Toque de madeira
Sonhei que me pediste mimo. Aquele sonho que nos conduz a um lugar longínquo de perfeição porque sentimos que somos capazes de voar. Perdemos o peso do corpo porque ganhamos a dimensão da alma. É essa a sua lógica. Talvez a lógica do amar. Do sentir que fomos feitos para alguma coisa; para alguém. E que durante todo esse tempo - que pode ser infinito -, a vida fez realmente sentido - pleno. O sonho... eras tu e eu. No mar. Na praia. Sim, deitados na areia. Olhei-te nos olhos e percebi tudo aquilo que sentias. O teu sorriso é transparente. A tua pele precisa do meu toque. Não abriste a boca com os lábios. Nessa medida, não «pediste» mimo como descrevi anteriormente. Foi essa a magia, entendes? O sorriso pueril que me diz o que precisas. O esvoaçar do cabelo encaracolado, castanho, quando estás a dar-me a mão. O murmurar que ressoa ao meu ouvido e provoca a certeza de que a ti que quero do meu lado. O mimo. O carinho. Pouso o meu corpo do lado do teu, sem te tocar. Ergo um braço sobre ti e vagueio com um destino certo. Um caminho que eu conheço melhor do que qualquer estrada. Toco nos teus olhos e fecho-os levemente. Preciso que adormeças também. Que entres no meu sonho para que eu te possa alcançar. Pergunto-te: percebes a metáfora? - não me respondas...
Só então posso cumprir o desígnio; o pedido feito sem que os lábios se mexessem. O pedido que é feito com o que sentimos cá dentro. O carinho que é dado sem se esperar retribuição. Simplesmente porque o que recebemos é a possibilidade de podermos dar. E eu dou-to, a ti. E só a ti. Mesmo na espera. Mesmo que seja preciso fazer-te adormecer para que entres de novo no meu sonho.
Será o meu toque a revelar tudo aquilo que o sonho representa. O meu toque em ti. Um toque humano num corpo de madeira.

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