quarta-feira, maio 30, 2007

Quero-te aqui

Se dissesse que gosto de ti, não estaria a mentir. Sinto-te dentro de mim. Existes como num sonho. Um sonho vivo, uma realidade imaginada mas palpável. Nunca te vi, nunca te toquei, mas sei que existes. Desenhei-te desde o primeiro segundo. Aquele segundo que nos toca, que muda o nosso rosto para sempre. Que basta...
O sempre.
O nunca.
Duas palavras que não albergas, que perdem significado. Não tens princípio e jamais terás fim. Como uma marca, uma cicatriz na pele. As «tais» pessoas... que nos arrepiam sem sequer nos tocarem.
Guardas esse sorriso. Trocas esse olhar. Estendes essa mão. És especial. Obrigas-me a recuar por te temer. Por nos temer. Por desejar ter-te do meu lado, por querer entrar dentro de ti e ser capaz de conhecer-te como mais ninguém. Apaixonar-me pelo toque dos teus dedos, pelo som da tua voz que me embala em sonhos que não possuo. Arrancar-me a amargura sublevada; abrir os braços quando eu cair de novo para fora de mim (ou dentro de mim, não sei).
Encosta-te ao meu corpo. Ouve-me. Sente o que eu sinto. Quero que saibas que sou mesmo assim e que ninguém o imagina. Que o meu coração bate mesmo mais depressa, como um compressor, e somente porque sofre desse defeito. Não é maior; não é mais pequeno. É, simplesmente, descompassado.
Só tens de pousar a tua mão sobre a minha cabeça... sem seres dura comigo. Mostrares-me que o caminho é do teu lado. Que é isso que se aprende numa partilha sem verbos conjugados. O tempo.
Quero que me descubras. Que sejas capaz de ver o que poucos alcançam. De me revirar. Que sejas mais forte do que os demais. Aguentar e sentir que valho a pena. Que tenho a centelha cá dentro.
Quero que me olhes e me beijes. Que me abraces. Que murmures ao meu ouvido as tuas preces, os teus medos, os teus desejos inconfessáveis.
Quero ter-te aqui. Sim, aqui, do meu lado. Deitada. Olhos fitos no tecto por detrás das pálpebras corridas. Ao som das nossas vozes. Do teu corpo e do meu. Nus. Lado a lado.

terça-feira, maio 29, 2007

Viajante insensível

Gostava de ter o dom de «tocar» as pessoas. Aquela capacidade que distingue alguns e que faz deles seres únicos e iluminados. Ser único não na medida banal da nossa singularidade. Ser-se único por impacto. Pela diferença. Por transformação.
Não sou nada disso. Apenas um farrapo ambulante que mal consegue fechar os olhos e dormir. Sonhar. Já não sonho. Perdi essa capacidade de gerar pensamentos pueris e ingénuos.
Ingenuidade. Crença.
As tais pessoas... que tocam. Que nos fazem reverberar por breves e intensos momentos. Que alcançam o nosso âmago. Sou incapaz de promover essa «mudança», de me tornar necessário, de tocar e arrepiar. Sou simpático e arrogante. Meigo e frio. Alegre e incompreensivo. Não me meço nem me julgo. Deixo que sejam os outros a destruir-me. Lentamente. Ao sabor das suas necessidades.

segunda-feira, maio 28, 2007

Livro vazio

Um dia tive a ousadia de imaginar um livro. Um livro enorme, com centenas de páginas... em branco. Sem linhas. Vazio. Vazio como eu. Sim, vazio. O livro era azul. A capa, grossa. E as páginas, tal como as imaginara, imaculadas.
Pensei em dar esse livro a cada uma das pessoas que me conhecessem. Não àquelas que soubessem o meu nome, simplesmente, ou a tantas outras que apenas reconhecessem a minha fisionomia; refiro-me a todos quantos pudessem supor que, de uma forma ou de outra, sabem «como sou». Como é evidente, não pretendia ser absolutista, exigir dessas pessoas tarefas hercúleas, ou esperar que me revelassem particularidades por mim desconhecidas. Não. Ainda assim, e assumindo que me conheço bastante bem, admito igualmente que jamais serei dono de mim próprio, na medida em que outros (que eu desejo) serão sempre capazes de me mostrar mais de mim a mim mesmo. É isso que eu ambiciono. No entanto, esse não era o meu «objectivo». Queria unicamente ler o que cada um de «vocês» tinha a dizer sobre mim... Que apontassem no papel tudo aquilo que me quereriam dizer e nunca haviam dito. Ou que já o tivessem dito, por hipótese. Que escrevessem, e nada mais. Que me reduzissem a palavras. E que essas palavras não fossem as minhas.
Porquê?
Vivo preso. Preso em mim. Preso nessas mesmas palavras. Preso no peso. Preso por não compreender os demais, por não ser compreendido por eles. Preso por não querer compreendê-los. Preso por fingir que não os compreendo, amiúde. Preso por viver acorrentado. Preso por exigir dos outros o que exijo de mim. Preso por me consumir a mim mesmo por procurar algo que não sou capaz de atingir. Preso por me enganar. Preso por te querer junto a mim sem saber porquê...
És a minha liberdade. Liberdade porque me prendes. Afastas-me de mim. Não sou capaz de partilhar palavras a não ser momentaneamente. Ou perco ou abandono. Ou sofro ou faço sofrer. Preciso que as sílabas da minha boca continuem a viver na boca de outra pessoa. Que essa pessoa as deguste, se delicie com elas, que as recolha dentro de si e as guarde. Que...
Sou incapaz. A barreira insensível. O projecto. O esboço. O teu rosto.
Desconheço o motivo pelo qual se chegam a mim... Não presto. Vivo numa luta permanente comigo mesmo; um circuito de pensamentos ominosos que a tudo pegam fogo e que nada destroem, por serem singulares. Olhar cansa-me. Ver cansa-me. Falar cansa-me. Respirar cansa-me. Escrever-te, não. Beijar-te, não. Tocar-te, não. Entender-te, não. Mas eu não presto. Sou nada. Sou vazio. Sou estéril. Sou a mão que fecha e o corpo que retesa.
Sou um livro em branco. Sem palavras.
E tu, tu és a minha liberdade porque afastas as palavras que brotam em mim. Tu és as palavras. Palavras nunca proferidas. Palavras que jamais serão escritas.

