quarta-feira, junho 27, 2007

Inflexão

Uma vez mais o sabor da terra na boca. O travo do iogurte na ponta do mamilo. O odor da rosa murcha. A distância da saudade presa na espada que fere. Coração de zinco, este. Intimidade perdida no contacto de ontem. Suspiro vago em correntes de fogo-fátuo. Artimanha celeste. Palavra dura de explicação evidente. Sílabas e actos. Miséria e sensatez. Gestos e significados. Por fim e em último: a quebra da rotina fastidiosa. Chega hoje.
Os pontos do sentido requebrado.
A ilação infundada por não se perguntar a lógica do acontecimento que é fácil de explicar e levanta dúvidas legítimas apenas por não se saber do que se trata sem, no entanto, querer que a defesa seja possível mediante o que é limpidamente honesto e frontal dentro de tudo o que já se viveu e ainda se pretende viver, ainda que o temor da desconfiança de agora seja nuvem caliginosa indesejada por motivos inexistentes da cobrança que desejo e do toque que procuro em ti por sentir que incrivelmente me fazes falta na doce noite dos meus sonhos de realidade acordada.
Acende a luz e olha-me. Não digas que não. Procurar o princípio e não temer o fim.

segunda-feira, junho 25, 2007

Vilão

Ter o que dizer sem saber o que se diz. Aguentar o peso de uma existência maldita. Suster a respiração para morrer com o ar dentro dos pulmões. Abraçar o corpo alheio e sentir os ossos a estalarem. Cabelo a cair das têmporas em cachos de negro perfume. A pele envernizada pela saliva de um anacoreta. Reagir com um riso estridente perante a absurdez da palavra calada. Aquele olhar de profundo preto e fria indiferença. A consciência do acto. A acuidade cuidada e cirúrgica. Perceber que o ouvido suspira pelo cicio da minha voz. Acreditar que a luta é igual e torná-la significativa pela perda iminente. Verbos trocados. Rosto de candura que esconde o monstro de papel. Romper o caminho sem o desbravar. Corpo sentado do lado e ausente. Mão fechada que solta o que vilmente segura entre os dedos. Contradição entre as letras e o sentido das mesmas, quando juntas. Percepção alheia errada, sorriso lavado e desonesto. Mensagem coerente alicerçada em toros corroídos. Decadência iminente. A queda antecipada do cometa pessoal. Hemisfério de Hawking vazio. Espírito de textura descamada. Alvoroço interior. Premissa em silogismo infundado. Odiar por não saber amar. Estado conflituante. Frieza não aparente. Linhas que se sucedem sem pausa. Imagem bi-dimensional da realidade rósea em dificuldade de controlo. Possuir por desconhecimento absoluto. Amor em areias finas. Deserto de sentimenos vis. Olhar angelical deixado para trás. Sem esquecimento. Sem memória. Sem tacto. Músculo suspenso e infame. Desígnio cruel e futuro cinzento. Tremura. Colapso. Braço dilacerado. A resposta do mundo em juízo perfeito. Solidão escura. Persiana corrida e isolamento forçado. Sem desculpa porque avisado. Sem perdão porque consciente.
Lentamente. Pérfido.
Marioneta de Maquiavel. Sem cordas.

sexta-feira, junho 22, 2007

Versar

O gesto que envolve o teu corpo e recolhe no silêncio
O olhar perdido que em mim encontra sentido
Essa mão doce que fecha o sorriso que encanta
A beleza do rosto mesmo com a lágrima no canto do olho
O cabelo liso e macio que me toca no braço despido

O passado que te fere e bloqueia
A dor de sentir mal quem bem queremos
Numa luta interior que nos obriga a parar
O dia-a-dia de soluços exangues
A tentativa de recomeçar onde nos sentimos vivos

Sem promessas. Sem juras. Sem os laços que nos apertam
Juntos, de olhar postado um no outro
Aquele abraço que reconforta e transmite o amor que sentimos
A distância que encurta quando precisamos desse alguém
O beijo que jamais se esquece porque é eterno

O mar de sentimentos que vamos construindo
Lado a lado, vencendo marés e ondas
Bandeiras de todas as cores em dias de mergulho
A vontade de te ter perto de mim, mesmo que longe
A ira de não ser capaz de te raptar de uma só vez

Tentativa vã de mostrar o que é de facto...
Aquilo que sabes que existe
Versar para não deixar esquecer nunca
O que quero dizer todos os dias
Na carícia do beijo e dos teus lábios.

