quinta-feira, março 29, 2007

Sentir a sedução

Nem sempre é fácil olhar para dentro de nós; nessa base, fazer um julgamento (auto) crítico. Somos levados, frequentemente, pelo exagero, quer positivo quer negativo. Dependendo das idiossincrasias de cada um, dos espinhos da personalidade (como dizia um amigo meu), carregamos em demasia nos tons das nossas qualidades, ou denegrimos aviltantemente os pretensos defeitos que possuimos. Nunca é um «julgamento» equilibrado, esse. Nem poderia sê-lo, entenda-se. Para o nosso bem. É igualmente nessa medida que dependemos dos outros e da opinião alheia. Sem querer qualificar seja o que for, essa é uma condição fundamental. Influi no nosso balanço interior.
Tudo depende do próprio bom senso, da forma como encaramos as mais diversas situações. Não devemos ser extremistas (salvo raras excepções...) sob pena de condicionarmos o pensamento livre de preconceitos.
É por demais curioso analisarmos as pessoas que se encontram junto de nós. Perceber como se movem, como funcionam; captar como cada uma expõe as suas forças e esconde/diminui as fraquezas - ou o inverso.
«Todos temos limites, ninguém é suficiente, a perfeição não existe» - desde logo porque não há consenso possível. Acho delicioso recolher essas informações dos outros; ver até que ponto cada um consegue esse tal equilíbrio interior. É precisamente aí que encontro a maior «graça» do ser humano: o seu encanto único. Não nas qualidades férteis, na semelhança com a dita perfeição, no frágil fácil convívio; mas também não no seu oposto. Nunca os referidos extremos.
O que me fascina, perpetuamente, no ser alheio, é o equilíbrio/desequilíbrio; a maneira intransmissível como cada pessoa gere o que é seu. Aquele que é iminentemente meigo e carinhoso que, no entanto, possui uma atroz insuficiência aqui ou acolá. Um complexo. Uma incapacidade. Um trauma, até. E um outro, adepto da harmonia mas cego e obtuso nessa mesma busca incessante, doentia. Esta fragilidade engrandece o homem. Torna-o necessitado. Mesmo os mais forte sofrem de medos. Mesmo os mais capazes têm debilidades inultrapassáveis. Tudo depende da base que colocamos no rosto; na roupa que vestimos; no perfume que escolhemos. Por isso digo, e reafirmo, que não há padrão que me seduza, à partida. Há o «conjunto». Há desequilíbrios. Há carências. Nunca fui de procurar o fácil. Nunca encarei o deslumbramento como benéfico. Gosto de lutar. Gosto de me sentir testado e posto à prova. Apraz-me reconhecer no outro certas dificuldades visíveis e outras ainda ocultas. Que ele procure defender-se, resguardar-se, obrigando-me a partir em busca de si próprio (e, no fundo, de mim). Para que desse desequilíbrio criado por ambos venham a nascer, no futuro, duas «novas» identidades mais competentes. É esse o meu equilíbrio. Um constante jogo de pés. Um jogo que já teve a sua fase de abstracção e recolhimento, e que conhece, agora, enfim, uma fase de expansão. De descoberta. Mesmo que egoista...

