Carta a mim
Toquei-te nos lábios com as pontas dos dedos e abri-os. Senti a humidade da tua saliva, deslizei no teu interior e fixei o meu olhar em ti. Nos teus olhos escuros.
Sem nenhum trejeito nosso, imóveis naquele momento quase solene, acariciei o teu cabelo negro, brilhante, e parei junto do pescoço. Beijei-o com a mão até te arrepiares de prazer. A tua pele chamava por mim, o teu corpo pedia-me para ser devassado, o teu rosto clamava pelos meus lábios. Ainda assim, a tua respiração era calma. Talvez tivesses a certeza de que, independentemente do que acontecesse naquela noite especial, tinhamos sido feitos um para o outro. Não sei. Supus que nos julgaste assim, como uma espécie de almas gémeas. Seja isso o que for. Signifique o que significar. Eu não sabia. E continuo sem saber. Admito que até possa acreditar que isso fosse mesmo possível, que tudo tenha «essa» explicação feérica... e que seja eu a estar enganado. Sim, e que tudo seja, nem mais, uma questão de perspectiva. Um erro da minha parte. Como tantos outros. Debato-me interiormente, tentando perceber se é a minha pele que não se eriça, se é o meu olhar que não sente, a minha mão que não aquece... Se, simplesmente, o arrepio não existe em mim.
Ou se deva, tão-somente, acreditar que sim.

<< Home