Máscara

Deitei-me e resolvi pensar. Estiquei o corpo e apreciei-lhe as formas. Toquei-lhe. Fechei os olhos, mesmo sabendo que a profunda escuridão do quarto não me permitiria ver palmo à frente com eles abertos. Contudo, é um reflexo comum: cerrar as pálpebras em sinal de reflexão, de protesto às imagens que de contrário se veriam.
Fechei.
Não fui assaltado. Muito embora não me sentisse em paz (comigo mesmo). Por influência alheia. Devaneio.
Portanto, pensar. Esforçar o cérebro. Procurar compreender o motivo que leva as palavras a mudarem no «espaço» do tempo. Talvez a distância as influa... e as obrigue a essa mudança tão maldita. O sentido das coisas, não o seu significado. Curioso aforismo.
Gostava de ser capaz de compreender os motivos que conduzem e precedem a exposição. As lágrimas (sentidas?). A voz (genuína?). O sorriso (radioso?). O toque (melífluo?). Suspirei. Não tenho medo de admiti-lo. Fruta descascada num prato de enganos. Sem recear que o pano desça sobre o palco e retire de cena as personagens de cartão. Essa é a grande transformação. O desgosto de acreditar naquela música que nos toca. Imagino o teu rosto porque nunca o vi. Sinto um aperto que me vai libertando. É cruel o que vai acontecer. No fundo, não mereces que a aura te envolva e te carregue como asas.
E tudo ruiu. Sem luta. Sem convicção. Sem explicação. Assim, simplesmente. Como fazem os fracos. Os que não são capazes... Não digo nada mais.
Calaram-se as palavras. Calei-me. Deitado. Olhos fechados. Sinto o meu corpo. O teu, não quero senti-lo. Acabou a magia. Sim, desilusão. O truísmo colado ao meu peito. Sem lágrima.
Sonhei contigo.

quinta-feira, junho 21, 2007

Trapaça

Utilizar a palavra para um funesto fim. Riso forçado mas riso. Acreditar que o sangue escorre em volta da ferida. Talvez não valha a pena entrar na espiral do desejo. Simplesmente omitir que existes e soprar a chama do adeus. A consistência da lágrima que brota do teu olhar. A realidade do que é cruel. O esboço das linhas que me formam. O músculo que contrai a dureza do gesto. Ambivalente na perseguição do encanto que é o florir. Recortar a folha onde a pintura foi feita. Não compreender o ouvido que te lê. A curiosidade do comportamento. A defesa que nem se sente. O significado que se encontra, a rastejar, perdido, na palma da mão. Juro que não te entendo. E que a raridade do sentimento é genuína. O esforço de ter decaminhar para te encontrar, esta e aquela vez.
Será difícil mantermo-nos fieis a nós próprios? Já não peço mais, a ninguém. É um absurdo que me magoa. Adoro a dor. Adoro a dificuldade. Adoro a luta. Adoro o pulsar do ritmo crescente. Adoro o ser imprevisível na concha da lógica.
Fere-me a trapaça! Odeio o que é vão. Odeio a falta de sentido único. Odeio.
Odeio a maçã que já não é pecado.

terça-feira, junho 19, 2007

Amor incompleto

Controlar o corpo.
Ordenar. Saber o que fazer. Ter consciência de que nem tudo é válido. Imaginar para evitar. Adormecer tranquilo enroscado nos lençóis de seda.
Seda. Pensamento que se esvai em grito de langor. A seda que nos toca nos lábios. O sorriso que esboças e o peito que abraças.
Porquê gemer?
A temperatura que sobe como numa batida ritmada pelo pé. A imagem que sucede à palavra proferida pelos dedos. O desejo que aumenta impudicamente. A ordem que imana dos sentidos e nos percorre.
É essa a minha vontade. O irreprimível desafio de renunciar... ao que nos oferecem de mão beijada. Para quê?
Orgasmo. Fluxo de brilhantismo incompreendido. Esboçar um ricto que permita escapar à medíocre incompreensão alheia. Ser esquivo. Omitir por inspiração. Ludibriar para não ser acompanhado. Rugir para ser ouvido e largado. Solidão vaga de tortura manietada. Descrença sentida e postura sem sentido.
Sento-me no chão e evito respirar. Sei que por muito contaminado que o ar esteja, serei incapaz de conter a respiração para lá de um certo limite.
Limite.
Respiração. Ar rarefeito. Incapacidade de amar. Ou de o ser. Ou de não o fazer como faço.
Jamais renunciar. Preciso que me cortem os braços.

