quinta-feira, abril 26, 2007

A ti, Musa

Facilidade latente.
Estou cansado do que é banal. Do "tira", "masca" e "deita fora". Quero ouvir uma música que toque, que nos fique na alma; quero ler Kafka à beira mar, reproduzir o seu marulhar numa gargalhada de fazer doer o estômago; quero sentir a palpitação nos vários membros do corpo, a cabeça a avariar de ideias e projectos românticos, a fronte a latejar de nervosismo; quero deitar-me a pensar no que foi dito, em tudo o que não foi proferido por falta de coragem e à vontade; quero adormecer com o sorriso do último beijo colado no rosto - "the last kiss" sem fatalidade.
Preciso de acordar sobressaltado porque durante o sonho as imagens vaguearam pelo meu subconsciente e deixaram-me eléctrico, incapaz de resistir à partilha; aquele acordar melífluo que se sente na pele, que eriça sem sequer haver toque; o som ao ouvido... o calor corporal... o aconchego do lençol... a almofada que nos conta segredos...
Olhar fundo nos olhos do outro, sentir sem que haja explicação para tal; perceber que o vítreo que cobre a cor desse olhar tão profundo é sinónimo de devoção, de admiração... um devorar que deve ser lento e prazeroso. Arrepiar-me por ter vontade, prender-me na valsa da indecisão, soltar trejeitos porque a dor da incerteza insiste em devorar os lábios. Precipitar o beijo. Escaldar a mão. Inalar o odor da pele. Viver. Sim, sentir que cada segundo pode ser o último porque tudo terminará bem, da melhor forma possível, num novo assombro de comunhão mágica e perfeita! O novo odor. A superação absoluta. Repetem-se as sensações, agora mais apuradas, mais intensas; saboreia-se um rol de novas volúpias. Contextos e linhas, risos como mares, ventos que explodem no nosso rosto e nos fazem ficar sensíveis a tudo. Apaixonados. Crentes.
Não há que pedir desculpa a ninguém. A realidade é sempre mais forte do que o sonho. Daí ser fundamental perseguir esse mesmo sonho. O sonho que nos alimenta. Que faz da nossa realidade uma utopia diferente para quem nos ouve, nos vê, nos sente. É isso que eu busco incessantemente; esse elixir tão arrebatador e único: a sedução. A troca de um olhar. Ainda mais do que seduzir, ser seduzido. Quebrar para não torcer. Ceder à loucura. Procurar a insanidade saudável do coração que ama...!
Oh Musa... encontra-me aqui, preso nas amarras da banalidade que me esmaga, e mostra-me de novo o que é sentir a prisão dos teus braços. Num olhar de morte.

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