quarta-feira, março 28, 2007

Eternidade

É axiomático que todos somos diferentes. Há dias dei um passeio, sozinho, sem destino, sem tempo para partir nem para chegar, e como seria de esperar viajei não só com as pernas mas também com a mente. Com a alma. Foi curioso o efeito do vento quase gélido no meu rosto ressequido. Pensei em determinadas pessoas, certas situações ocorridas nos ontens do meu passado, fui capaz de sentir momentos vividos, vislumbrar metas, imaginar o que teria sido a minha vida se (e só se) «isto» ou «aquilo» não tem acontecido. Um mero exercício, claro está, no entanto deveras interessante. Recordei pessoas marcantes, umas com saudade, outras com o riso meramente circunstancial da memória, procurei perceber como e onde cada uma se enquadrava em mim (e eu nessa ou nessas pessoas). De tudo quanto me aconteceu, algures nesse passado perdido mas não esquecido, creio que apenas me lamento de uma ou outra situação em particular, isto no que às «pessoas» diz respeito, bem entendido (e mais concretamente a acontecimentos com «carga amorosa»). Momentos em que fui demasiadamente racional, frio, cruel, inflexível… até obtuso. Embora não me reveja mais neste «perfil» de pessoa e de homem, saliento, a propósito, que foi essa forma de ser que me conduziu ao hoje, ao presente, e disso me orgulho enormemente. Fico feliz por ter sido assim. No entanto, e no tal capítulo particular que referia, essas duas situações revestiram-se de um sentimento de certa nostalgia, algo nada frequente em mim, diga-se. É evidente que não posso, a esta altura, perspectivar o que teria acontecido se os tais «isto» ou «aquilo» me tivessem conduzido de forma diferente, contudo, esse sentimento saudosista revela-me, inequivocamente, e no agora, que o meu espírito gostaria de ter dado um outro rumo a esses dois acontecimentos particulares. E muito bem. Não deixa de ser um sentimento «bom», este, uma vez que não se reveste de qualquer arrependimento subjacente. Entendo, perfeitamente, os motivos que me levaram a optar como optei. E é precisamente esse sorriso que trago nos lábios. «Quem não recordaria uma paixão sentida no encanto único de Veneza?»
Usei do cariz sentimental e amoroso por ser aquele que, indelevelmente, nos deixa mais marcas. Há um sem número de acontecimentos e de sentimentos que nos deixam igualmente marcas, obviamente, mas são as «paixões» ou as angústias a elas devidas que, não raras vezes, nos fazem soçobrar perante o passado que se entende aos nossos pés. Creio que são os sentimentos mais relevados por quase todos os seres humanos, e aqueles que mais nos transcendem.
Tudo para dizer que, a este ponto da minha vida, não encontrei ninguém que me faça ter aquela noção de eternidade. Houve, felizmente, pessoas muito marcantes, de quem gostei muito e às quais dei sempre tudo o que na altura possuía cá dentro, porém, agora que nenhuma dessas pessoas se encontra mais ao meu lado, não sinto falta de nenhuma, não lamento a ruptura nas relações, tenho a certeza que nenhuma dessas pessoas deveria estar comigo (e eu com essas pessoas). Relembro-as com todo o carinho com que se recorda um grande amigo que por este ou aquele motivo deixou de estar presente nos nossos dias, mas seguramente não mais do que isso. Não quero com isto dizer que foram de somenos importância, antes pelo contrário: foram as pessoas mais importantes que tive, nesse foro específico. Apenas não se fundiram em mim, a ponto de considerar (sentir) que as relembrarei para sempre como pessoas que amei. Passaram pela minha vida, em boa hora. E eu, quiçá, pela dessas pessoas.
Lembrei-me do que acabei de escrever depois de ouvir uma amiga dizer que recordava as antigas paixões com um sentimento de eternidade. Com saudade. Com nostalgia. É isso que eu não sinto. Talvez por ter uma forma diferente de lidar com tudo isso, com esse departamento que é o meu coração. Gosto das pessoas (enfim…) mas defendo-me do «amar». Para que seja algo de arrebatador quando acontecer. Por isso não me revejo, muitas vezes, quando «amo». É intenso. Reconheço que demasiado intenso, até. No entanto, passageiro. Efémero. Mesmo que seja sempre eu aquele que luta arduamente para que a relação não acabe. Como diz um amigo meu, ultrapasso e lido com essas situações de forma peculiar. Por muito que possa acontecer ou ter acontecido, por muito sofrimento que tenha havido, sou incapaz de «lamentar». Antes pelo contrário. Sei de quem fica agarrado, preso a esse passado que teima em não os largar, e se sente incapaz de prosseguir, de dar passos no novo caminho que entretanto foi desbravado. Eu saúdo esse devir. Vislumbro-o. Cresço. O que passou, passou. Erradamente ou não, por motivos que desconheço, sou assim mesmo. A eternidade não existe para mim. Quero o que vem amanhã. Quero conhecer (agora sim!). Quero novos sentimentos. Novos alguéns. Sem temer o que acontecerá se for assim ou não. Se for por aqui ou por ali. Sei que estou diferente. Sei que quando sinto, sinto com uma força e um desejo incríveis. Sem concessões; sem limites. Sofregamente. E sei que encontrarei – esse alguém que fará de mim o que sou e o que não sou. O que levará de mim o que albergo cá dentro. O alguém que, enfim, trará a dimensão de eternidade para dentro do meu coração.
Mesmo que lá não queira permanecer.

terça-feira, março 27, 2007

Qual destino?