segunda-feira, junho 18, 2007

Inspiração

Escrever os sentidos.
Ser escrito por eles. Tremer. Recolher o dom. Esquecer a música dos ouvidos e guardá-la nos poros. Voar por não sentir peso.
Os dedos retesam perante a dor prazerosa que é ter-te encontrado. Saber que estás aí.
É a inspiração. A inexplicável felicidade que não é passageira porque não se apalpa. Não depende de ninguém; de mais ninguém. É uma lógica muda. Como asas de cera. Palavras que se escrevem a si mesmas. Inacções. Funções do corpo. Intestinos. Cabelo puxado para trás. Explicar o sentido das coisas. Não perder a cabeça nem franzir o sobrolho. A trilogia da frase que define. Que te define. Arrancar a pele para sentir a carne. Sugar o sangue para tingir a roupa. Procura perene.
Som.
Odor.
Degustação.
O vinho que escorrega da garrafa para o copo. O líquido que te percorre interiormente. Decantar a alma não para a perceber melhor - unicamente para a saborear. Segredo afivelado no rosto. Dente de prata que masca. Fluxo de loucura que termina por imposição. Coço a cabeça em sinal de dúvida.
Amar.
O dom de ter dedos que escrevem. Os pontos que intuem o caminho que ligam. O ecran que descodifica. A faculdade de sentir a letra que se segue. A dor do parto que implica nascimento e morte. Vida eterna em pintura a lápis. Linhas travessas em pranto constante. Respiração ofegante.
Vacuidade.
Ordem.
Sofrimento.
O coração parará, um dia. Com ele, as palavras morrerão. Dentro dele. O conto do bombear iterativo. Dias sem fim de inutilidade absurda. Horas de horror. Viver. Sentir o teu toque. Vacilar.
És a inspiração. O olhar que carrega a minha existência. A minha sanidade. O risco que une o meu corpo. Deito-me do teu lado porque já estás deitada. Imóvel. Cabelo estendido. Silêncio mudo. Escuridão acessa pela boca que murmura o meu nome.
Pego no livro em branco e escrevo-te. Disse-te que não tens descrição. Que não existes para lá dos sentidos.
Papel.
Quero dormir. Quero que o sonho me conquiste. Que me leves contigo. Não sei se sou capaz. Ajuda-me. Dá-me a mão. Aperta-te no meu peito e cresce comigo. Não sou o fim. Sou apenas um início. Aquele que te quer trazer até ao fim.
Em mim.
Inspiração. É hora de recomeçar.

sexta-feira, junho 15, 2007

Laço real

O beijo apareceu na dança. A música libertou os fantasmas. Ritmou os corpos para que estes se aproximassem.
Eu não danço.
O toque seduziu as pétalas do cabelo. A pele arrepiada pelo contacto das mãos, o roçagar da roupa prestes a ser despida. O beijo. A língua que percorre o interior húmido. As pálpebras que fecham mediante o ardor do desejo.
No caminho, o beijo. No beijo, o pedido. No pedido, a dúvida.
Eu não danço.
A chegada a casa, o cenário desconhecido. A entrada no quarto e a porta que se fecha. A lascívia dos gestos, a premência do intento. E o beijo. A saliva que se troca como se de um pedaço do corpo se tratasse. O discurso directo. A vontade de não abrir a cama e de apenas segurar naquele rosto de olhos fechados. A mão que percorre os seios bojudos. A parede que não deixa recuar nem mais um passo. A cama... E tudo se confunde. Os prazeres que se sentem mas não se pretendem; os que se querem sem se sentir. Tudo vão. A voz que sussurra a carne. A protecção da alma que é oferecida. E o fogo que queima. Sem arder.
Eu não danço, sabias?
Agarraste o corpo e encostaste-o à parede. Já não tinhas as calças e fervias para que eu pusesse o resto de lado. Para que te despisse. Enrolaste-te no meu corpo e pronunciaste algumas palavras. A seguir, uma pergunta. Respondi-te. Não aceitaste o que te disse e apertaste o desejo na mão. Sabias que queria. Sabia que não podia.
Porque não danço.
Foi o laço que me salvou. O laço que ia caindo e desvelaria o conteúdo do odor. E então não haveria recuo possível. O corpo conquistar-me-ia no momento em que a carne já despida violentasse as minhas pálpebras sequiosas. O laço escorregou e eu lancei-lhe a mão. Sorriste num primeiro instante, apenas até te aperceberes que não ficarias exposta. Apertei o cordão e dei novo laço. Construí-te. Dei-te uma nova dimensão. Apaguei a luz do devaneio e tu irrompeste num pranto sem paralelo. Deitei-te na cama e amei-te somente com a pele. Amei-te com a superfície da minha alma. Porque é possível amar apenas a superfície, sem lhe tocar. Ficámos assim até adormeceres. Até que as lágrimas secaram no teu rosto lavado. As lágrimas de um dia que recordo com ternura.
Simplesmente porque dei o laço. O laço da tua própria existência.