sexta-feira, maio 25, 2007

Música sem acaso

Se as palavras da música que toca dentro de ti forem as que eu ouço, não sei por que esperas para me dares a tua mão. Se te agarrarei, se te abraçarei, se te beijarei, se te amarei, não sei. Mas terás a minha mão para te segurares. O meu olhar. A minha boca.
Que concha te protege?
Que obstáculos nos separam?
Que caminho queres percorrer antes de sabermos onde estamos?
Se as palavras da música que toca dentro de ti forem as que eu ouço, e se cada uma delas ecoar dentro de ti, como neste momento em mim, não fujas. Não me perguntes se quero. Se espero. Fará sentido ver para além dos olhos, então? Fará algum sentido ouvir a tua voz? Sentir cada fio de cabelo teu para quê? Para teres esperado todo este tempo… por alguém… que não eu?
Não acredito em destino.
Não acredito em manipulações.
Não acredito em eternidade.
Acredito em mim e quero acreditar em ti. Quero ser um “alguém”. Quero poder dizer «olá» ao acordar e «até logo» na despedida. Quero ver-te dormir. Do meu lado ou não.
Percebes?
Não quero o fim. Não quero nada. Quero-te… assim.
Somos formigas. E para as formigas qualquer objecto é um obstáculo. O mais pequeno grão de areia. O vento. A chuva. O próprio sol. Apenas a lua dá descanso. O recorte dessa lua que é a noite em ti. Quero tê-la, contigo, depois de ter o dia. Ou saber que não, que não quero, que tu não queres. Que não me queres. Haverá algo melhor do que o sentimento assumido de desilusão?
Há. E eu sei que tu sabes qual é.
Para quê negar? Para quê querer que algo «passe», algo que pode estar apenas no início?
Podia estar a escrever estas linhas como escrevo quase todas as linhas da minha vida… Mas não estou. Podia dizer que a pessoa não existe, no entanto, existes. Como, não sei. Se tens formas ou não, desconheço. Não quero perder-te sem nunca te ter tido. Não quero sentir a tua ausência sem nunca ter percebido a presença.
Luta… se as palavras da música que toca dentro de ti forem as que eu ouço…
As palavras da tua alma.
Como na música.
As notas e os sons… que eu declamo.

Br...isa...

Duas cores.
Duas formas.
Dualidade em unidade emocional.
Carne que difere no prazer
E se une na mente.

Rosto de beatitude
Olhar de sedução profunda
Maçã rósea em rosto alvar
Cabelo livre
Lábio retocado, beijo trocado
Trocado mas sentido
Trocado e cobrado
Aqui e ali
Em ti e em mim
E nela também

Sorriso.

Palavras de penas
Penas de alma
Pronúncia do norte
Espírito sulista
Luso corpo
Noite insone
Pecado por ser em ti e não em mim
Por serem as formas da mão e não da boca
Luxúria.
Orgasmo sem penetração.
Vertigem.
Subo à nuvem mas não a alcanço.
Tomo-lhe o gosto mas não a saboreio.
Apenas a brisa.
Apenas a brisa é capaz de levar as minhas palavras.
Palavras esquecidas.
Não proferidas.
Palavras mentidas.
Pensamentos omitidos.
Insinuações em blocos de papel
Gasto
Usado
Linhas de carbono
Dias de tristeza.
Não chores.
Não alivies a alma.
Espera.
A brisa vem aí…
Salvar-te da queda.

Chuva de Madrugada

Entreabro a janela do meu quarto para te ver. A chuva cai sobre o parapeito da janela, provocando pequenos aglomerados de água. Vejo-a a cair. Milhares e milhares de pingos de água. Ouço-a. Sinto-te, longe. Mas perto de mim. Perto do meu peito. Apetece-me ter-te do lado, poder conversar contigo, tocar-te, dizer-te que este barulho da chuva lá fora me inspira em sonhos sem fim.
Vamos sonhar? (apenas com este pedaço de luz que me permite escrever... o meu quarto está imerso na obscuridade)
Imagino-te deitada na minha cama, a sorrir para mim. Pedes que me deite ao teu lado, te abrace, te embale antes do sono se abater sobre ti. Respondo que vejo a chuva, e que enquanto estiver a vê-la e a ouvi-la estarei mesmo aqui, do lado.
Há um vento que bate no rosto, benevolente. Ouvem-se carros. Salpicos de água caem sobre o caderno, sobre o corpo. E agora? Recuo, olho para a minha cama e tu não estás lá... Toco nos lençóis, revolvo-os, procuro o teu odor... Eu preciso desse odor! Quero o teu cabelo na minha almofada, o teu peito no meu, a tua mão entrelaçada na minha. O beijo de boa noite dado na cara.
 