Haverá melhor «destino» do que aquele que é traçado por nós próprios? Um destino feito à nossa medida, mesmo que nem sempre nos assente da melhor forma. Para isso, e nessas ocasiões, é necessário evitar a acomodação, ter força para querer mudar. Não podemos deixar que o fado do destino nos sorva as entranhas e nos torne como a maioria: seres medíocres. Infelizmente, conheço algumas pessoas que correm esse risco; o anátema de viverem confinados àquilo que a vida lhes dá, por inerência do simples respirar. Conheço essas pessoas, felizmente, claro; porém, é quase cruel vê-las e rever todo o seu potencial sem que, no entanto, ele seja aproveitado.
Esta é a ironia do destino. Porque o destino é isso mesmo: uma mera concepção criada para justificar a passividade que nos corrói. Sempre podemos dizer, «é o destino...» ou «estava escrito no meu destino». Nada mais errado! O destino somos nós, é influenciado por todas as nossas atitudes diárias, pelas nossas decisões, e por tudo o que o mundo tem de imponderável, evidentemente. Contudo, essa imprevisibilidade que reveste os nossos dias não torna as nossas vidas num caminho traçado à priori. Em tudo o que fazemos na vida há parcelas controláveis e parcelas impossíveis de prever. O destino é isso mesmo: é a confluência de ambos os caminhos, de ambas as parcelas.
Claro que é mais fácil desistir. É mais fácil ceder. É mais fácil esconder o corpo. É mais fácil não agir. Aquilo que requer força e energia da nossa parte torna-se, por si só, árduo. Para essas pessoas, viver custa. É um fa(r)do... Como dizia alguém que conheci, «é assim mesmo, e não há nada a fazer... É o meu destino.» Que revolta intestinal tal aforismo me provocava!
Por que não encarar o destino como uma busca incessante da felicidade? E não quero saber se a «felicidade» existe ou é apenas o somar de pequenos acontecimentos (e momentos) felizes. Seja o que cada um quiser! O importante é tomar consciência dessa luta perene. Não somos seres perfeitos. Se o fôssemos não necessitaríamos dos Deuses. A Fé é uma criação do homem. Usem-na na procura da tal felicidade, então, e sirvam-se de todos os ardis imagináveis! Façam o que têm a fazer, o que sentem a vibrar dentro da alma. Conquanto respeitem a liberdade dos demais. Por muito que queiramos ser felizes, e sê-lo «à nossa maneira», não podemos, jamais, conquistar essa felicidade à custa da dos que nos rodeiam. Que sirva de lição...
A nossa felicidade estará sempre dentro de nós.

sexta-feira, março 23, 2007

Chega!

Começo a achar patético, de tantas vezes ouvir, a expressão «sou muito eu»...
Desengane-se aquele que pensa que se está a auto-elogiar ou a promover. Está simplesmente a encobrir um sentimento de insuficiência. Ninguém é pleno actuando sozinho. Por muito que gostemos de estar por nossa conta, no nosso recanto (e eu sou um deles), quem pensa que só assim será «uno» e actuará na sua completa «identidade», está, no mínimo, redondamente equivocado. A nossa identidade é indivisível. Só a perdemos se deixarmos que tal aconteça. E para isso acontecer não necessitamos de ter «alguém» do nosso lado. É um absurdo pensar-se que quando se está «com alguém» podemos perder esse nosso «eu» tão demarcado. Passa-se precisamente o contrário!; conseguiremos ser verdadeiramente nós próprios, chegar ao fundo do nosso âmago, encontrar traços quase invisíveis, apenas se ajudados por essa pessoa «especial», aquele que nos potencia, nos vira do avesso, nos faz sentir únicos. Aí se encontra a real identidade que possuimos. Não na «solidão» das almas; antes nas relações que entre elas se estabelecem. O que há é manobras de «diversão»... formas de esconder as nossas fraquezas. Nada mais.
Quem não precisa desse «alguém» que atire a primeira pedra.

