quarta-feira, dezembro 06, 2006

K-Space

Pegaste no teu carro e iniciaste a marcha. Conduziste durante horas a fio, talvez dias, semanas, ou até anos, sempre em busca daquilo que te faltava: a felicidade; a plenitude do sentimento; a tua cara metade. As curvas da estrada foram as lições na tua vida, o caminho que percorreste até lograres ser quem és, hoje.
Prosseguiste, cega, receosa mas decidida, no teu peculiar desabrochar. Tornaste-te mulher, alcançaste uma beleza interior indizível, e, embora as curvas do caminho te tenham perturbado a condução, mantiveste-te fiel aos princípios que sempre regeram e regerão a tua existência. Admiro-te por isso. Por isso e por tudo o que és, o que sentes, o que fazes, o que dizes. Vivo pelo teu sorriso, para o ver cintilante e sincero, para tocar nos contornos da tua boca e afagar o teu cabelo comprido que me chama.
Durante a tua viagem, um dia, distraída, abusaste na velocidade do teu crescimento e saíste da estrada violentamente. O carro virou várias vezes no ar, rodopiou como um pião maldito, tu adormeceste ainda antes do impacto, e só voltaste a recuperar os sentidos quando foste envolvida por uma imensa poeira esbranquiçada. À tua volta tudo era o «caos»... Supuseste-te, não obstante, no Céu, algures entre as nuvens com que sonhavas todos os dias... Sorriste. Assim que a poeira assentou, vislumbraste um sofá, uma mesa, uma televisão acesa, e uma água que escorria não sabias tu de onde... mas que era tranquilizadora.
Talvez tenha sido tudo propositado, e o teu desejo fosse o de seres, finalmente, carregada até essas mesmas nuvens, acariciada por elas, as mesmas que te proporcionaram sempre o conforto do sonho e da felicidade onírica.
Demoraste alguns minutos a concluir que, apesar da semelhança pensada, aquilo não era o Céu, nem as nuvens, nem um sonho proporcionado pela tua agência de viagens única... Era a realidade nua e crua.
Subitamente, ainda contigo dentro do habitáculo do carro, apareceu um ser diferente, todo de azul, alto, sorriso franqueado, que caminhava em direcção a ti, seguro. Sem que mexesses um músculo, esse ser retirou-te de dentro do carro e levou-te, ao colo, até à sua nave espacial. Ofereceu-te abrigo, conforto, respeito, admiração, amor, carinho, amizade, devoção, compreensão, e um sorriso no coração. Olhou-te nos olhos, inclinou a cabeça, e disse-te, ao ouvido:
- Os amores risíveis chegaram ao fim, K. Não mais precisarás de sonhar com as nuvens. Eu sou a tua nuvem. Para sempre.

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