sexta-feira, janeiro 19, 2007

Comunhão

Sorris. Eu sorrio. Choras. Eu choro.
Dás um passo em frente; diriges-te a mim.
Abro os braços e estendo-te o meu calor. Em mim, repousas, mais tranquila. Sem que abras a boca, sequer mexas os lábios num trejeito de confissão dolorosa, principio a falar. Com uma voz pausada, melódica, entretenho o teu ouvido, e capto o teu espírito, triste e distante.
Digo-te que a vida é assim mesmo, com avanços e recuos, felicidade e angústia, sorrisos e lágrimas. Só dessa forma, acrescento, nos conseguimos encontrar verdadeiramente. Enfim, conseguimos ser unos. Tu e eu.
O passado dói; sei disso. O meu é cruel, e estendo-to diante das tuas mãos quentes e melífluas – quero que conheças a minha dor, para que possas sentir a minha alegria; que conheças os meus tormentos, aqueles pesadelos que, de quando em vez, me assolam o espírito, se desprotegido. Nada a fazer. Ele invade-nos sem clemência nem piedade. Tenta apoderar-se dos nossos sentimentos, da nossa realidade, de tudo aquilo que construímos, desde então.
Façamos-lhe frente! Enfrentemos o animal com a nossa força conjunta! Só assim venceremos... Só dessa forma conseguiremos subjugá-lo a uma existência mais sublime do que a própria criação dele, sempre onírica e falsa. O passado serve-nos de guia, de ensinamento, de ponte para algo mais e melhor – o futuro. Eu e tu.
Lentamente, começas a fundir-te aos meus braços. Deixo de sentir onde terminam os meus dedos e onde seguro o teu corpo. Sinto a tua respiração mais calma, sossegada, como se te preparasses para dormir, ali, entrelaçada em mim. Calo-me. Não te disse tudo; não te disse nada. No entanto, percebeste. Sentiste. Sem que eu o afirmasse, tu ouviste. Porque o teu ouvido é a minha boca, percebes?
Só então, momentos após essa primeira comunhão perfeita, soltas os lábios. Voltas a sorrir. Sorris loucamente para mim, e ris. A força que transportas no teu interior é brutal, avassaladora. Contagiante. Fazes-me sonhar.Para mim, a lógica da vida fora conquistada, ali, naquele instante. O tudo e o nada confundiram-se, perdidos em nós. Como se não te bastasse, dizes... «fica comigo. Eu e tu»

visitas