quinta-feira, março 22, 2007

Sem ti

Se eu fosse um verso, como seria composto?
De lentas rimas?
Palavras ambíguas?
Sensações dispersas?
Ou um sentimento único,
Mas uma unidade complexa?
E se fosse um livro, inteiro?
Tal quantidade de palavras
Umas sem nexo algum
Despejadas ao acaso da vontade sem tino
Um ror de frases gramaticalmente perfeitas
Um laço hermético sem princípio nem fim.
Talvez devesse ser um poema e nada mais...
Um conjunto de versos e não um só
Sem rima
Sem palavras de saudade
Sem ambições de versos declamados
Uma estrutura flutuante
Redigida ao sabor do vento
Na ponta do teu lápis
Aguçado, arrepiante, doloroso.
Ou talvez não,
E apenas uma folha.
Branca
Sem linhas.
Um pedaço, vazio.
Erradamente.
Um quadrado cheio,
Repleto, vivo, iridescente.
Sem ti e sem ninguém.
Empunho o lápis e escrevo.
Eu.
Mais ninguém.

quarta-feira, março 21, 2007

Resto de rosto

Consciência.
Serão as pessoas loucas? Ou serei eu o «louco» por pensar que são precisamente os outros a sê-lo?
Daí a carta... a mim mesmo... e não a uma outra pessoa qualquer. Com a minha (hipotética) demência posso eu bem... O problema é a decrépita consciência, o fácil julgar, a incoerência atroz dos pensamentos que circudam... o que me faz acreditar que a melhor solução é mesmo «esta».
Entendo que devemos estar com «alguém» quando desejamos ter essa pessoa junto a nós; quando sentimos falta dela nos momentos em que estamos sozinhos, relaxados, tranquilos. Logo, na circunstância de se sentir o oposto, a única decisão válida é valermo-nos de nós próprios, sorrir quando nos procuram mas dizer «não, obrigado». É a realidade, nada mais. Convém que sejamos honestos pelo menos connosco. Devemo-nos isso. E asssim se evitam situações menos agradáveis, sofrimentos alheios, perdas de tempo, momentos de reflexão dolorosa. Não é valência, não é egoísmo (pelo contrário, suponho...), não é arrogância... é encarar os nossos sentimentos de frente. Tantas e tantas vezes me perguntaram «por que é que é assim», e a resposta é sempre tão simples, tão óbvia (e a mesma, claro!): preciso de sentir um desequilíbrio; e, assim, de ser surpreendido. É tão imediato, tão reflexivo, tão imponderado, que invalida sempre o possível crescimento do «sentimento». Ou existe (quase à priori!) ou não. E então não há encantamento possível. Como habitualmente afirmo, é visceral. E é mesmo, acreditem. Daí todo o controlo que demonstro ter, nas mais variadas ocasiões. Nem se trata, sequer, de «controlo»...
É surpreendente que um invisual não reaja à incidência da luz?
Serei uma pergunta retórica?

segunda-feira, março 19, 2007

Carta a mim

Toquei-te nos lábios com as pontas dos dedos e abri-os. Senti a humidade da tua saliva, deslizei no teu interior e fixei o meu olhar em ti. Nos teus olhos escuros.
Sem nenhum trejeito nosso, imóveis naquele momento quase solene, acariciei o teu cabelo negro, brilhante, e parei junto do pescoço. Beijei-o com a mão até te arrepiares de prazer. A tua pele chamava por mim, o teu corpo pedia-me para ser devassado, o teu rosto clamava pelos meus lábios. Ainda assim, a tua respiração era calma. Talvez tivesses a certeza de que, independentemente do que acontecesse naquela noite especial, tinhamos sido feitos um para o outro. Não sei. Supus que nos julgaste assim, como uma espécie de almas gémeas. Seja isso o que for. Signifique o que significar. Eu não sabia. E continuo sem saber. Admito que até possa acreditar que isso fosse mesmo possível, que tudo tenha «essa» explicação feérica... e que seja eu a estar enganado. Sim, e que tudo seja, nem mais, uma questão de perspectiva. Um erro da minha parte. Como tantos outros. Debato-me interiormente, tentando perceber se é a minha pele que não se eriça, se é o meu olhar que não sente, a minha mão que não aquece... Se, simplesmente, o arrepio não existe em mim.
Ou se deva, tão-somente, acreditar que sim.