A chuva não pára. A chuva... que és tu.
Uma quantidade imensa de água que brota dos céus. Como tu, das nuvens. Estou molhado. A chuva não pára e começa a entrar no quarto, a cair sobre o soalho de madeira. A luz que fica menos e menos nítida... Escrevo agora sob um exíguo feixe de calmaria.
Não preciso da luz. Preciso da chuva. Preciso do calor que a chuva transmite. Olho-te. Toco numa pequena formação de água e molho dois dedos. A um, passo-o nos lábios para sentir os teus, doces e frios. Ao outro, deixo-o vaguear pelo peito desnudado.
E a chuva que não pára...
A chuva... A luz escasseia e já não me deixa entrever onde escrevo. Onde te pinto. Onde contorno a tua alma. Onde te tenho. A luz de que eu não preciso. Porque tenho a chuva. Tenho a minha luz. Tenho-te a ti. Em forma de chuva.

quinta-feira, maio 24, 2007

Centelha de ti

Pensei em fotocopiar a minha mente...
Com que fito, não sei. As insónias dão cabo de mim e ninguém o sabe. É uma insónia produtiva, sim, mas extenuante e dolorosa. Cansa a mente não fotografada.
Corpo sentado, corpo deitado, de pé, nada atenua a incapacidade latente em fechar os olhos e não pensar. Sonhar a dormir, simplesmente. Sonhar. Contigo ou com qualquer outra coisa, confesso. Sonhar!
O último sonho que tive foi tão longínquo que apenas o prendo com a saudade das palavras que carrego cá dentro. Estávamos vestidos de branco. Tudo à nossa volta desaparecera. Lembro-me de ter pensado durante horas sobre este estranho efeito... O vazio repleto de significação implícita... os corpos pintados de branco... Tu e eu.
O que significará para ti?
Gostava de saber, de enquadrar a tua visão na minha. Partilhar...
E lá estamos nós, então, frente-a-frente, a olhar um para o outro. O deserto de objectos para além dos nossos corpos. O gesto. Envolvi o teu rosto na minha mão cálida, o polegar a acariciar a tua bochecha e o resto da mão entre o cabelo e a orelha. Tentei, nesse gesto, descodificar-te! Em vão; o mistério adensou-se. Passei um dedo pelos teus lábios, até que os fechaste. Disseste-me numa voz morna, «sinto-te dentro de mim». Aí, tudo começou a fazer sentido, de súbito...!
Percebes-me? Diz que sim.
Encostei a maça do meu rosto à tua e senti a pele que te reveste, fina, delicada. Inspirei profundamente: o teu odor; o teu sabor. Prendi as minhas mãos à volta do teu cabelo liso, como quem te abraça, e toquei-te somente com a minha boca no teu lábio superior. Senti-te.
O ar das tuas narinas soprava no meu rosto. Abracei-te...
Pergunto-me: «quererei mesmo fotocopiar a minha mente?» Ou que sejas tu a fotocópia...?

quarta-feira, maio 23, 2007

Serei capaz?

Gostava de ser capaz de arrancar este pedaço de pele. Ser capaz de me olhar ao espelho sem precisar de esconder o que sinto por mim. Precisava de ser capaz de olhar através do escuro e perceber que nem sempre é a luz que nos ilumina. Ser capaz de conviver comigo enquanto durmo, ser capaz de obliterar sonhos que me provocam insónias porque são vividos em estados de vigília. Procurar ser capaz de dizer que o que sinto é meu e de mais ninguém, como essa necessidade de ser capaz de mostrar o peito, de tocar no nariz, de passar a mão sem temer que a chuva lave os desígnios das minhas impressões digitais. Ser capaz de ser único por ser tudo ao mesmo tempo que sou rigorosamente nada. Ser capaz de vencer a tortura de perceber que os intervalos entre o tempo que vivo são a bucólica explicação do meu ser tão comum. Adorava ser capaz de fechar os olhos e imaginar-me longe, sozinho, novamente capaz de fechar os olhos e abrir os braços sem ter medo de abraçar alguém na solidão anterior. E nesse instante ser capaz de sentir o coração a pulsar por ter logrado esse abraço profundo, esse aconchego entre o pedaço de pele que me falta e o teu corpo. Ser capaz de chorar simplesmente porque também possuo lágrimas que vertem a saudade e o desejo. Queria ser capaz de me deitar sem ter de recolher as pálpebras, sabendo que não vou dormir. Para poder ser capaz de olhar para ti, adormecida, do meu lado. Como a dor que já não sinto porque ela faz parte dos meus ossos e nós não sentimos os ossos a não ser no momento da fractura. Devia ser capaz de não digerir a desilusão. Ser capaz de não perceber que tudo é fruto da inépcia e nunca do mérito. Ser capaz de querer, tão-somente. Querer-te. Ser capaz de te dizer... que, afinal, sou mesmo capaz. Sem medo de ser assim.

Turbilhão

Vejo-te disforme, como num sonho
Esqueço as tuas palavras
O som da voz
Tudo são memórias de um tempo nunca vivido

E enfim o passar desse tempo faz sentido, assim
Envelhece os rostos que não se vêem
Amadurece as palavras que já não conhecemos
Traz o mel de um gesto perdido no cabelo

Lado a lado, dor com dor, sorriso com sorriso
Continuo sem conseguir ver-te
Porque tocar-te é impossível
Um esforço que estaria disposto a despender
Se as correntes não me prendessem os pés
Se as mãos não tivessem sido atadas atrás das costas
Se a minha boca não estivesse selada
Se os meus olhos conseguissem vislumbrar-te por detrás da cortina

Mas cheiro-te
Sinto-te
O palpitar do peito
A sobrancelha arqueada e simétrica com a pose do corpo
A cabeça apoiada no ombro que desfalecerá dentro em breve

Não consigo
Luto
Os músculos ameaçam ceder
Sou corroído como metal em decomposição
Deixei de saber se conto com as minhas pernas
Se os braços continuam presos ao corpo

