É axiomático que todos somos diferentes. Há dias dei um passeio, sozinho, sem destino, sem tempo para partir nem para chegar, e como seria de esperar viajei não só com as pernas mas também com a mente. Com a alma. Foi curioso o efeito do vento quase gélido no meu rosto ressequido. Pensei em determinadas pessoas, certas situações ocorridas nos ontens do meu passado, fui capaz de sentir momentos vividos, vislumbrar metas, imaginar o que teria sido a minha vida se (e só se) «isto» ou «aquilo» não tem acontecido. Um mero exercício, claro está, no entanto deveras interessante. Recordei pessoas marcantes, umas com saudade, outras com o riso meramente circunstancial da memória, procurei perceber como e onde cada uma se enquadrava em mim (e eu nessa ou nessas pessoas). De tudo quanto me aconteceu, algures nesse passado perdido mas não esquecido, creio que apenas me lamento de uma ou outra situação em particular, isto no que às «pessoas» diz respeito, bem entendido (e mais concretamente a acontecimentos com «carga amorosa»). Momentos em que fui demasiadamente racional, frio, cruel, inflexível… até obtuso. Embora não me reveja mais neste «perfil» de pessoa e de homem, saliento, a propósito, que foi essa forma de ser que me conduziu ao hoje, ao presente, e disso me orgulho enormemente. Fico feliz por ter sido assim. No entanto, e no tal capítulo particular que referia, essas duas situações revestiram-se de um sentimento de certa nostalgia, algo nada frequente em mim, diga-se. É evidente que não posso, a esta altura, perspectivar o que teria acontecido se os tais «isto» ou «aquilo» me tivessem conduzido de forma diferente, contudo, esse sentimento saudosista revela-me, inequivocamente, e no agora, que o meu espírito gostaria de ter dado um outro rumo a esses dois acontecimentos particulares. E muito bem. Não deixa de ser um sentimento «bom», este, uma vez que não se reveste de qualquer arrependimento subjacente. Entendo, perfeitamente, os motivos que me levaram a optar como optei. E é precisamente esse sorriso que trago nos lábios. «Quem não recordaria uma paixão sentida no encanto único de Veneza?»
Usei do cariz sentimental e amoroso por ser aquele que, indelevelmente, nos deixa mais marcas. Há um sem número de acontecimentos e de sentimentos que nos deixam igualmente marcas, obviamente, mas são as «paixões» ou as angústias a elas devidas que, não raras vezes, nos fazem soçobrar perante o passado que se entende aos nossos pés. Creio que são os sentimentos mais relevados por quase todos os seres humanos, e aqueles que mais nos transcendem.
Tudo para dizer que, a este ponto da minha vida, não encontrei ninguém que me faça ter aquela noção de eternidade. Houve, felizmente, pessoas muito marcantes, de quem gostei muito e às quais dei sempre tudo o que na altura possuía cá dentro, porém, agora que nenhuma dessas pessoas se encontra mais ao meu lado, não sinto falta de nenhuma, não lamento a ruptura nas relações, tenho a certeza que nenhuma dessas pessoas deveria estar comigo (e eu com essas pessoas). Relembro-as com todo o carinho com que se recorda um grande amigo que por este ou aquele motivo deixou de estar presente nos nossos dias, mas seguramente não mais do que isso. Não quero com isto dizer que foram de somenos importância, antes pelo contrário: foram as pessoas mais importantes que tive, nesse foro específico. Apenas não se fundiram em mim, a ponto de considerar (sentir) que as relembrarei para sempre como pessoas que amei. Passaram pela minha vida, em boa hora. E eu, quiçá, pela dessas pessoas.
Lembrei-me do que acabei de escrever depois de ouvir uma amiga dizer que recordava as antigas paixões com um sentimento de eternidade. Com saudade. Com nostalgia. É isso que eu não sinto. Talvez por ter uma forma diferente de lidar com tudo isso, com esse departamento que é o meu coração. Gosto das pessoas (enfim…) mas defendo-me do «amar». Para que seja algo de arrebatador quando acontecer. Por isso não me revejo, muitas vezes, quando «amo». É intenso. Reconheço que demasiado intenso, até. No entanto, passageiro. Efémero. Mesmo que seja sempre eu aquele que luta arduamente para que a relação não acabe. Como diz um amigo meu, ultrapasso e lido com essas situações de forma peculiar. Por muito que possa acontecer ou ter acontecido, por muito sofrimento que tenha havido, sou incapaz de «lamentar». Antes pelo contrário. Sei de quem fica agarrado, preso a esse passado que teima em não os largar, e se sente incapaz de prosseguir, de dar passos no novo caminho que entretanto foi desbravado. Eu saúdo esse devir. Vislumbro-o. Cresço. O que passou, passou. Erradamente ou não, por motivos que desconheço, sou assim mesmo. A eternidade não existe para mim. Quero o que vem amanhã. Quero conhecer (agora sim!). Quero novos sentimentos. Novos alguéns. Sem temer o que acontecerá se for assim ou não. Se for por aqui ou por ali. Sei que estou diferente. Sei que quando sinto, sinto com uma força e um desejo incríveis. Sem concessões; sem limites. Sofregamente. E sei que encontrarei – esse alguém que fará de mim o que sou e o que não sou. O que levará de mim o que albergo cá dentro. O alguém que, enfim, trará a dimensão de eternidade para dentro do meu coração.
Mesmo que lá não queira permanecer.