terça-feira, maio 15, 2007

Corpos de fogo

Luz. Chama. Volúpia. As imagens vagas do teu rosto.
A lareira acesa, os corpos nus deitados sobre a carpete.
Sinto o teu peito colado no meu, ouço o descompasso da tua respiração a bater-me no rosto, o teu peso a deslizar em movimentos espasmódicos que me ferem os músculos já retesados.
De nada serviram as palavras, pouco significaram as acções passadas e os intentos futuros - é na comunhão carnal que nos entendemos na perfeição; é no acto que as entranhas se tocam, que tu revelas verdadeiramente o que te consome, de olhos fechados, de sorriso escondido por detrás daquele esgar afivelado no rosto e nos lábios carnudos. Soltas o gemido tão peculiar, bamboleias as ancas para causares mais prazer, olhas as chamas por entre os toros de madeira e imaginas que é um deles, grosso, que te penetra, que te violenta por dentro como se estivesses a arder...
O crepitar da lenha são as convulsões do meu corpo que continua a desejar-te avidamente, que julga poder ter-te no amanhã também. É dessa certeza incerta e inexistente, criada por mim para que te possa construir de novo, no devir, que eu vivo com o sabor que permanece nos meus lábios, porque apesar de ser o teu corpo que exploro, é a tua boca que jamais esqueço.
Sim, os corpos vão mudando, vão envelhecendo e rejuvenescendo, e a boca permanece lá, intacta, presa ao meu lábio inferior. A explicação do sangue que é sábio, do vampiro que me morde sem clemência e não me deixa partir sem ser com esse rasto de líquido espesso que me identifica.
Vais suavizando os movimentos, satisfeita com o orgasmo, adormecendo à medida que te fundes no que resta do meu corpo, em cinzas. Brevemente, serei um pedaço de pó, que soprarás indolentemente, deitada na carpete, sozinha, com o braço colocado debaixo da cabeça. Os olhos fechados. A respiração tranquila.
Amanhã serei de outra qualquer.

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