Já não sei abraçar
Uso a imaginação para envolver-te
Para dizer aquilo que desejo
O que não sinto
Guardo
Recolho os pedaços de mim
Num parto invertido, mera inversão da lógica da natureza
Fico mais pequeno
Mudo de pele
Para que voltes a ver-me
E sorrias, se for esse o teu desejo

O meu... eu próprio não sei qual é
Indiferente
Monástico
Sentido
O corpo mata-me, sufoca-me
A dor...
«A dor tem efectivamente tanto de destruição,
como de redenção e de inspiração».

terça-feira, maio 22, 2007

Caixão de Vida

Toquei à campainha e a porta abriu-se. Recebeste-me em tua casa num insinuante negligé transparente que só não deixava ver o que a minha mente não queria imaginar. O verde dos teus olhos era de tal maneira vítreo que fui impelido a desviar os meus dos teus ainda nem tinha passado a ombreira. Temi que os meus intentos não viessem a ser bem sucedidos naquela que seria a nossa segunda noite. No entanto, assim que voltei a fixar-me no teu corpo, ganhei de novo a coragem que me conduzira até ali; o volume dos teus pequenos seios era perceptível, escondidos atrás do tecido sedoso, rendado, com duas pequenas protuberâncias que era os teus mamilos apontados para mim. Sim, eu iria até ao fim, custasse o que custasse!
Pegaste na minha mão e eu senti que querias voltar a ter o contacto com a minha pele macia, talvez por relembrares com ardor o seu toque único. O teu corpo à minha frente, a conduzir-me por aquelas paredes ansiosas e a emanar um odor que me ia deixando cada vez mais inebriado pelo desejo de ter repetidamente, a luz do teu cabelo, o andar bamboleante das pernas a roçagar um na outra, tudo isso me descontrolou precipitadamente. Puxei-te para mim, dando meia volta ao teu corpo, segurando a tua mão, acariciei-te o rosto, e tu fechaste de imediato os olhos. Senti o teu ritmo acelerado. Coloquei ambas as mãos nos teus ombros, recuamos até uma das pontas da sala, e encostei-te a um móvel, com estrondo. Abriste a boca num suspiro só, desapertaste-me a camisa arrancando todos os botões de uma vez, e massajaste o meu peito. Agarrei o teu cabelo loiro, perfumado, deslacei a cinta que te separava de mim, e abri o negligé. Deixei que uma mão te percorresse muito lentamente a zona do peito, como se fosse uma montanha, e percebi que tremias. Beijei-te. Encostei o teu corpo ao meu, ambos desnudados, e aqueci só por sentir os teus contornos, só por te ter perto de mim. Esticaste ambos os braços e seguraste-me logo abaixo do ventre. Prendi-te a mim pelas nádegas e elevei-te. Comprimimos os corpos num deleite absurdo e prolongado. As línguas entrelaçadas, um encostado ao outro, os teus movimentos ascendentes, controlados, enquanto caminhávamos assim mesmo. Entrámos numa casa de banho toda ela revestida a espelhos, de alto a baixo; no tecto, no chão, nada escapava aos nossos olhares. Uma banheira transbordava água e espuma. Só os meus pés é que tocavam o espelho do chão quando começámos novamente a balançar. Entrei na banheira e senti o calor da água antes que qualquer parte do teu corpo a sentisse. Fomos entrando na água, descendo, nunca perdendo a volúpia dos movimentos atracados, e deslizámos até ficarmos submersos por completo. Esticaste-te e eu deitei-me por cima de ti. Seguiram-se minutos indescritíveis de comunhão carnal, de simbiose espiritual, de loucura partilhada. Não mais voltámos à superfície, sequer para respirar. Vim-me dentro de ti enquanto te envolvia o rosto com os meus braços fortes e te puxava contra mim em espasmos sucessivos. O coração parou, de súbito. Abri os olhos debaixo da água e vi-te, deslumbrante, na profunda escuridão. Elevei a cabeça até que ela bateu em algo duro. Fui obrigado a levar as mãos ao nível da nuca para empurrar esse objecto; algo se abriu. Levantei-me. À minha volta, espelhos. Quando te fitei, deitada, imersa, apercebi-me que tínhamos acabado de fazer amor, debaixo de água, fechados, dentro de um caixão.

segunda-feira, maio 21, 2007

100 sentido

«Serei eu um asceta daquilo que é impossível? Um perseguidor nato de tudo o que sei que dificilmente terei?»
A questão central é perfeitamente pertinente e justificável, por muito que pareça um lugar comum. Provavelmente todos poderão dizer que sentem o mesmo, que nunca têm aquilo que gostariam de ter, que os sonhos são inalcançáveis, que tudo isso não passa mesmo de um conjunto de ilusões criadas por mentes sequiosas e insaciáveis.
Pois cada um que se julgue a si próprio; não quero ser juiz nem penitente. Apenas espectador (activo e interventivo).
Gosto do que não posso ter; desejo o que está fora do meu alcance; ter aquela sensação que dificilmente terei o que quero; ir em busca de tudo quanto na minha mão deveria estar e não está...
É indissociável da minha natureza particular. Canso-me perante a banalidade; esqueço o que é lutar, o que é sentir a adrenalina nas veias por desejar algo ardentemente; sentir aquele frémito prazeroso dentro do corpo simplesmente por perspectivar uma realidade ainda distante mas atingível!
Porquê desejar o fácil, o óbvio? Aceitar a sua contribuição redutora, espelharmo-nos em tudo o que recebemos de mão beijada? Não que não devamos apreciar o que temos, o que nos dão - antes pelo contrário: é fundamental e bem mais difícil de dirimir. A luta faz mais sentido, no entanto. Acresce valor e valia. Amadurece-nos. Ensina-nos a procurar o que desejamos, a partir em busca de algo mais (novo) assim que temos o que pretendemos. Contudo, convém nunca esquecer o que deixámos para trás: o passado que nos construiu. O passado, as pessoas, as coisas. Tudo. Não podemos ser depósitos de nada. E ir sempre em busca do desconhecido.
Talvez seja isso que distingue o homem do... próprio homem. O tal sentido da busca; ou a inexistência absoluta do mesmo, perante o absolutismo que reprime. Uma antítese metafórica que ganha dimensão è medida que a aproximamos das pessoas.
O que é a busca?
O que significa a saciedade ou a falta dela?
E os «momentos» em particular? A felicidade... por alcançar, mais do que por ter, simplesmente. Alcançar o que se tem, continuamente. Ter o que se alcança. Insistir na busca, fazer dela plural, conjugá-la em todas a formas e em várias pessoas.
Ter.
Querer.
Manter.
Usufruir.
Usar.
Guardar.
Espírito incerto. Fase da lua. Vontade de gritar e soletrar... o meu nome apenas.
Para que cada um o agarre e o regue.
Eu sou a busca. Não o juiz. Não o penitente. Simplesmente, o caminho.

