sexta-feira, dezembro 22, 2006

Meu amor, era de noite

O acto sexual.
O desejo.
Domingo.
A vontade levada ao extremo da tensão.
Masturbação.
Quis ter-te, não pude. Quis vir-me. Não pude.
Casa de banho ocupada.
Risco.
Prazer irreprimível.
Na cama a revolver-me.
A imaginar-te.
E...
Fotografia - Fode-me!
Geraste em mim a loucura do desejo.
«Quero possuir-te!», gritei. «Varrer o teu corpo com o meu sémen!»
Pediste-mo.
Fi-lo dentro de mim e senti-te.
Suei.
Arfei.
Nos lençóis.
Sim, dei-me prazer até à barreira do orgasmo que queria ter tido...
Mas que não pude ter.
Era de noite.
Mas as luzes estavam acessas.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

«Primeiro» voo

E o pássaro recolheu as asas. Para, num gesto decidido mas vagaroso, se lançar, voando, para os céus da decisão. Sentia-se, finalmente – e esta palavra adquiria, então, um significado e um valor inelutáveis – livre, desprendido de amarras outrora impeditivas de um voo puramente instintivo, animal. Agora sim, era um pássaro. E as penas que o revestiam adquiriam, com o voo, novas e diversas tonalidades; desde o verde ao escarlate, passando pelo amarelo-alaranjado; uma verdadeira e notável matiz de cores jamais inimagináveis para aquele pássaro. Era curioso perceber que, sem nada que o explicasse ou consubstanciasse, tudo lhe parecia, de certa forma – e sem o exprimir objectivamente –, «diferente». Como na primeira vez, na descoberta ímpar; o primeiro voo. Com uma diferença, apenas: não era a primeira vez. Embora não fosse um pássaro velho ou acabado, de penas gastas, era um animal com um digno nível de vivência. Ainda assim, tudo se revestia de uma pureza e de uma sublimidade inconcebíveis para ele – justamente ele!
E, de súbito, tudo ganhava uma nova vida; o azul do céu ficava mais real e diáfano; as árvores mais entroncadas, robustas; a vegetação mais densa e viva; os riachos de água mais reluzentes e límpidos. Parecia um sonho; mas um sonho vivido em êxtase, em comunhão - como se a visão nova partisse, justamente, do seu interior; da sua própria percepção. Consequentemente, algo a toldara, anteriormente.
Nunca mais. Respirava esse novo ar. Um ar novo para ele, contudo, o mesmo de sempre. Como uma catarse invisível, imperceptível. Sem explicação. Sem perguntas. Sem nada mais. Apenas ele.
Ele, e o seu primeiro voo.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Elogio a Ti

Quis mostrar-te,
Através da metáfora do chocolate quebrado
Que somos o caminho e não o que fomos.
Somos tudo porque o caminho é nosso
Desbravado entre o presente e o amanhã
É nosso e não do passado que se fez memória
Crescemos ao longo desse trajecto
Comprido, curto, recto, curvo, bom ou mau
O carácter é aquele que vê, que sente, que aprende
Não o que evita os erros, o que só pensa com clarividência
É o que arrisca, o que assume, o que deseja
Somos fruto dessas experiências, que nos moldam
E é a partir delas que revelamos, mais ou menos,
O ser estéril e amorfo, inodoro e desenxabido
O que evita por medo, recua por receio, teme por cobardia
Se vinte e muitos anos nos fazem assim
E um ou dois, ou os que forem, nos fizessem
De outra forma
A culpa seria nossa, mais do que do caminho
Só nossa
As decisões tomadas por nós, indiferentes do passado
Ele está lá, e existe, serve-nos de guia
De diário
Sem melancolias
Sem vergonhas
Fez-nos como somos, ímpares, unos e grandes
Amados
Simbiontes
Deu-nos a Luz que trazemos cá dentro
Que alumia duas vezes porque segue na dianteira
Da coragem e da galhardia
De um sofrimento sem apatia
Porque se mudássemos o que somos
De que serviria o passado?
De consolo? ou de exemplo?
O exemplo somos nós, e é-o o hoje
Todos os dias
No fruto do caminho, esse que nos fez
E que se é verdadeiro,
Nos guiará doravante, assim
Conscientes, determinados
Sem consolo porque ele não é necessário
Nas nossas vidas.
O teu caminho
Permitiu que olhsse para ti
Que me perdesse em ti e
No espelho das tuas palavras
Fez-me sentir
E dizer-te
Tu
Só tu,
Por seres como és,
És o elogio que eu procuro em mim.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Tributo

É tão bom sentir; capaz de ser percorrido prazerosamente por um frio interior delicioso que nos desperta os sentidos mais inibidos... Aqueles sentidos que, defensivamente, procuramos esconder dos outros; acabando, nós próprios, por esquecê-los. São nossos, cabe-nos, por isso mesmo, preservá-los e alimentá-los.
Os nossos corpos não são de aço; são constituídos pelos sentimentos que abundam em nós. Sentimos tudo; nem sempre o demonstramos – o que difere de o escondermos. Isso sim, é cruel, tenebroso, castigável. Somos uma chama imensa que só fica mais forte e luminosa quando outras se nos juntam, amadas. Porque não tomar tudo isto como um princípio existencial? Não como uma lei, ou uma receita milagrosa; antes como uma dádiva que nos foi concedida. Não fará todo o sentido?
Devemos confiar nos outros e procurar neles a nossa confiança. De que nos serve, unicamente, a confiança em nós próprios? Para vivermos limitados aos horizontes e limites que possuímos? ...Subjugados à nossa vontade, ao pensamento e julgamento apriorísticos?
Porque não oferecer aquilo que temos, sem esperar uma retribuição?
Utopia? Ou generosidade ingénua?
Acredito que seja concretização... sentida e desejada. É tão bom sentir o contacto da mão alheia, meiga, mimada até; olhar nos olhos e ver por dentro – e não por dentro dos olhos que miramos, mas por dentro de nós mesmos. Esse é o sentimento que nos alimenta; consome-nos positivamente e de forma etérea. Torna-nos diáfanos ao entendimento e à percepção dos que nos rodeiam. É a simbiose máxima; a junção das almas no Olimpo. Um momento de perfeição atingível. Tudo depende de nós, da forma como damos aquilo que somos a cada instante, sem julgamento ou crítica. É difícil, ardiloso, imensamente perigoso. Contudo, quiçá, a única maneira de sermos perfeitos. