Renúncia
[...] O dia ia longo, o sol escondia-se por detrás dos prédios amarelos que se perfilavam nas traseiras da sua casa. Com atenção, perscrutava esse fenómeno puramente natural. De olhos fixos no sol, procurava descortinar aquele ínfimo e imperceptível pormenor que poderia fazer toda a diferença. Cogitava dentro de si esse detalhe, fazia-o com obsessão, sabendo que, com ele, conseguia ser «diferente». Reconhecia o talento, sentia-o, a unicidade de uma escrita sumptuosa, a melhor que jamais conhecera. Estava ciente do virtuosismo de que conseguia ser capaz. Por isso mantinha os olhos e o espírito bem abertos. As informações que recolhia diariamente de tudo aquilo que o rodeava eram a sua inspiração, os cenários que criava - no fundo, as próprias histórias que parecia inventar, que nada mais eram do que a realidade passada por um filtro. A diferença fazia-se precisamente na forma como ele descrevia essa mesma vulgaridade.
Algumas horas depois, com o céu a caminhar para o escurecido, vieram à sua cabeça as palavras proferidas pela mulher que tanto amava. Ou que julgava amar. Naquele preciso instante, achava-se inclinado a dar uma resposta negativa. Relembrou as duras e injustas palavras dela: “Terás de renunciar à tua escrita... para que dês a única prova possível do teu amor por mim. Só assim ficaremos juntos para sempre. Jamais conseguirei ter forças para dividir com ela o teu amor...”
Ainda julgava as palavras violentas. Porquê existir aquela prova? Haveria necessidade de uma tal demonstração? Por que pensaria que ele continuaria divido entre ela e a escrita?
Algumas horas depois, com o céu a caminhar para o escurecido, vieram à sua cabeça as palavras proferidas pela mulher que tanto amava. Ou que julgava amar. Naquele preciso instante, achava-se inclinado a dar uma resposta negativa. Relembrou as duras e injustas palavras dela: “Terás de renunciar à tua escrita... para que dês a única prova possível do teu amor por mim. Só assim ficaremos juntos para sempre. Jamais conseguirei ter forças para dividir com ela o teu amor...”
Ainda julgava as palavras violentas. Porquê existir aquela prova? Haveria necessidade de uma tal demonstração? Por que pensaria que ele continuaria divido entre ela e a escrita?
Não sabia... desconhecia esse motivos. Fosse pelo que fosse, a decisão não poderia ser outra: não! Era impensável renunciar à escrita e ao talento que fermentavam dentro de si. Sabia-a única. Ela, apesar de a amar como a nenhuma outra, poderia ser substituída, trocada por alguém que o aceitasse. E seguramente arranjaria essa outra mulher que o amasse sem impor a renúncia da sua arte. Sim, no dia seguinte dir-lhe-ia que se decidira pela escrita. Não faria sentido que fosse de outra forma. [...]

<< Home