quinta-feira, junho 14, 2007

Dúvida

Diversão lunática. Vício que aquece a alma por fazer sonhar. Copo de leite na mesinha de cabeceira e livro debaixo da almofada. Cama desfeita. Corpos que se levantam sem protestar. Olhar que se troca por palavras que foram esquecidas e enterradas.
Sei que te quero.
Desconhecer o sabor da orelha. Penetrar o espelho que reflecte o rosto cansado. Escorregar sobre o suor lascivo das pernas entrelaçadas. Lamber a pele. Gritar os pulmões e arquejar. Fechar os olhos para poder olhar para o sol. Atravessar o rio de pés descalços. Pedir que me ames.
Sei que te quero.
Caminhar com as mãos. Ouvir música e chorar por ser mudo. Entrar no comboio da desilusão para sair na estação da esperança reencontrada. Acreditar na voz quando as letras não fazem sentido. Cortar o dedo que escreve. Esquecer as mazelas da alma e procurar um novo sim. Sentir o vento a beijar a face e a chuva a encolher os ossos. Viajar por não se saber se morreremos, um dia. Promessas sentidas vazias de todo. Planos a esvoaçar na tempestade da certeza. Interior profícuo que dilacera. Momento de juízo em memória perdida. Digo-te o que sinto porque o sei.
Sei que te quero.
Não sei como nem porquê. Nem quando. Nem durante quanto tempo. Isso é para outra vida.
Quero-te. Simplesmente sei que te quero.

quarta-feira, junho 13, 2007

Esgar

Bip.. bip...
Quatro por quatro, salta em quatro..
Música, transe
Deitados/queimados/corpos no chão
A-dor/a razão
Ritmo/sem tino/rostos/na mão
Bip.. bip...
Letra
Violeta
Mistura no ar
Preto no branco/asas, brasas/sempre a saltar
Quente/latente/rugido/gemido
Bip.. bip...
Música em transe
Perdido/despido/sentido/unido
Palavras soltas
Batida.. bip.. bip...
Dedos pregados ao tampo
Pulso riscado por tudo o que foi dito. Boca selada.
Acreditei. Senti. Viajei. Guardo a memória do olhar alvo. Das teclas brancas. Da rosa na cabeça.
Foi tudo em vão. O ontem, o hoje. O amanhã é meu.
Não sei sofrer. Ardor no golpe auditivo. Lucidez invisual. Pergunto-me que raio guardarei cá dentro como íman...
Se a lágrima descesse. Se o rosto tombasse.
A verdade. A honestidade pedida, reclamada. O pedido do não sofrimento.
Olha-me. Se me reconhecesses, saberias dizê-lo.
Não te procuro mais. Se te encontrei, perdi-te. Se te vi, esqueci-me. Se me recordas, esquece.
Esgar.
Sorriso ambulante em cola transparente. Batimento. Mosquito em sangue.
Qual lucidez?
Sentido desfeito. Música como um acaso perdido. Se quero, engano-me.
Se me lembro, morri.
Sozinho.
Quatro por quatro. Salta... em mais de quatro.