sexta-feira, maio 18, 2007

Personificação do eu

Está calor, porra! Um calor medonho. São quatro da manhã, é Agosto em Havana, e passei uma noite sem mulheres do meu lado. Quantas vezes é que isto sucedeu nos últimos anos da minha vida? O que é feito da minha vida? Ah, que estúpido que eu sou... A minha vida morreu, estraçalhada, no dia em que Nina desapareceu deste mundo. E o que é que isso tem a ver com o episódio do livro que eu estava a relatar? Estou constantemente a perder-me, os pensamentos que me invadem não param de colidir uns com os outros, e eu não consigo manter o fio da meada até ao fim. É sempre a mesma merda na porra da minha vida. Porra, estou sempre a escrever porra! Eu não era assim... Agora sou um pedaço de... de... um pedaço de... qualquer coisa que não sobrevive se for meramente um pedaço! Sou um pedaço de nada. Desde que li aquele livro. Mas não era desde que Nina falecera? Porr... Pára! Acabaram-se os palavrões; pelo menos os proferidos pela minha boca (aliás, pela minha caneta... ou melhor, porra!, pelo meu lápis, dado que escrevo sempre a lápis; tenho o secreto desejo de que um dia tudo aquilo que eu escrevi durante a desgraçada da minha vida se apague e nunca mais ninguém se lembre sequer do meu nome: Simon. Essa é a explicação que eu dou... e nem sei se é verdadeira ou não. Não faço ideia, nunca pensei no assunto, tão pouco. E chega, por agora, de pensar nele.)

quinta-feira, maio 17, 2007

Clímace

Fui incapaz de acreditar quando te vi nua à minha frente. No momento em que disseste, «vou despir-me e volto já, nua», julguei que brincavas com a minha ingenuidade. Confesso que percebi a centelha de malícia no teu olhar, talvez até admitido interiormente que fosses trocar de roupa e suspeitasse que quisesses colocar algo bem mais sensual, mas jamais imaginei que... o farias! Gostava que fosses um espelho para ter podido ver-me nele reflectido. Porém, isso aconteceu mesmo; vi-me em ti, nessa noite...
Aproximaste-te e perguntaste-me o que sentia ao ver-te assim, despida, completamente oferecida diante de mim. Quis responder-te o que sentia, dizer-te que o meu órgão responderia bem melhor do que as minhas palavras, do que os meus gestos desajeitados, contudo reprimi-me. Não sei porquê; ver-te, poder tocar-te, lamber-te, apalpar cada pedaço de pele, deliciar-me dentro do teu corpo, tudo isso me inibiu, contrariamente ao que estarias à espera que acontecesse. O coração principiou a bater mais forte, temi olhar os teus olhos efervescentes, passar um dedo que fosse no teu corpo certamente escaldante. Notei, contudo, que acusaste a sensação de desinteresse da minha parte. Erradamente! Eu queria ter-te, penetrar-te violentamente e sem pensar que hoje estávamos juntos e amanhã não voltariamos a ver-nos. Esquecer que o dia de hoje acabaria, a noite escoaria para o dealbar da manhã, e o sonho vivido não mais seria do que a recordação da respiração ofegante e do suor que no teu corpo permaneceria até que resolvesses livrar-te de mim. Desejei...
Tocaste-me. Adivinhaste o que me percorria e abriste as minhas calças. Invadiste a minha propriedade e deleitaste-te com o alheio nas mãos, na boca, envolvendo-o em saliva agridoce. Quiseste o meu orgasmo ali mesmo, de pé, contigo de joelhos a sorver-me. Rodavas para um lado, aproveitavas o balanço para tirar a boca e movimentar somente as mãos; aproximaste-o ainda mais de ti até que te tocou nos seios. Um bico de cada vez. Ergueste levemente o corpo e entrelaçaste-o entre as mãos e ambas as mamas. Fechei os olhos por não conseguir aguentar mais o que me queimava como gelo. Segurei-te no cabelo e puxei-te para cima. Beijei-te como se quisesse arrancar-te o lábio inferior. Devassei o teu corpo com a força meiga dos meus braços, o toque da minha mão. Deitei-te. Abri as tuas pernas de lés a lés e deixei que o meu corpo fosse escorregando suavemente, provocando-te o arrepio saboroso do desejo incontido. Lambi a parte interior das tuas coxas até que cheguei onde queria. Estavas limpa, aguada como uma pequena poça de água estagnada, lívida, saborosa, quente. Não mais parei. A língua ganhava forma e comprimento conforme te ia tirando forças, restabelecendo-te, por outro lado, de forma tão prazerosa que tinhas que colocar ambas as tuas mãos na minha cabeça. Em vez de me afastares, seguravas o meu cabelo e empurravas mais para o fundo a minha língua. Assim que comecei a usar um dedo, depois dois, e finalmente três, começaste a tragar o ar com tamanha sofreguidão que da respiração passaste para os gemidos, que foram subindo de tom, de intensidade, até serem autênticos gritos misturados com gestos espasmódicos. Senti que lentamente te diluías, que estavas prestes a irromper pelo sono profundo do climáx, retirei os dedos de dentro de ti, estiquei ambos os braços e envolvi os teus seios volumosos... enquanto a língua te provocava convulsões.
«Anda!», gritaste... «Penetra-me! Entra em mim...! Rápido, não aguento mais... Quero sentir-te!!»
Foi tudo muito fugaz; as imagens sucedem-se no meu cérebro sem que eu seja capaz de as colocar na devida ordem. O que se seguiu permanecerá dentro dos nossos corpos e como segredo que nos unirá eternamente. Sabemos que sim. Sabemos.
Sabemos que o teu sonho sonhou comigo e que eu te tive verdadeiramente nos meus braços, naqueles instantes. Que acordei com o teu sabor na minha boca, o teu odor nas minhas narinas, e sabemos também que não voltaste a acordar. Jazias do meu lado, fria, inerte, para sempre presa ao prazer que acabou por ser mais forte do que o teu próprio limite. Os teus lábios contorciam-se... ainda hoje não sei se da agonia do prazer, se da hilaridade da dor.