quinta-feira, março 15, 2007

Apenas um pedaço

Acho que vou ficar sozinho. Acho que quero ficar sozinho. Talvez não tenha nascido para me ligar a uma pessoa, para fazer dessa pessoa alguém «especial» junto de mim. Não que acredite nisto mesmo que acabei de escrever; não que acredite seja no que for. Desconheço as minhas próprias crenças; ignoro razões ou explicações.
Acontece.
Como num ciclo iterativo e errático. Uma perspectiva que me provoca um sorriso nos lábios. Um sorriso verdadeiro, sentido. Contrariamente às razões… que eu não as conheço. Serei eu? Serão os demais? Haverá «culpa»?
Afinal, por que razão estou eu a fazer referência a isto mesmo?
Não me dou facilmente. Embora gostasse. Apesar de tentar, de forçar, de procurar... a espaços. No entanto, é sempre um comportamento consciente, imposto pelo meu espírito insatisfeito. Por duas vezes consegui superar essa barreira; fui capaz de me ligar. E, sobretudo, de sentir que essa ligação era aquilo que eu queria; era frutuosa, desejada e verdadeira. E fui sempre fiel a isso mesmo, a essa perspectiva interior que cresceu em mim em duas ocasiões, só. Porque sou incapaz de o conseguir, amiúde. Ainda que, em ambas as situações, tenha lutado de forma valente, abnegada, quase (aliás, mesmo) exagerada. Sou de cerrar os dentes e tomar decisões contra tudo e contra todos; fechar os punhos, cravar as unhas na minha própria pele, e ir até ao fim. Até não conseguir mexer mais um músculo. Até não me deixarem ser eu próprio.
E logo me convenço que foi inglório. Que fui incapaz. Que lutei. Que é esse o desígnio. Meu, alheio, não sei. Não quero saber. Não me interessa minimamente. Apenas porque o equilíbrio é «este». O presente.
Vejo tantos rostos, tantos corpos, tantas mentes. Os sorrisos, as mãos, os olhares. Sinto os odores. Ouço as vozes. Toco.
Estico os lábios. Agora mesmo. Simplesmente porque tantas palavras foram escritas sem motivo… sem motivo maior do que dizer, tão-somente, algo que se resume por si mesmo. Não num título, não num texto, não numa conversa.
Sei lá… não sou capaz. Já fui. E voltarei a sê-lo. Tenho a certeza disso. Contudo… não sou. Mesmo. E isso não me deixa triste. Agora não. Agora assumo. Talvez me provem o contrário. Embora deva dizer, com toda a honestidade, que gostava de ter «tudo». Esse meu tudo. O tudo que eu gostava de ter. De escolher. De ter ao meu lado. Quando eu quisesse. Se o quisesse.

quarta-feira, março 14, 2007

Se não fosse assim...