terça-feira, junho 12, 2007

Fuligem

O impulso do riso colado. O esgar da dor no corte da veia. Fingimento cruel de devaneio incerto. Lua presa na mão por incapacidade de amar sem sofrer. Destroços de alguém em mar sem norte. Dunas de sonhos perdidos. Acreditar na alma que esboça um gesto plangente. Ter-te perto de mim, inteira. Saber que serás minha na ventura da noite e na pulcritude da madrugada. Palavra pintada no corpo em verso de Baudelaire. A flor do encanto por morfina ingerida. Sabor a ópio na língua morta. Consciência de dever em vida passada. Sentir os braços nas pernas. Fechar os olhos e perceber. Tinta d´ água em coxas de tom róseo. Pétala. Pétala vermelha no cabelo cortado em escada. Piano de cauda em olhar fechado. Sobrolho tingido num sorriso rasgado. A trança suspensa pela espera do beijo. Sacrifício imune à lança do adeus sem vinda. Olho a valsa morta em pés de chumbo. Crer na morte que ampara. Morrer para sentir. Ar sem ti. Chão friável que ampara o tecto sem tacto. Impressão suspeita no rasgo do corpo. Areia fina de aragem doce, a que te trará até mim. Confusão latente. Um desejo irreprimível. Sabor. Ardor de prazer. Intensidade. Fuligem na engrenagem do amanhã. Dentro de ti.

domingo, junho 10, 2007

Folha de papel

Gostava de ser capaz de escrever uma carta de amor. À moda antiga. Saber o que se escreve, como se descreve, conseguir expressar um sentimento num pedaço de papel. As cartas de amor como uma preciosidade que do ontem se perdeu inelutavelmente. Nunca mais se escreverão cartas de amor. Cartas com linhas sentidas e pensadas. Linhas amadurecidas por dezenas de papéis rasgados. Cartas onde nada poderia ser deixado ao acaso; onde nada poderia ser esquecido. Cartas únicas como era a noção do tempo. Da espera. O fermentar dos sentimentos nelas expressos.
Poderia até ter o desejo de tornar este texto nisso mesmo: numa carta de amor - escrita apenas num outro formato. No entanto, descubro-me incapaz. Não vejo as linhas, não sinto a textura do papel, o veio da caneca, o odor do envelope, a colagem do selo, a partida da carta das nossas mãos trémulas e esperançosas. E a espera... A espera que torna tudo mais romântico; mais avassalador.
Sou incapaz.
As linhas confundem-se na cabeça. Precisava de ti, aqui, comigo, do meu lado, para poder escrever-te a carta de amor que guardo cá dentro. A verdadeira. Aquela que não tem esboço, não tem rascunho. Uma carta onde nenhuma folha é rasgada, onde nenhuma palavra é rasurada.
Talvez se tenha perdido a carta para sempre e se tenham ganho novas formas de o revelar. De o levar ao paroxismo, de fazer dele o caminho. Sem nunca o subjugar. É nisso em que acredito, por sentir que são as palavras que contam; que por muito que o papel tenha deixado de ser usado, obrigatório, as palavras subsistem. As minhas. As palavras que sinto. Dessa forma, e por sentir-me incapaz de as escrever numa folha, quem sabe não serás tu a folha que eu procuro? O teu corpo como pedaço de papel virgem – pronto a ser escrito pela minha mão. Não pela tinta de uma qualquer caneta. Não uso caneta. Não uso tinta. Uso Lápis. Uso carvão. Por razões que talvez só eu reconheça.
Razões que te direi, ao ouvido, no dia em que puder segredar-to.
Tal como se escrevia no papel. Esse segredo confiado e selado a saliva.

Toque de madeira

Sonhei que me pediste mimo. Aquele sonho que nos conduz a um lugar longínquo de perfeição porque sentimos que somos capazes de voar. Perdemos o peso do corpo porque ganhamos a dimensão da alma. É essa a sua lógica. Talvez a lógica do amar. Do sentir que fomos feitos para alguma coisa; para alguém. E que durante todo esse tempo - que pode ser infinito -, a vida fez realmente sentido - pleno. O sonho... eras tu e eu. No mar. Na praia. Sim, deitados na areia. Olhei-te nos olhos e percebi tudo aquilo que sentias. O teu sorriso é transparente. A tua pele precisa do meu toque. Não abriste a boca com os lábios. Nessa medida, não «pediste» mimo como descrevi anteriormente. Foi essa a magia, entendes? O sorriso pueril que me diz o que precisas. O esvoaçar do cabelo encaracolado, castanho, quando estás a dar-me a mão. O murmurar que ressoa ao meu ouvido e provoca a certeza de que a ti que quero do meu lado. O mimo. O carinho. Pouso o meu corpo do lado do teu, sem te tocar. Ergo um braço sobre ti e vagueio com um destino certo. Um caminho que eu conheço melhor do que qualquer estrada. Toco nos teus olhos e fecho-os levemente. Preciso que adormeças também. Que entres no meu sonho para que eu te possa alcançar. Pergunto-te: percebes a metáfora? - não me respondas...
Só então posso cumprir o desígnio; o pedido feito sem que os lábios se mexessem. O pedido que é feito com o que sentimos cá dentro. O carinho que é dado sem se esperar retribuição. Simplesmente porque o que recebemos é a possibilidade de podermos dar. E eu dou-to, a ti. E só a ti. Mesmo na espera. Mesmo que seja preciso fazer-te adormecer para que entres de novo no meu sonho.
Será o meu toque a revelar tudo aquilo que o sonho representa. O meu toque em ti. Um toque humano num corpo de madeira.

