Sentir a sedução
Nem sempre é fácil olhar para dentro de nós; nessa base, fazer um julgamento (auto) crítico. Somos levados, frequentemente, pelo exagero, quer positivo quer negativo. Dependendo das idiossincrasias de cada um, dos espinhos da personalidade (como dizia um amigo meu), carregamos em demasia nos tons das nossas qualidades, ou denegrimos aviltantemente os pretensos defeitos que possuimos. Nunca é um «julgamento» equilibrado, esse. Nem poderia sê-lo, entenda-se. Para o nosso bem. É igualmente nessa medida que dependemos dos outros e da opinião alheia. Sem querer qualificar seja o que for, essa é uma condição fundamental. Influi no nosso balanço interior.
Tudo depende do próprio bom senso, da forma como encaramos as mais diversas situações. Não devemos ser extremistas (salvo raras excepções...) sob pena de condicionarmos o pensamento livre de preconceitos.
É por demais curioso analisarmos as pessoas que se encontram junto de nós. Perceber como se movem, como funcionam; captar como cada uma expõe as suas forças e esconde/diminui as fraquezas - ou o inverso.
«Todos temos limites, ninguém é suficiente, a perfeição não existe» - desde logo porque não há consenso possível. Acho delicioso recolher essas informações dos outros; ver até que ponto cada um consegue esse tal equilíbrio interior. É precisamente aí que encontro a maior «graça» do ser humano: o seu encanto único. Não nas qualidades férteis, na semelhança com a dita perfeição, no frágil fácil convívio; mas também não no seu oposto. Nunca os referidos extremos.
O que me fascina, perpetuamente, no ser alheio, é o equilíbrio/desequilíbrio; a maneira intransmissível como cada pessoa gere o que é seu. Aquele que é iminentemente meigo e carinhoso que, no entanto, possui uma atroz insuficiência aqui ou acolá. Um complexo. Uma incapacidade. Um trauma, até. E um outro, adepto da harmonia mas cego e obtuso nessa mesma busca incessante, doentia. Esta fragilidade engrandece o homem. Torna-o necessitado. Mesmo os mais forte sofrem de medos. Mesmo os mais capazes têm debilidades inultrapassáveis. Tudo depende da base que colocamos no rosto; na roupa que vestimos; no perfume que escolhemos. Por isso digo, e reafirmo, que não há padrão que me seduza, à partida. Há o «conjunto». Há desequilíbrios. Há carências. Nunca fui de procurar o fácil. Nunca encarei o deslumbramento como benéfico. Gosto de lutar. Gosto de me sentir testado e posto à prova. Apraz-me reconhecer no outro certas dificuldades visíveis e outras ainda ocultas. Que ele procure defender-se, resguardar-se, obrigando-me a partir em busca de si próprio (e, no fundo, de mim). Para que desse desequilíbrio criado por ambos venham a nascer, no futuro, duas «novas» identidades mais competentes. É esse o meu equilíbrio. Um constante jogo de pés. Um jogo que já teve a sua fase de abstracção e recolhimento, e que conhece, agora, enfim, uma fase de expansão. De descoberta. Mesmo que egoista...

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