terça-feira, maio 15, 2007

Corpos de fogo

Luz. Chama. Volúpia. As imagens vagas do teu rosto.
A lareira acesa, os corpos nus deitados sobre a carpete.
Sinto o teu peito colado no meu, ouço o descompasso da tua respiração a bater-me no rosto, o teu peso a deslizar em movimentos espasmódicos que me ferem os músculos já retesados.
De nada serviram as palavras, pouco significaram as acções passadas e os intentos futuros - é na comunhão carnal que nos entendemos na perfeição; é no acto que as entranhas se tocam, que tu revelas verdadeiramente o que te consome, de olhos fechados, de sorriso escondido por detrás daquele esgar afivelado no rosto e nos lábios carnudos. Soltas o gemido tão peculiar, bamboleias as ancas para causares mais prazer, olhas as chamas por entre os toros de madeira e imaginas que é um deles, grosso, que te penetra, que te violenta por dentro como se estivesses a arder...
O crepitar da lenha são as convulsões do meu corpo que continua a desejar-te avidamente, que julga poder ter-te no amanhã também. É dessa certeza incerta e inexistente, criada por mim para que te possa construir de novo, no devir, que eu vivo com o sabor que permanece nos meus lábios, porque apesar de ser o teu corpo que exploro, é a tua boca que jamais esqueço.
Sim, os corpos vão mudando, vão envelhecendo e rejuvenescendo, e a boca permanece lá, intacta, presa ao meu lábio inferior. A explicação do sangue que é sábio, do vampiro que me morde sem clemência e não me deixa partir sem ser com esse rasto de líquido espesso que me identifica.
Vais suavizando os movimentos, satisfeita com o orgasmo, adormecendo à medida que te fundes no que resta do meu corpo, em cinzas. Brevemente, serei um pedaço de pó, que soprarás indolentemente, deitada na carpete, sozinha, com o braço colocado debaixo da cabeça. Os olhos fechados. A respiração tranquila.
Amanhã serei de outra qualquer.

sexta-feira, maio 11, 2007

Confissão

É curioso o crescimento. Impar quando dele se tem consciência; quando conseguimos senti-lo, apalpá-lo; tocar-lhe. Mudei muito desde que me conheço: sem mudar, efectivamente. Apenas tenho vindo a respeitar a minha essência, as pequenas parcelas escondidas do meu «eu»; a tornar-me mais uno; corajoso por me assumir por inteiro.
Foram as pessoas (têm sido elas) o grande suporte dessa(s) transformação(ões). Pessoas marcantes que têm invadido a minha vida desde tenra idade.
Disse-me um dia uma professora de Filosofia, "serás um homem de inúmeras paixões"...
Confesso que nem nessa altura nem nos anos que se seguiram à tal afirmação eu a percebi. Era-me óbvio que ela o dissera numa perspectiva que partia de mim para os outros, e não na perspectiva de ser eu o centro das ditas «paixões». Não obstante, continuava a ser para mim um expressão confusa e desprovida, até ver, de fundamento.
Só todos estes anos mais tarde (quase dez!) é que finalmente posso dar razão a essa grande mulher que em tempos conheci. Ela tinha razão!
Desconheço se o disse meramente com cariz «amoroso», se o fez a um nível mais abrangente, contudo, e ignorando esse pormenor irrelevante, ela tinha, na realidade, toda a razão do mundo...
Considero-me, cada vez mais, um ser inacabado, repleto de insuficiências, de múltiplas contradições e... de paixões mil. Esta descoberta foi lenta, progressiva, quase dolorosa. Fui saindo da casca protectora, do ovo, do envólucro - a princípio foi difícil respirar na nova atmosfera; para mais tarde sentir o que é o poder encher os pulmões e gritar!
Falo de paixões num sentido amplo, não só de «mulheres». Tenho tantos interesses, vontade de fazer tanta coisa, de experimentar tudo o que me der na real gana, quebrar barreiras e limites, procurar a liberdade apenas com os meus próprios padrões. Nas mulheres (em particular), o processo é, por coerência, similar. Vejo-as como pedaços de lúxuria diversa, como partículas de interesse novo e distinto, percepciono-as parcelarmente (embora as analise, sempre, no seu todo). Para mim têm significados tão diversos que se tornaria impossível escolher uma e dizer: "é esta!"
Seria incapaz. Redutor. Gostaria de as ter uma a uma (sendo que a maioria, como é óbvio, não passaria do cumprimento cerimonioso).
A questão é que as vejo como seres sobre um papel quadriculado: em pequenos rectângulos. O cabelo, o odor, a cor dos olhos, o toque da pele, o sorriso, o tamanho disto e daquilo, a perfeição do abdómen, o perfil da anca, a inexactidão dos pormenores, a beleza das pernas, o estilo com que se veste, a maneira como anda, como seduz, o sapato que calça, o que lhe vai na alma, o que se (des)multiplica dentro do cérebro, a sensibilidade, a insensibilidade, a capacidade de se assumir como mulher... Não posso escolher uma e prescindir de tantas outras experiências, de tamanhas sensações novas! Mesmo sendo fiel e honesto para com cada uma das que forem passando pelo meu mundo. Se nele ficam um dia, uma semana, um mês, um ano, ou mais, nem eu sei nem quero saber. Não procuro ficar com nenhuma, até as ver, até as ter, até partilhar o que tenho e o que sou. É nisso que eu acredito.
«Se elas soubessem o que guardo cá dentro...»

