Amor incompleto
Controlar o corpo.
Ordenar. Saber o que fazer. Ter consciência de que nem tudo é válido. Imaginar para evitar. Adormecer tranquilo enroscado nos lençóis de seda.
Seda. Pensamento que se esvai em grito de langor. A seda que nos toca nos lábios. O sorriso que esboças e o peito que abraças.
Porquê gemer?
A temperatura que sobe como numa batida ritmada pelo pé. A imagem que sucede à palavra proferida pelos dedos. O desejo que aumenta impudicamente. A ordem que imana dos sentidos e nos percorre.
É essa a minha vontade. O irreprimível desafio de renunciar... ao que nos oferecem de mão beijada. Para quê?
Orgasmo. Fluxo de brilhantismo incompreendido. Esboçar um ricto que permita escapar à medíocre incompreensão alheia. Ser esquivo. Omitir por inspiração. Ludibriar para não ser acompanhado. Rugir para ser ouvido e largado. Solidão vaga de tortura manietada. Descrença sentida e postura sem sentido.
Sento-me no chão e evito respirar. Sei que por muito contaminado que o ar esteja, serei incapaz de conter a respiração para lá de um certo limite.
Limite.
Respiração. Ar rarefeito. Incapacidade de amar. Ou de o ser. Ou de não o fazer como faço.
Jamais renunciar. Preciso que me cortem os braços.

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