Apetecia-me escrever todas as palavras do mundo; porque todas elas, neste dia, fariam sentido. Talvez até façam sempre e eu nunca o tenha percebido. A força das palavras é imensa, quase irreal; porém, a única força incomensurável são as nossas acções, as nossas atitudes, o que nos vai na alma. Entendo que as letras sejam, não raras vezes, formas que encontro de me expiar, de encontrar refúgio para o incompreensível da vida. E ela tem tanto de incompreensível, de estranho, de doentio. As estrelas abandonaram-me, deram-me uma lição e obrigaram-me a ficar calado, sabedor da matéria, conhecedor, consciente mas recluso. Fui abandonado. Perdi o amor. Perdi o que julgava ser único no mundo. Não tive oportunidade para demonstrar que sou, afinal, um homem diferente. Contudo, que amor era esse que se dizia tão grandioso e eterno se, no momento da confrontação, deixou-me sozinho, desamparado, magoado comigo mesmo? Que raio de amor poderia ser? Eu amei em pleno, vivi o amor em todo o seu esplendor, reconheço que errei e fiz sofrer, no entanto, cresci, virei-me do avesso e descobri dentro de mim uma nova alma, um sentido novo na vida. E lutei, lutei bravamente por esse amor que sentia, lutei até que as forças me faltaram, ou, quiçá, até que nada mais fizesse sentido. Estava disposto a continuar, estava preparado para seguir no caminho da felicidade, mas fui posto de lado. Apercebo-me, finalmente, que esse amor era uma farsa, uma ilusão, um deslumbramento passageiro que sucumbiu perante a primeira vicissitude que o pôs em causa. E agora? Porquê essa fraqueza? Que nome tinha, então? Um amor que desaparece ao mais pueril sopro? Que vias em mim, que amavas em mim, que admiravas em mim se não lutaste nem um pouco, se não me deste sequer a hipótese de mostrar como sou por dentro? Que desilusão foste para mim; que mágoa sinto por perceber que és fraca, que amaste verdadeiramente, que tudo foi em vão, que todas as minhas palavras significaram apenas o eco em ti. Sofro. Sofro e não deveria, porque não mereces um pouco dessas lágrimas. Prometeste lutar por mim, por nós, e falhaste. Foste tão fraca, tão leviana. Esqueceste tudo o que sonhámos, tudo o que vivemos. Jamais compreenderás o que sentia, o quanto te… acreditava. Chega. Preferia que não tivesses existido na minha vida. Preferia não te ter conhecido nunca. Maldito destino que nos uniu tão inexplicável e ocasionalmente. Porquê? Porque fizeste sofrer o sentimento? Vi-te, dividi contigo os sonhos, dei-me para um sempre imaginário, quis que fôssemos um só, e tu nem uma tentativa, nem uma oportunidade deste. Podes dizer tudo, explicar tudo, argumentar o mundo com justificações, mas uma certeza não me retirarás nunca: se o teu amor por mim fosse tão grande como eu sempre pensei que era, nada nem ninguém nos impediria de ficar juntos. Terias lutado até que as forças te faltassem por completo. Se não lutaste, nem admitiste lutar, é sinal que o que sentiste foi, no fundo, um equívoco, uma paixão passageira que teve o seu término assim que correu mal. Gostava de dizer que odeio o caminho que tive de percorrer, mas talvez só odeie um pequeno pedaço. O que sei é que apagaria as lembranças que guardo. Todas. Preferia nunca ter conhecido esse cabelo. Não viver com o peso sobre mim. Magoaste-me. Fizeste-me acreditar em algo que foi falso. Não quero saber mais de ti. Espero que as lembranças se apaguem com o tempo. O mesmo tempo que me provará que há mulheres capazes de amar sem limites; tal como eu, que acredito nesse amor. Acho que chego a odiar-te. Por tudo o que és, que afinal é nada. Eu descobri-me. Descobri que era muito mais do que aquilo que imaginava ser. E descobri que posso amar como tu não imaginas ser possível. Descobri que, no final de contas, a farsa és tu. Adeus. Adeus. Se eu pudesse não te ter conhecido... Não voltarei a escrever uma palavra sobre ti.