terça-feira, maio 22, 2007

Caixão de Vida

Toquei à campainha e a porta abriu-se. Recebeste-me em tua casa num insinuante negligé transparente que só não deixava ver o que a minha mente não queria imaginar. O verde dos teus olhos era de tal maneira vítreo que fui impelido a desviar os meus dos teus ainda nem tinha passado a ombreira. Temi que os meus intentos não viessem a ser bem sucedidos naquela que seria a nossa segunda noite. No entanto, assim que voltei a fixar-me no teu corpo, ganhei de novo a coragem que me conduzira até ali; o volume dos teus pequenos seios era perceptível, escondidos atrás do tecido sedoso, rendado, com duas pequenas protuberâncias que era os teus mamilos apontados para mim. Sim, eu iria até ao fim, custasse o que custasse!
Pegaste na minha mão e eu senti que querias voltar a ter o contacto com a minha pele macia, talvez por relembrares com ardor o seu toque único. O teu corpo à minha frente, a conduzir-me por aquelas paredes ansiosas e a emanar um odor que me ia deixando cada vez mais inebriado pelo desejo de ter repetidamente, a luz do teu cabelo, o andar bamboleante das pernas a roçagar um na outra, tudo isso me descontrolou precipitadamente. Puxei-te para mim, dando meia volta ao teu corpo, segurando a tua mão, acariciei-te o rosto, e tu fechaste de imediato os olhos. Senti o teu ritmo acelerado. Coloquei ambas as mãos nos teus ombros, recuamos até uma das pontas da sala, e encostei-te a um móvel, com estrondo. Abriste a boca num suspiro só, desapertaste-me a camisa arrancando todos os botões de uma vez, e massajaste o meu peito. Agarrei o teu cabelo loiro, perfumado, deslacei a cinta que te separava de mim, e abri o negligé. Deixei que uma mão te percorresse muito lentamente a zona do peito, como se fosse uma montanha, e percebi que tremias. Beijei-te. Encostei o teu corpo ao meu, ambos desnudados, e aqueci só por sentir os teus contornos, só por te ter perto de mim. Esticaste ambos os braços e seguraste-me logo abaixo do ventre. Prendi-te a mim pelas nádegas e elevei-te. Comprimimos os corpos num deleite absurdo e prolongado. As línguas entrelaçadas, um encostado ao outro, os teus movimentos ascendentes, controlados, enquanto caminhávamos assim mesmo. Entrámos numa casa de banho toda ela revestida a espelhos, de alto a baixo; no tecto, no chão, nada escapava aos nossos olhares. Uma banheira transbordava água e espuma. Só os meus pés é que tocavam o espelho do chão quando começámos novamente a balançar. Entrei na banheira e senti o calor da água antes que qualquer parte do teu corpo a sentisse. Fomos entrando na água, descendo, nunca perdendo a volúpia dos movimentos atracados, e deslizámos até ficarmos submersos por completo. Esticaste-te e eu deitei-me por cima de ti. Seguiram-se minutos indescritíveis de comunhão carnal, de simbiose espiritual, de loucura partilhada. Não mais voltámos à superfície, sequer para respirar. Vim-me dentro de ti enquanto te envolvia o rosto com os meus braços fortes e te puxava contra mim em espasmos sucessivos. O coração parou, de súbito. Abri os olhos debaixo da água e vi-te, deslumbrante, na profunda escuridão. Elevei a cabeça até que ela bateu em algo duro. Fui obrigado a levar as mãos ao nível da nuca para empurrar esse objecto; algo se abriu. Levantei-me. À minha volta, espelhos. Quando te fitei, deitada, imersa, apercebi-me que tínhamos acabado de fazer amor, debaixo de água, fechados, dentro de um caixão.

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