terça-feira, dezembro 05, 2006

Testemunho

«Sam não sabia conhecer as pessoas; era um homem crédulo, desinteressado, demasiado afastado do mundo real e das pessoas em geral. Embora nunca o tenha considerado alguém egocêntrico, ou achasse que só pensava em si mesmo, a sua forma de estar e de viver roçava amiúde algumas das idiossincrasias que normalmente modelam o ser humano egoísta e que vive num mundo próprio onde ninguém entra. Sam era, assim, alguém iminentemente estranho e reservado, que alternava o bom humor e a disponibilidade com o mau génio de um predestinado. Ele sabia que o era, que nascera com aquela centelha de virtuosismo que só os grandes possuem ou alcançam; estava talhado para grandes voos, descobertas incomensuráveis, e o seu nome talvez merecesse ficar na história, não como o homem que abriu caminho para algo, mas como aquele que o logrou e que lá chegou, efectivamente. Sempre fora esse o seu desejo mais irreprimível: não ficar a meio; não morrer na praia; Sam temia que fosse outra pessoa, anos mais tarde, a ser reconhecida por aquilo que só ele lograra imaginar e realizar, anos antes.
Mesmo quando comecei a conviver com ele quase diariamente – exceptuando as alturas em que ele não abandonava o laboratório ou a própria cave –, demorei alguns anos a aperceber-me da dimensão absurda e irreal do seu estudo – e do empreendimento em si. Claro que nunca lhe perguntava nada em concreto, pelo que sempre evitei penetrar num mundo para mim tão denso e incompreensível como o da investigação, no entanto, e ocasionalmente, Sam deixava escapar uma ou outra frase ou comentário, eu ouvia uma conversa ao telefone, lia partes dos seus organizados dossiers, e fui assim tendo algum contacto com a sua realidade; aquilo que ele escondia de mim, e do resto do mundo, na verdade. Exceptuando estes acontecimentos esporádicos, nenhum outro contacto tive. Durante largo tempo do nosso casamento, cheguei mesmo a parar para pensar mais aprofundadamente sobre o assunto. Afinal, o que faz o meu marido?»
in «Reinventar a memória» (excerto do Capítulo 5, Parte I)

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