Ardor da noite
Escassas aquelas palavras que afluem. Mais uma noite sem ti. Mais minutos perdidos por não te ter do meu lado.
Um novo segundo que escoa...
Sem ti perco a razão de ser. Liberto-me mas fico preso a tudo o que é exaurível. Deixo de albegar aquilo que dentro de mim faz a diferença. O pouco.
Procuro o teu cheiro na minha almofada. Recordo os teus caracóis mas sou incapaz de relembrar o odor de cada travo desse cabelo.
E esse é um novo segundo que escoa...
Talvez devesse mexer-me, não sei. Levantar-me da letargia que é a tua ausência e ir no teu encalço pelas ruas, pelos caminhos, pelos rios, guiado pela lua. Onde estás?
Escondes-te, temerosa. Trazes presa a ti a incerteza. O desequilíbrio. Nunca sei se amanhã te verei... e por hoje sinto que todos esses dias em que não te tenho são dias perdidos.
Segundos que se escoam... sem sentido.
O tempo nem sempre faz esse «sentido». O seu movimento é desconexo. A constância do segundo que se estende no minuto é descabida. Somos fruto da incongruência, da complexidade simples, da incoerência que nos dá as cores do corpo. Vivemos aos repelões, pura e simplesmente insatisfeitos, irrealizados e sofredores.
Ou não.
Há quem alcance esse estado sublime do equilíbrio. A paz interior. A apelidada «felicidade». Chamo-lhe planadora. Vai, vem... esvai-se...
Eu não procuro o que é estável. Eu sou estável. Por fora. Para o mundo que me rodeia.
Busco o desequilíbrio. Busco o que não se tem. O que não existe. Por isso procuro. E espero...
Espero que o segundo seguinte escoe... e tu estejas do meu lado. De novo.

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