quinta-feira, junho 07, 2007

Anemia

Foi na falta desse sangue que surgiu a corrente
A sofreguidão de uma luz que corre sem parar
Que supera obstáculos porque não os vê, a luz,
Rasteja para chegar até ti
Trepando muros e paredes para poder penetrar essa alma
Imensa
Nesse caminho de regresso em que escreveu o que faltava acontecer
Aquilo em que acreditavas
O que terias, um dia, numa mão enclavinhada com a tua
No sorriso de um olhar que não precisa do esgar
Para ser real, sentido, uma comunhão de cores a matizar
Um horizonte que insiste em ser maior, maior, e maior
Fruto do que vai crescendo, aqui e aí, no pleno do regaço
Que é o conforto de saber-te viva.

Foi essa falta de sangue que fez o esforço do encontro
A dura luta na noite, entre mares de gente desconhecida
O olhar presente, ao longe, aquele que toca sem usar as mãos
O que faz aproximar sem necessitar da presença
O que comunica além do brilho e das palavras
Encontrar-te, nesse silêncio que me confessa um odor
Um gesto que se confunde
Pelo toque no teu rosto, no cabelo que dança enquanto caminhas
Vens,
O trajecto do segredo interior, essa voz que clama lumes por acender
Voos picados de sensações, gargalhadas enterradas na areia
Ondas… ondas de espuma onde o que existe é para ser vivido
No instante, nesse peito onde a hora sabe existir
Porque se faz inteira, não somada.

Somos folhas em branco, essas onde a gota tombou
A marca perene que nos identifica na metáfora exangue
Lápis em punho, a riscar, a escrever, a colorir, a voltar para trás e a avançar
Partilhar histórias escritas por dentro, desejar no teu corpo os contornos
Que se fundem no abraço sem tempo e sem espaço
Livres para podermos ser plenos, livres em nós, livre por nós
E unidos nas asas desse sonho
Que movimenta em volta, que enternece, que me diz que o vapor
Da tua respiração é a força das pernas que nos farão saltar
Por momentos que acontecem lá em cima
E que aqui são espelhos
Tão perfeitos e reluzentes que nos ofuscam na certeza de algo superior
Mais forte, mais intenso do que a explicação por oferecer
Tanto, que só a construção será capaz de nos alcançar no topo da montanha.

Há odes poéticas e há poesias sem poemas
Frases sem significados, ritmos sem dança, vozes sem cordas
É dessa profusão de sensações que padeço junto a ti
Que me aproximo para ficar, que me dou para te ter, que faço para ser assim
Ter-te para ver as linhas de um rosto que esconde os mares
De tudo o que alberga no ínfimo espaço de um coração que me aperta
Pleno de descoberta em alegorias que são sempre o passo seguinte
O que falta, que é tudo, que é perpetuamente tudo, quando o que se reconhece
É nosso, é plural e intenso, pintado por duas mãos terrenas que se tocam;
Uso o beijo para dizer ao amanhã que chegaremos, um dia, que vamos dentro dessa hora
Que tudo guarda sem temer que o que vive permaneça secreto
Por isso mostro-te tudo o que desejo em ti
Desde o segredo que és, ao que sou eu, ao que me diz que o teu sangue é meu
É sangue porque ele dá vida; e nós vivemos nele. Os dois.

