domingo, junho 10, 2007

Folha de papel

Gostava de ser capaz de escrever uma carta de amor. À moda antiga. Saber o que se escreve, como se descreve, conseguir expressar um sentimento num pedaço de papel. As cartas de amor como uma preciosidade que do ontem se perdeu inelutavelmente. Nunca mais se escreverão cartas de amor. Cartas com linhas sentidas e pensadas. Linhas amadurecidas por dezenas de papéis rasgados. Cartas onde nada poderia ser deixado ao acaso; onde nada poderia ser esquecido. Cartas únicas como era a noção do tempo. Da espera. O fermentar dos sentimentos nelas expressos.
Poderia até ter o desejo de tornar este texto nisso mesmo: numa carta de amor - escrita apenas num outro formato. No entanto, descubro-me incapaz. Não vejo as linhas, não sinto a textura do papel, o veio da caneca, o odor do envelope, a colagem do selo, a partida da carta das nossas mãos trémulas e esperançosas. E a espera... A espera que torna tudo mais romântico; mais avassalador.
Sou incapaz.
As linhas confundem-se na cabeça. Precisava de ti, aqui, comigo, do meu lado, para poder escrever-te a carta de amor que guardo cá dentro. A verdadeira. Aquela que não tem esboço, não tem rascunho. Uma carta onde nenhuma folha é rasgada, onde nenhuma palavra é rasurada.
Talvez se tenha perdido a carta para sempre e se tenham ganho novas formas de o revelar. De o levar ao paroxismo, de fazer dele o caminho. Sem nunca o subjugar. É nisso em que acredito, por sentir que são as palavras que contam; que por muito que o papel tenha deixado de ser usado, obrigatório, as palavras subsistem. As minhas. As palavras que sinto. Dessa forma, e por sentir-me incapaz de as escrever numa folha, quem sabe não serás tu a folha que eu procuro? O teu corpo como pedaço de papel virgem – pronto a ser escrito pela minha mão. Não pela tinta de uma qualquer caneta. Não uso caneta. Não uso tinta. Uso Lápis. Uso carvão. Por razões que talvez só eu reconheça.
Razões que te direi, ao ouvido, no dia em que puder segredar-to.
Tal como se escrevia no papel. Esse segredo confiado e selado a saliva.

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