A magia vive-se. Respira-se. Toca-se. E procura-se. Somos animais. Bichos. Sozinhos, insignificantes. Profundos criadores de rotinas que dilaceram o sentido mais instintivo da vida, o improviso constante que é dar um passo noutro sentido qualquer. Não me refiro a comportamentos desviantes, que ninguém precisa de os ter para viver intensamente; plenamente.
Fundamental é acreditar. Olhar para dentro de nós próprios e acreditar que somos capazes, que temos «aquilo que faz a diferença». Seja esse «aquilo» o que for! Se a excepção existe para confirmar a regra, a rotina existe para ser quebrada. Já não basta vivermos de relógios na cabeça, de agendas sem tempo para nada nem para ninguém, que acabamos mesmo, de forma quase irreversível, por perder o gosto e o prazer que nos tem de dar o olhar para nós - o olhar por nós. Ninguém o fará. Pelo menos, ninguém o deveria fazer. Não depender é o segredo.
Eu tenho rotinas, todos temos rotinas; elas existem e quase ninguém pode impedi-lo. Viver em sociedade é admiti-las. No entanto, não podemos viver subjugados por elas, amedrontados, recolhidos numa concha protectora dentro da qual estaremos sempre mais protegidos; apenas porque as rotinas perpetuam o caminho que seguimos todos os dias, e que, como tal, tão bem conhecemos. Errar torna-se quase impossível. «Cair» só se for por manifesta vontade do alheio.
E amanhã o relógio desperta-nos à mesma hora de sempre; para regressarmos a casa no final do dia, cansados na exacta medida do ontem, prontos a fazer... o costume: o vivido. Que será o amanhã. O que muda são as cores. O cenário é o mesmo. Perpetuamente.

sexta-feira, março 09, 2007

Elementos

Pinto-te
Nua
Sobre uma tela transparente como a água
O ventre límpido
Olhares de puro cetim
Toque do arrepio por entre um beijo fugidio
A camisa que se aperta e desaperta,
Ao sabor da tensão
Do músculo que é contraído
Na saliência dura como o ferro
O marfim da saudade
Esse arco aberto que se reproduz
Num ninho de calor
É a chuva e sol sem arco-íris
Terra e água sem ar
Fogo e vento... Ardor!
Num ritmo estertor,
De pleno fulgor, temor sem pudor.
Os vales, o riacho, e a paisagem unicolor,
Que, ainda linda.
Queimada... mas viva.

quarta-feira, março 07, 2007

Brevidade interior

A força das palavras é imensa, quase irreal; porém, a única força incomensurável são as nossas acções, as nossas atitudes, o que nos vai na alma. Entendo que as letras sejam, não raras vezes, formas que encontro de me expiar, de encontrar refúgio para o incompreensível da vida. E ela tem tanto de incompreensível, de estranho, de doentio.
E como é estranho... hoje quero apenas saborear essas palavras cá dentro. Talvez por ter acordado sem algo de «incompreensível» a corroer-me o espírito.
Leveza...

terça-feira, março 06, 2007

Jogo de Palavras

Escuso de afirmar que qualquer Homem se funde nas emoções. A problemática é saber distinguir «emoções» de «sensações». Aquilo que ele – Homem – desconhece, é que luta, de forma doente e espúria, por um desígnio que o reduz a nada. Somos vis. Actuamos na perfídia que nos transforma em matéria abjecta e infame, porque supomos que essa busca incessante nos transcende e satisfaz. Porquê? Porquê partir do desrespeito por si mesmo? Por que não resistir a uma tentação vã e passageira? Não lhe peço que seja sincero comigo, amigo leitor, apenas consigo mesmo. Não acredita no que lhe digo? Prossigamos.
Ama? Já amou? Tenciona amar? Responda à sua pergunta. Apenas a uma.
Algum dia temeu ter perdido a liberdade? Quiçá, ter-lhe-á sentido o odor...
E no seu mundo, caro leitor, existem odores? Diga em voz alta, tonante, para si mesmo, que mundo é o seu?... Consegue? Definiu-o? Ou foi invadido por um sentimento de vazio? Em quem pensou?! Vá! Não sinta receio, sou seu amigo, confidente. Ajude-se. Não tenha medo de exteriorizar aquilo que sente; bem como o que deseja. Assuma. Dialogue com o seu ego.
Retenha este «mundo». Continue a construir sobre ele. Ainda que não seja o seu mundo; bem como não é o meu. Provavelmente, será o de alguém que ambos conhecemos. Isso! Adivinhou. É dele. E nosso; meu, seu. Fazemos parte dele. Independentemente da profundidade em que nos encontramos, da consciência que dele tenhamos. É, agora, nosso também. Como num salto para o desconhecido. Um voo!
Voltemos atrás: o sentimento modela o ser humano. Somos incapazes de o arrostar. Para muitos de nós, o sentimento é cobiça, inveja. Para outros, pureza, sublimidade. Tudo depende dos olhos que o enxergam.
Nunca julgue aprioristicamente aquilo que sente por alguém. Nem por mim. Dê azo a que o sentimento, ou as «sensações» que ele despoleta, o conduzam por entre os jardins que se bifurcam. Não minimize as suas contingências. Quando pensar que a sua liberdade está em risco, ameaçada por um sentimento avassalador, nesse momento terá encontrado a sua plenitude mágica. O amor não coexiste sem liberdade, bem como é inconcebível haver plenitude sem secessão dela. No entanto, a liberdade de que prescinde no amor é somente uma parcela egoísta do seu ego.
Vivemos condicionados pelo temor de uma força que desconhecemos por completo. Uma força sem nome, sem rosto, sem corpo – sem matéria. No entanto, uma força que nos verga perante a sua inexorabilidade latente, e nos impele a levá-la seriamente em conta.
Como lidar com ela, respirar do seu lado? Enfrentá-la? Conseguirá o ser humano lutar contra a força mestra que conduz à revelia a sua vivência mais inócua?
De que força destruidora escrevo, respeitado leitor?

