sexta-feira, maio 25, 2007

Chuva de Madrugada

Entreabro a janela do meu quarto para te ver. A chuva cai sobre o parapeito da janela, provocando pequenos aglomerados de água. Vejo-a a cair. Milhares e milhares de pingos de água. Ouço-a. Sinto-te, longe. Mas perto de mim. Perto do meu peito. Apetece-me ter-te do lado, poder conversar contigo, tocar-te, dizer-te que este barulho da chuva lá fora me inspira em sonhos sem fim.
Vamos sonhar? (apenas com este pedaço de luz que me permite escrever... o meu quarto está imerso na obscuridade)
Imagino-te deitada na minha cama, a sorrir para mim. Pedes que me deite ao teu lado, te abrace, te embale antes do sono se abater sobre ti. Respondo que vejo a chuva, e que enquanto estiver a vê-la e a ouvi-la estarei mesmo aqui, do lado.
Há um vento que bate no rosto, benevolente. Ouvem-se carros. Salpicos de água caem sobre o caderno, sobre o corpo. E agora? Recuo, olho para a minha cama e tu não estás lá... Toco nos lençóis, revolvo-os, procuro o teu odor... Eu preciso desse odor! Quero o teu cabelo na minha almofada, o teu peito no meu, a tua mão entrelaçada na minha. O beijo de boa noite dado na cara.
 
A chuva não pára. A chuva... que és tu.
Uma quantidade imensa de água que brota dos céus. Como tu, das nuvens. Estou molhado. A chuva não pára e começa a entrar no quarto, a cair sobre o soalho de madeira. A luz que fica menos e menos nítida... Escrevo agora sob um exíguo feixe de calmaria.
Não preciso da luz. Preciso da chuva. Preciso do calor que a chuva transmite. Olho-te. Toco numa pequena formação de água e molho dois dedos. A um, passo-o nos lábios para sentir os teus, doces e frios. Ao outro, deixo-o vaguear pelo peito desnudado.
E a chuva que não pára...
A chuva... A luz escasseia e já não me deixa entrever onde escrevo. Onde te pinto. Onde contorno a tua alma. Onde te tenho. A luz de que eu não preciso. Porque tenho a chuva. Tenho a minha luz. Tenho-te a ti. Em forma de chuva.

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