quinta-feira, maio 10, 2007

Alma quieta

E se preferíssemos um estado anestesiado?
Uma tranquilidade planadora...
Silêncio.
Que se calem os tambores dentro do meu cérebro.
Fecho as pálpebras e inspiro fundo. O rosto recusa-se a ceder. As mãos lavadas com água suja, as palavras duras na dura tristeza das horas tristes. A boca que contorce. Perguntas em vão sobre os porquês da vida quando apenas a morte faz sentido. Faz sentido se o corpo tiver vivido plenamente, aceitando as pedras, os muros, as paredes dos seres que habitam os outros.
A vida que ensina.
Somos pequenos e insignificantes. Amamos para que nos amem. Sorrimos para que partilhem o nosso riso. Tocamos para sentir a própria pele. E olhamos porque nos queremos ver a nós, reflectidos.
São as pessoas que fazem o nosso caminho, que o traçam e demarcam. São elas as conquistas gloriosas.
São momentos. Almas.
Uma respiração tranquila. Uma concha aberta que ninguém compreende.
Deito-me na cama, sem esperar que os minutos passem por mim e me levem.
Deixei de contar o tempo. Quero-o.
Tal como te quero a ti. Dentro dele.

terça-feira, maio 08, 2007

Boneco de marfim

Os amores consumados em cima de camisas de cetim
Trocas de papel como sentimentos partilhados
A tua pele intocada no segredo
O rosto repleto de rugosas expressões
Esse olhar que desvela duras indecisões
Fundidas no prazer que é esse medo
De ilusões que seriam sonhos achados
Se somente te desse esta mão de marfim
Porque o corpo que vês é a alma que não transparece
O poder do ser que não é indiferente
Que julga no olhar porque também é fraco
Amiúde sofre por ser dócil
Por fazer das suas forças as fraquezas alheias
Atrevimento pueril em chama que não cede
Procuro-te com a certeza dos meus lábios
Da mão que deixo escorregar quando te toco
Guizos que batem, retumbantes
Na aura que sopra de dentro para fora
Pedaço de carne envolta em volúpia
Creme deslavado com que fecho os olhos
O toque, sempre o toque
A cor do marfim incessante, prudente
Se pudesse ter-te neste instante
Achar-te perdida nos contornos destes braços
O odor do corpo que ferve em fátuo lume
Uma noite de amor contido, de riso transbordante
De anéis perenes, de almas cruzadas
Bonecos sem fim, rostos despidos e... amores de marfim.

segunda-feira, maio 07, 2007

Monstro

Habita o lugar onde eu escondo... a alma. Sou o monstro que se esconde. Se vocês soubessem o que perpassa o espírito... o que sinto cá dentro.
Sou mau. Luto minuto a minuto por afivelar um sorriso de beatitude, por oferecer um olhar de complacente ternura, por manter um comportamento pacífico e resguardado.
Não queiram saber o que desejo fazer-vos...
Parem de julgar as insignificâncias que existem dentro de mim... e centrem-se na podridão que percorre as veias pérfidas de sangue negro. Este animal observa-vos. Sente o vosso cheiro. Percepciona as fraquezas. Toca para sentir a textura da pele alheia. Sorve entranhas! E esconde-se...
Vê - olho por detrás dos olhos. Mão encoberta. Pensamento condicionado.
Não quero saber. Não me preocupo. É tudo falsidade latente; será compreensão?
Procuro novas cores. E outras mais. Procuro-as para prosseguir no logro. Quero continuar a enganar-vos. Sou bonzinho, sou.... Acreditem na melodia da minha voz, na delicadeza do meu toque, na convicção das minhas palavras - acreditem... e sucumbam como soldados mortos e queimados à socapa... pelas costas... ominosamente...
É mera cobardia.
Cerro os dentes quando vos vejo, quando se cruzam comigo. Sinto-vos dentro de mim, parte de... tudo! Grrr... desejo possuir-vos uma a uma... sem clemência.
Fecho os olhos e imagino...
Imagino a realidade do amanhã que estou a construir.
Desenganem-se, fantoches. Não acreditem numa só palavra!
Se pensam que já viram tudo...
Esqueçam-me!!

