Serei capaz?
Gostava de ser capaz de
arrancar este pedaço de pele. Ser capaz de me olhar ao espelho sem precisar de
esconder o que sinto por mim. Precisava de ser capaz de olhar através do escuro
e perceber que nem sempre é a luz que nos ilumina. Ser capaz de
conviver comigo enquanto durmo, ser capaz de obliterar sonhos que me provocam
insónias porque são vividos em estados de vigília. Procurar ser capaz de dizer
que o que sinto é meu e de mais ninguém, como essa necessidade de ser capaz de
mostrar o peito, de tocar no nariz, de passar a mão sem temer que a chuva lave
os desígnios das minhas impressões digitais. Ser capaz de ser único por ser
tudo ao mesmo tempo que sou rigorosamente nada. Ser capaz de vencer a tortura
de perceber que os intervalos entre o tempo que vivo são a bucólica explicação do
meu ser tão comum. Adorava ser capaz de fechar os olhos e imaginar-me longe,
sozinho, novamente capaz de fechar os olhos e abrir os braços sem ter medo de
abraçar alguém na solidão anterior. E nesse instante ser capaz de sentir o coração a pulsar por ter
logrado esse abraço profundo, esse aconchego entre o pedaço de pele que me
falta e o teu corpo. Ser capaz de chorar simplesmente porque também possuo
lágrimas que vertem a saudade e o desejo. Queria ser capaz de me deitar sem ter
de recolher as pálpebras, sabendo que não vou dormir. Para poder ser capaz de
olhar para ti, adormecida, do meu lado. Como a dor que já não sinto porque ela
faz parte dos meus ossos e nós não sentimos os ossos a não ser no momento da fractura.
Devia ser capaz de não digerir a desilusão. Ser capaz de não perceber que tudo
é fruto da inépcia e nunca do mérito. Ser capaz de querer, tão-somente.
Querer-te. Ser capaz de te dizer... que, afinal, sou mesmo capaz. Sem medo de ser
assim.

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