Anemia
Foi na falta desse
sangue que surgiu a corrente
A sofreguidão de uma
luz que corre sem parar
Que supera obstáculos
porque não os vê, a luz,
Rasteja para chegar
até ti
Trepando muros e
paredes para poder penetrar essa alma
Imensa
Nesse caminho de regresso
em que escreveu o que faltava acontecer
Aquilo em que
acreditavas
O que terias, um dia,
numa mão enclavinhada com a tua
No sorriso de um
olhar que não precisa do esgar
Para ser real,
sentido, uma comunhão de cores a matizar
Um horizonte que
insiste em ser maior, maior, e maior
Fruto do que vai
crescendo, aqui e aí, no pleno do regaço
Que é o conforto de
saber-te viva.
Foi essa falta de
sangue que fez o esforço do encontro
A dura luta na noite,
entre mares de gente desconhecida
O olhar presente, ao
longe, aquele que toca sem usar as mãos
O que faz aproximar
sem necessitar da presença
O que comunica além
do brilho e das palavras
Encontrar-te, nesse
silêncio que me confessa um odor
Um gesto que se
confunde
Pelo toque no teu
rosto, no cabelo que dança enquanto caminhas
Vens,
O trajecto do segredo
interior, essa voz que clama lumes por acender
Voos picados de
sensações, gargalhadas enterradas na areia
Ondas… ondas de
espuma onde o que existe é para ser vivido
No instante, nesse
peito onde a hora sabe existir
Porque se faz
inteira, não somada.
Somos folhas em
branco, essas onde a gota tombou
A marca perene que
nos identifica na metáfora exangue
Lápis em punho, a
riscar, a escrever, a colorir, a voltar para trás e a avançar
Partilhar histórias
escritas por dentro, desejar no teu corpo os contornos
Que se fundem no
abraço sem tempo e sem espaço
Livres para podermos
ser plenos, livres em nós, livre por nós
E unidos nas asas
desse sonho
Que movimenta em
volta, que enternece, que me diz que o vapor
Da tua respiração é a
força das pernas que nos farão saltar
Por momentos que
acontecem lá em cima
E que aqui são
espelhos
Tão perfeitos e
reluzentes que nos ofuscam na certeza de algo superior
Mais forte, mais
intenso do que a explicação por oferecer
Tanto, que só a
construção será capaz de nos alcançar no topo da montanha.
Há odes poéticas e há
poesias sem poemas
Frases sem
significados, ritmos sem dança, vozes sem cordas
É dessa profusão de
sensações que padeço junto a ti
Que me aproximo para
ficar, que me dou para te ter, que faço para ser assim
Ter-te para ver as
linhas de um rosto que esconde os mares
De tudo o que alberga
no ínfimo espaço de um coração que me aperta
Pleno de descoberta
em alegorias que são sempre o passo seguinte
O que falta, que é
tudo, que é perpetuamente tudo, quando o que se reconhece
É nosso, é plural e
intenso, pintado por duas mãos terrenas que se tocam;
Uso o beijo para
dizer ao amanhã que chegaremos, um dia, que vamos dentro dessa hora
Que tudo guarda sem temer
que o que vive permaneça secreto
Por isso mostro-te
tudo o que desejo em ti
Desde o segredo que
és, ao que sou eu, ao que me diz que o teu sangue é meu
É sangue porque ele
dá vida; e nós vivemos nele. Os dois.

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