sexta-feira, maio 04, 2007

Exclamação ao destino

Que o diabo leve o meu destino e a minha alma se eu me deixar morrer nesta insatisfeita mediocridade! Que seja torturado por ter nascido assim, por ter permitido à desventura o infortúnio de uma vida fácil e requebrada! Jamais me perdoarei se não tiver força e engenho para te convencer, para fazer de ti, minha! Que a tua idade seja o meu fim, o princípio da minha sepultura dentro do teu corpo impúbere! Que o azul me veja, fraco, olhos fitos no chão, pranto de sonhos criados na imaginação de um ser débil que não soube conquistar a metade que faltava para si mesmo! Que eu seja esquartejado por ser considerado demente! Que me levem as profundas ondas do meu coração, que me destruam em suaves amplexos de asfixia lenta, que eu sinta o ar rarefeito do teu cabelo a entrar nas minha narinas e perceba que nada me salvará, nada se seguirá ao amanhã do teu adeus! Que eu seja fraco ao ponto de assumir que não tive razão em admití-lo, que foste somente uma ilusão que os meus olhos nunca viram, que apenas a minha sensibilidade atroz te tocou na nuca e te fez arrepiar! Que doença é esta, afinal?!
Pronuncio o teu nome... e espero que o destino não se encarregue de te trazer até mim.
Quero descobrir-te. Dentro do meu corpo.

Colapso da velhice

Dói ver que caminhamos para uma infância sem futuro.
Que todos os nossos órgãos acabarão por sucumbir.
Dilacera antever uma existência novamente dependente,
Por mais fortes que tenhamos sido, voltaremos a ser débeis num mundo irreconhecível.

Enquanto crianças, vimos ao mundo como numa tortura;
Saímos de um ambiente quente e aconchegante,
Dão-nos um nome sem saberem sequer se gostamos dele
Para, anos mais tarde, nem o recordarmos mais.

Os olhos grandes e aguados da infância, sequiosos de informação
Transformam-se em cavidades cadavéricas como carapaças de tartaruga
Olhos pequenos e difusos, cores indistintas, sonhos perdidos ou desfeitos
A respiração sôfrega de quem sofre por ter perdido tudo.

É injusto lutar por um horizonte que se fechará, em breve
Que fará de nós lembrança e não esquecimento
Um nome sem rosto, uma alma sem corpo
Provar a memória dos demais, sem sorriso, sem o toque da mão.

Estendido na cama, o féretro que acabará por nos recolher,
Multidão que nos cerca, olhares de medo, dia que não chega
Colher de sopa, colher de chã, palhinha que sorve
Lentamente, cada pedaço de vida
A vida que nos sobra, nos resta
Um dia só que prevalecerá sobre todos os outros.

[...]Um dia estarei aí, de novo
Até lá, descansa em paz
Junta-te a A. e a L.
Um, dois, três... [...]

quarta-feira, maio 02, 2007

Estilhaços de mim

Quando tentamos fazer da vida uma história perfeita, estamos a hipotecar a sua maior beleza: a imperfeição da mesma - as janelas do crescimento.

A ameaça não é a inevitabilidade de se morrer um dia; o perigo é não se saber viver cada um desses dias como se fosse mesmo o último.

Dentro da profundidade do espírito humano, encontramos, não raras vezes, o prazer pela melancolia; aquela secreta satisfação quase alegre de se estar triste.

terça-feira, maio 01, 2007

Mulheres

Sei que valho,
Aquilo que o meu coração conquista
Que sinto na pele
O fardo de querer-te junto a mim.
 
O ar amainou. Estrada de praia, farol calado, corpo sem braço. Mantenho a procura insipiente. Luto por descobrir o caminho que farejo. Que está mais perto. Aproximo-me, cautamente. A desilusão tem esse condão, de ser a matriz que nos fornece doravante a certeza de nós próprios. Acabo por perceber que procuro sem saber o que desejo encontrar. Talvez esse seja o segredo, até a explicação do que é complexo e linear ao mesmo tempo.
Já não penso mais em ti. Ho(je) não. Morreste no silêncio. Mentiste. Destruíste a criação, a ideia que fazia perpetuar dentro de mim a consciência do sentimento. Talvez até existas, talvez tenhas dito a verdade, e seja apenas o rosto dessa verdade a diferir... e tudo não passe de um mero desequilíbrio entre as forças da beleza e da fealdade.
Procuro... em ti. Procuro a beleza. Procuro o corpo. A saciedade física. Cobrimento. Espasmo. Orgasmo. O sorriso de ternura em penetração violenta. Solidão. Porque será que me sinto assim? Erradamente, dizes-me. Estou equivocado. Ou estamos enganados... Querias ser como «eles»... Porquê?
Não consigo mudar a cor dos meus olhos. Vou medindo sempre o corpo, alterando o seu peso, a sua aparência, mas não mudo. Carácter afiado, ponta que fere, complacência por devoção à necessidade que não perdura dentro de mim.
Minto. Sou obrigado a mentir. Não mereço castigo por isso. Não quero ser como tu. Não posso andar à chuva... simplesmente porque não vou molhar-me. Serei incapaz de abanar a cabeça e fazer saltar do cabelo pingos e salpicos de água salgada, gotas de intempérie emocional. Busco. Não o equilíbrio! Nunca a balança! As medidas da minha personalidade não existem: coexistem. Acendem-se e apagam-se. Procuram e afastam. Não por serem lógicas, coerentes - unicamente porque são o fruto proibido. O bater de asas que dará a liberdade ansiosa. Como um «efeito». Como causa e não como consequência. Para me reinventar.
Definitivamente, procuro-te. Todos os dias te encontro. Diferente. Sempre minha. Como tem de ser. Não partilho o que é meu. Nunca. Isso não muda.

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