segunda-feira, abril 23, 2007

Em paz

Vivíamos juntos. Não éramos casados, nem amantes, nunca tínhamos trocado um beijo impúdico. As carícias dir-se-iam pueris, meros acenos de afecto; uma forma humana de cobrar a presença que se estima.
Estavas grávida de um outro homem mas dormíamos juntos. A cama não precisava de ser grande para separar os nossos corpos. Mesmo que próximos, muito próximos, o calor emanado era um fruto que, sem ser proibido, o era. Repito, sem o ser. Era somente «aquele» fruto que sentimos diariamente, que vemos, que tocamos, para o qual sorrimos - sem nunca o termos desejado. É o fruto mais dócil; o mais sentido; o mais colorido. É dele que fazemos o nosso sumo, ainda que nunca o tenhamos espremido. Fará sentido a alegoria?
Na paz dos meus sonhos, senti-te inquieta, do meu lado. Pressenti que algo te preocupava. Que a tua enorme barriga dava voltas e mais voltas na indecisão. Não era a criança que em ti se gerava que queria sair; eras tu própria... E o que te apoquentava era o cordão umbilical em torno do teu pescoço, ameaçando sufocar-te lentamente. Foi essa respiração descompassada que me fez sair do sonho sem sequer acordar dele. Porque essa ternura existe em mim. Abri a boca melifluamente e sussurrei o teu nome... bem baixinho... bem junto do teu ouvido. Afaguei o cabelo, que brilhava na escura noite do quarto, e parei no pescoço. Efectuei o gesto contrário, até ao cocuruto. Deixei que a minha mão e o seu peculiar toque de seda te acalmasse. Que repusesse a tua respiração; sem te libertar de nada. Que servisse apenas de aconchego. Trouxe-te a mim e encaixei-te no meu corpo: tronco com tronco, o braço em volta.
Não mais te ouvi. Se respiravas ou não, não sei. Adormeceste.
E eu senti-me em paz. Comigo mesmo.

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