Viajante insensível
Gostava de ter o dom de «tocar» as pessoas. Aquela capacidade que distingue alguns e que faz deles seres únicos e iluminados. Ser único não na medida banal da nossa singularidade. Ser-se único por impacto. Pela diferença. Por transformação.
Não sou nada disso. Apenas um farrapo ambulante que mal consegue fechar os olhos e dormir. Sonhar. Já não sonho. Perdi essa capacidade de gerar pensamentos pueris e ingénuos.
Ingenuidade. Crença.
As tais pessoas... que tocam. Que nos fazem reverberar por breves e intensos momentos. Que alcançam o nosso âmago. Sou incapaz de promover essa «mudança», de me tornar necessário, de tocar e arrepiar. Sou simpático e arrogante. Meigo e frio. Alegre e incompreensivo. Não me meço nem me julgo. Deixo que sejam os outros a destruir-me. Lentamente. Ao sabor das suas necessidades.

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