Artista

Escrevo ao luar.
Música de fundo a entoar preces ao amor. À coragem. Ao coração. À partilha do sentimento da entrega.
Vejo-te na música, por entre as notas que tocam. A voz do poeta que te declama.
Esperei por ti. Todos estes anos em que me senti sempre ludibriado, insatisfeito, percebo agora que era por ti que eu aguardava. Por aquilo que fervilha dentro do teu peito. A palavra que é proferida no momento exacto, o olhar que me percebe, a mão que me toca no local perfeito para me acalmar... para me fazer recolher no teu aconchego.
Aninha-te em mim. Protege-te nos meus braços. Anda comigo. Fica do meu lado. Ouve-me. Fala de ti. Sente a minha boca quando ela se cola aos teus lábios.
Eu percebo-te. Sinto-te. O teu interior é para mim límpido. A tua pele é a minha. O teu cabelo confunde-se com o meu. O teu olhar prende-me. O teu suspiro aquece-me. Foste esculpida para mim, e eu sei disso perfeitamente. Se tivesse chegado «antes», teria cumprido o sonho de te ter só minha; de construirmos um algo, os dois, para sempre, sem que tivesses sido de mais ninguém.
O tempo é nosso. Foi feito à nossa medida. Cabe-nos usá-lo; pô-lo no nosso caminho unido.
Toco-te novamente. Ferves. A sensualidade brota pelos teus poros como uma corrente ininterrupta de um fluído que nos aquece continuamente. Os gestos do teu corpo, os movimentos da tua mente, a volúpia num simples sorriso.
Lavas-me a alma e fazes dela o que entenderes. Tens esse poder. Possuis cada pequena centelha que me faz facilar. Que me prende a uma mulher. A ti. Nessa tua doçura. Na sensibilidade. Foste traçada. Esboçada. Retocada. Foste feita à mão de um pintor. Um mestre.
És vida. És acção. És sensação. Podias ser tudo. Se fosses livre. Se o quisesses. Se o desejasses. Se sentisses que sou um artista. O artista que te pintaria no rosto um sorriso eterno.
Eterno como os traços do teu cabelo.
Eterno como o teu corpo.
Eterno como as palavras que perdurarão no meu lápis, ainda que decidas nunca vê-las escritas.
No teu ventre.

quarta-feira, junho 06, 2007

Riso camaleão

Humm... hoje apetecia-me revelar tudo...
Portanto, tudo o que não revelei, obviamente. O tudo... Sim, esse mesmo. Um tudo... muito simples.
Sintoma benfazejo. Sinónimo de... cumprimento. Ora nem mais, «dever cumprido». Nova etapa.
Eu mesmo, sempre eu mesmo. Como todos erradamente pensam. E eu deixo. Permito. Conduzo. É assim que eu quero que todos pensem. Que consigam «lá chegar» por mérito próprio. Que me desarmem; sejam capazes de me perceber sem que eu seja obrigado a dizer palavra.
Não será esse o ardil? O objectivo de tudo quando digo, faço e escrevo?
Sinto-me... hum... leve. Tranquilo. Sereno. Foi um prazer receber as vossas críticas, os vossos julgamentos desadequados, os pensamentos atrozes de cada um!
Ahahahaha! O que eu me ri...!
Como eu me divirto.
E agora?
Qual é a realidade nua e crua?
Qual é o doce?
Qual é o negro?
Qual a paródia?
Qual a tragédia?
Serei mesmo eu, prezado leitor?
Pense... Reflicta... Conhece-me?
Será mesmo ardil?
Talento? Demência?
Nada disto...? Porventura.
Palavras. Descrições. Peles. Rostos. Capas. Sou eu que me ponho em vocês! E não vocês em mim...!
Estultícia a vossa! Está revelado...
Não sou eu. Nada.
São sempre vocês. Tu, tu, tu... tu...

