quinta-feira, junho 07, 2007

Anemia

Foi na falta desse sangue que surgiu a corrente
A sofreguidão de uma luz que corre sem parar
Que supera obstáculos porque não os vê, a luz,
Rasteja para chegar até ti
Trepando muros e paredes para poder penetrar essa alma
Imensa
Nesse caminho de regresso em que escreveu o que faltava acontecer
Aquilo em que acreditavas
O que terias, um dia, numa mão enclavinhada com a tua
No sorriso de um olhar que não precisa do esgar
Para ser real, sentido, uma comunhão de cores a matizar
Um horizonte que insiste em ser maior, maior, e maior
Fruto do que vai crescendo, aqui e aí, no pleno do regaço
Que é o conforto de saber-te viva.

Foi essa falta de sangue que fez o esforço do encontro
A dura luta na noite, entre mares de gente desconhecida
O olhar presente, ao longe, aquele que toca sem usar as mãos
O que faz aproximar sem necessitar da presença
O que comunica além do brilho e das palavras
Encontrar-te, nesse silêncio que me confessa um odor
Um gesto que se confunde
Pelo toque no teu rosto, no cabelo que dança enquanto caminhas
Vens,
O trajecto do segredo interior, essa voz que clama lumes por acender
Voos picados de sensações, gargalhadas enterradas na areia
Ondas… ondas de espuma onde o que existe é para ser vivido
No instante, nesse peito onde a hora sabe existir
Porque se faz inteira, não somada.

Somos folhas em branco, essas onde a gota tombou
A marca perene que nos identifica na metáfora exangue
Lápis em punho, a riscar, a escrever, a colorir, a voltar para trás e a avançar
Partilhar histórias escritas por dentro, desejar no teu corpo os contornos
Que se fundem no abraço sem tempo e sem espaço
Livres para podermos ser plenos, livres em nós, livre por nós
E unidos nas asas desse sonho
Que movimenta em volta, que enternece, que me diz que o vapor
Da tua respiração é a força das pernas que nos farão saltar
Por momentos que acontecem lá em cima
E que aqui são espelhos
Tão perfeitos e reluzentes que nos ofuscam na certeza de algo superior
Mais forte, mais intenso do que a explicação por oferecer
Tanto, que só a construção será capaz de nos alcançar no topo da montanha.

Há odes poéticas e há poesias sem poemas
Frases sem significados, ritmos sem dança, vozes sem cordas
É dessa profusão de sensações que padeço junto a ti
Que me aproximo para ficar, que me dou para te ter, que faço para ser assim
Ter-te para ver as linhas de um rosto que esconde os mares
De tudo o que alberga no ínfimo espaço de um coração que me aperta
Pleno de descoberta em alegorias que são sempre o passo seguinte
O que falta, que é tudo, que é perpetuamente tudo, quando o que se reconhece
É nosso, é plural e intenso, pintado por duas mãos terrenas que se tocam;
Uso o beijo para dizer ao amanhã que chegaremos, um dia, que vamos dentro dessa hora
Que tudo guarda sem temer que o que vive permaneça secreto
Por isso mostro-te tudo o que desejo em ti
Desde o segredo que és, ao que sou eu, ao que me diz que o teu sangue é meu
É sangue porque ele dá vida; e nós vivemos nele. Os dois.

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