segunda-feira, março 05, 2007

«Tangos e Tragédias»

O título deste pequeno post deveria ser algo semelhante a «Reaprender a rir». Só não é porque entendo que a «homenagem» só teria o brilho suficiente e merecedor se o mesmo (o tal título) fizesse jus a ela própria (à homenagem...!). Trocadilhos à parte (quem sabe do que estou a falar perceberá o porquê deste «trocadilho» inicial), vamos ao que interessa...
Fui assistir a um espectáculo digno de ser revisto, se tal fosse possível. Aconselhá-lo-ia a todas aquelas pessoas de quem gosto e que sei que gostam de uma boa gargalhada. Ou então, igualmente, a todas as pessoas que «precisam» de a dar (a gargalhada, claro)...
Incontornável.
Inesquecível.
É sair da sala (do re-esplendoroso Theatro Circo) com um sentimento de leveza incomensurável, dores nos músculos faciais e abdominais, e a enxugar as lágrimas que o riso incontido provocou.
Não há dúvida que a arte de fazer rir é complicada. E eu sou exigente. Muitas vezes sisudo, pouco dado ao riso fácil e extemporâneo, considero-me um espectador que, no que diz respeito à «comédia», só se perde de riso quando o que ouve ou vê é digno de tal. Os dois actores que protagonizam o "Tango e Tragédia» superaram qualquer expectativa que pudesse existir. São geniais na forma como interagem com a audiência, como nos obrigam a cantar, a gesticular, a falar com eles, a abrir a boca quanto mais não seja para mostrarmos os dentes ao nosso parceiro do lado... Deveriam inclusive aconselhar as pessoas, quando estas compram os bilhetes, a levaram um pacote de lenços de papel. É impossível não sair de lá desfeito em lágrimas de riso.
Lembro-me como se o tivesse diante de mim (até porque o tive mesmo!)... o ar de louco, os lábios pintados de preto, a barba por fazer, o cabelo espetado (e bem espetado, garanto!), a sobrancelha franzida, e uma expressividade fora do normal no olhar... Único.
E recordo o companheiro de labuta, de rosto lívido, bigodinho minúsculo, jeito de cabaré e anos 40, sempre ébrio por causa dos desamores contínuos (sobretudo da Ana Catarina!!)... que imenso pagode!!
Música, muita música, letras que entram no ouvido e de lá nunca mais saem, e histórias que roçam os píncaros da comicidade... Autenticamente, uma peça para recarregar as baterias para uma nova semana! Para não falar da quantidade incrível de pequenas privates com que de lá se sai: "roubaram meu sandwich!"; "os plim... plommm; o esgar retorcido e a língua de fora...!"; "obrigado Ricardo pela contribuição, mesmo que contra todos os outros!!"; e... a fantástica "dança de Copérnico!!".
Bem, é impossível de descrever o que se sente. De facto, só visto e sentido. Se puderem... não percam a oportunidade de perceber que a vida foi feita, sem dúvida, para sorrir.
Alegria contagiante.
Sobretudo, para espectadores «difíceis»... :)
E o tango... O tango não se esquece jamais...

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