terça-feira, junho 05, 2007

Doce negritude

Ninguém me conhece (partimos de uma premissa conveniente).
Sou falso, mentiroso, mas apenas na medida daquilo que escondo. O que não revelo sobre mim. Não no que assumo como meu. Apenas o remanescente.
O mesmo será admitir que sou como mostro ser. A questão é que não sou apenas isso... E o que não revelo é iminentemente mau. É um espírito sequioso aprisionado por desejo próprio; por necessidade e conveniência... «Evitar ver e compreender». Sou incapaz de trazer tudo à tona da água. Respiro por guelras. Não sobreviveria fora de água. A metáfora da água. O líquido. O corpo a boiar. A mente...
Quantas vezes não me magoei para não ferir mais ninguém? Para evitar esse sofrimento alheio...
Acabo a dar a minha parte «boa» (como se ela existisse, de facto), omitindo o que é hediondo. O que dilacera. O que é capaz de cortar manteiga com faca afiada. Se assim fosse, deixaria de ter pessoas do meu lado. Se alguém somente suspeitasse dos pensamentos ominosos que cá dentro coexistem. O destino que tenho para cada um que gravita em torno do meu planeta. O quanto me apetecia desaparecer para deixar de olhar nos vossos olhos vazios, e esconder-me.
Desconheço se esse dia virá. Até lá, muitos maldizer-se-ão por me terem conhecido. Pagará o justo pelo pecador.
Afinal, eu pago sempre por ser quem sou. Como sou.
Negro.
Doce.

segunda-feira, junho 04, 2007

Ardor da noite

Escassas aquelas palavras que afluem. Mais uma noite sem ti. Mais minutos perdidos por não te ter do meu lado.
Um novo segundo que escoa...
Sem ti perco a razão de ser. Liberto-me mas fico preso a tudo o que é exaurível. Deixo de albegar aquilo que dentro de mim faz a diferença. O pouco.
Procuro o teu cheiro na minha almofada. Recordo os teus caracóis mas sou incapaz de relembrar o odor de cada travo desse cabelo.
E esse é um novo segundo que escoa...
Talvez devesse mexer-me, não sei. Levantar-me da letargia que é a tua ausência e ir no teu encalço pelas ruas, pelos caminhos, pelos rios, guiado pela lua. Onde estás?
Escondes-te, temerosa. Trazes presa a ti a incerteza. O desequilíbrio. Nunca sei se amanhã te verei... e por hoje sinto que todos esses dias em que não te tenho são dias perdidos.
Segundos que se escoam... sem sentido.
O tempo nem sempre faz esse «sentido». O seu movimento é desconexo. A constância do segundo que se estende no minuto é descabida. Somos fruto da incongruência, da complexidade simples, da incoerência que nos dá as cores do corpo. Vivemos aos repelões, pura e simplesmente insatisfeitos, irrealizados e sofredores.
Ou não.
Há quem alcance esse estado sublime do equilíbrio. A paz interior. A apelidada «felicidade». Chamo-lhe planadora. Vai, vem... esvai-se...
Eu não procuro o que é estável. Eu sou estável. Por fora. Para o mundo que me rodeia.
Busco o desequilíbrio. Busco o que não se tem. O que não existe. Por isso procuro. E espero...
Espero que o segundo seguinte escoe... e tu estejas do meu lado. De novo.

sábado, junho 02, 2007

Insónia

A música que gira...
Não consigo tocar-te... saber se é verdade ou não...
Corpo.
Tirar uma fotografia daquilo que vemos.
Subir. Saber o motivo pelo qual respiramos. Sem sentido.
Insónia.
Prazeres de luto e interesse vulcânico.
Olhar profundo em olhos de água.
Vejo-te. Não te toco. Sinto-te. Não te alcanço.
Respirar esse ar de fuligem. Saber que ninguém me defenderá.
Insónia.
Pensamento estraçalhado. Mente doente e espúria.
Falsidade. Mentira. Engano e logro.
Duplicidade interior. A noite que apaga os vestígios daquilo que sou.
O dia que reconstrói a imagem. Noite maldita em sonhos perdidos.
Insónia.
Deito o meu corpo na cama vazia. Vazia. Vazia.
O tempo que já não faz sentido. O mundo que gira.
Perguntas que ecoam, resposta sem sentido em explicações de miséria.
Foges de flor na mão. Entregas a flor e corres...
Exigir o impossível por não se saber como é.
Balança sem pesos. História sem personagens. Vida sem ar.
Insónia.
Que pensamento é este? Que mundo é este? Que corpo rasgado sou?
Viver ou morrer? Querer ou largar? Pedir ou impor? Amar ou odiar?
Padrão comum. Leveza sem charme. Esboço sem linhas.
Vulgaridade. Toque de seda em corpo nu. Palavras sem sentido.
Fome de ti. Colo. Amor de corpo e de alma.
Insónia.
Recolher os braços. Estender as mãos. Lavar os cestos. Fundir a mente.
Para quê julgar? Chamar...
Eco.
Cabelo.
Luar.
Noite.
Insónia.
Para quê pensar?
Tu não existes...

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