas