Confissão
É curioso o crescimento. Impar quando dele se tem consciência; quando conseguimos senti-lo, apalpá-lo; tocar-lhe. Mudei muito desde que me conheço: sem mudar, efectivamente. Apenas tenho vindo a respeitar a minha essência, as pequenas parcelas escondidas do meu «eu»; a tornar-me mais uno; corajoso por me assumir por inteiro.
Foram as pessoas (têm sido elas) o grande suporte dessa(s) transformação(ões). Pessoas marcantes que têm invadido a minha vida desde tenra idade.
Disse-me um dia uma professora de Filosofia, "serás um homem de inúmeras paixões"...
Confesso que nem nessa altura nem nos anos que se seguiram à tal afirmação eu a percebi. Era-me óbvio que ela o dissera numa perspectiva que partia de mim para os outros, e não na perspectiva de ser eu o centro das ditas «paixões». Não obstante, continuava a ser para mim um expressão confusa e desprovida, até ver, de fundamento.
Só todos estes anos mais tarde (quase dez!) é que finalmente posso dar razão a essa grande mulher que em tempos conheci. Ela tinha razão!
Desconheço se o disse meramente com cariz «amoroso», se o fez a um nível mais abrangente, contudo, e ignorando esse pormenor irrelevante, ela tinha, na realidade, toda a razão do mundo...
Considero-me, cada vez mais, um ser inacabado, repleto de insuficiências, de múltiplas contradições e... de paixões mil. Esta descoberta foi lenta, progressiva, quase dolorosa. Fui saindo da casca protectora, do ovo, do envólucro - a princípio foi difícil respirar na nova atmosfera; para mais tarde sentir o que é o poder encher os pulmões e gritar!
Falo de paixões num sentido amplo, não só de «mulheres». Tenho tantos interesses, vontade de fazer tanta coisa, de experimentar tudo o que me der na real gana, quebrar barreiras e limites, procurar a liberdade apenas com os meus próprios padrões. Nas mulheres (em particular), o processo é, por coerência, similar. Vejo-as como pedaços de lúxuria diversa, como partículas de interesse novo e distinto, percepciono-as parcelarmente (embora as analise, sempre, no seu todo). Para mim têm significados tão diversos que se tornaria impossível escolher uma e dizer: "é esta!"
Seria incapaz. Redutor. Gostaria de as ter uma a uma (sendo que a maioria, como é óbvio, não passaria do cumprimento cerimonioso).
A questão é que as vejo como seres sobre um papel quadriculado: em pequenos rectângulos. O cabelo, o odor, a cor dos olhos, o toque da pele, o sorriso, o tamanho disto e daquilo, a perfeição do abdómen, o perfil da anca, a inexactidão dos pormenores, a beleza das pernas, o estilo com que se veste, a maneira como anda, como seduz, o sapato que calça, o que lhe vai na alma, o que se (des)multiplica dentro do cérebro, a sensibilidade, a insensibilidade, a capacidade de se assumir como mulher... Não posso escolher uma e prescindir de tantas outras experiências, de tamanhas sensações novas! Mesmo sendo fiel e honesto para com cada uma das que forem passando pelo meu mundo. Se nele ficam um dia, uma semana, um mês, um ano, ou mais, nem eu sei nem quero saber. Não procuro ficar com nenhuma, até as ver, até as ter, até partilhar o que tenho e o que sou. É nisso que eu acredito.
«Se elas soubessem o que guardo cá dentro...»

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