Se não fosse assim...
A magia vive-se. Respira-se. Toca-se. E procura-se. Somos animais. Bichos. Sozinhos, insignificantes. Profundos criadores de rotinas que dilaceram o sentido mais instintivo da vida, o improviso constante que é dar um passo noutro sentido qualquer. Não me refiro a comportamentos desviantes, que ninguém precisa de os ter para viver intensamente; plenamente.
Fundamental é acreditar. Olhar para dentro de nós próprios e acreditar que somos capazes, que temos «aquilo que faz a diferença». Seja esse «aquilo» o que for! Se a excepção existe para confirmar a regra, a rotina existe para ser quebrada. Já não basta vivermos de relógios na cabeça, de agendas sem tempo para nada nem para ninguém, que acabamos mesmo, de forma quase irreversível, por perder o gosto e o prazer que nos tem de dar o olhar para nós - o olhar por nós. Ninguém o fará. Pelo menos, ninguém o deveria fazer. Não depender é o segredo.
Eu tenho rotinas, todos temos rotinas; elas existem e quase ninguém pode impedi-lo. Viver em sociedade é admiti-las. No entanto, não podemos viver subjugados por elas, amedrontados, recolhidos numa concha protectora dentro da qual estaremos sempre mais protegidos; apenas porque as rotinas perpetuam o caminho que seguimos todos os dias, e que, como tal, tão bem conhecemos. Errar torna-se quase impossível. «Cair» só se for por manifesta vontade do alheio.
E amanhã o relógio desperta-nos à mesma hora de sempre; para regressarmos a casa no final do dia, cansados na exacta medida do ontem, prontos a fazer... o costume: o vivido. Que será o amanhã. O que muda são as cores. O cenário é o mesmo. Perpetuamente.

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