«Primeiro» voo
E o pássaro recolheu as asas. Para, num gesto decidido mas vagaroso, se lançar, voando, para os céus da decisão. Sentia-se, finalmente – e esta palavra adquiria, então, um significado e um valor inelutáveis – livre, desprendido de amarras outrora impeditivas de um voo puramente instintivo, animal. Agora sim, era um pássaro. E as penas que o revestiam adquiriam, com o voo, novas e diversas tonalidades; desde o verde ao escarlate, passando pelo amarelo-alaranjado; uma verdadeira e notável matiz de cores jamais inimagináveis para aquele pássaro. Era curioso perceber que, sem nada que o explicasse ou consubstanciasse, tudo lhe parecia, de certa forma – e sem o exprimir objectivamente –, «diferente». Como na primeira vez, na descoberta ímpar; o primeiro voo. Com uma diferença, apenas: não era a primeira vez. Embora não fosse um pássaro velho ou acabado, de penas gastas, era um animal com um digno nível de vivência. Ainda assim, tudo se revestia de uma pureza e de uma sublimidade inconcebíveis para ele – justamente ele!
E, de súbito, tudo ganhava uma nova vida; o azul do céu ficava mais real e diáfano; as árvores mais entroncadas, robustas; a vegetação mais densa e viva; os riachos de água mais reluzentes e límpidos. Parecia um sonho; mas um sonho vivido em êxtase, em comunhão - como se a visão nova partisse, justamente, do seu interior; da sua própria percepção. Consequentemente, algo a toldara, anteriormente.
Nunca mais. Respirava esse novo ar. Um ar novo para ele, contudo, o mesmo de sempre. Como uma catarse invisível, imperceptível. Sem explicação. Sem perguntas. Sem nada mais. Apenas ele.
Nunca mais. Respirava esse novo ar. Um ar novo para ele, contudo, o mesmo de sempre. Como uma catarse invisível, imperceptível. Sem explicação. Sem perguntas. Sem nada mais. Apenas ele.
Ele, e o seu primeiro voo.

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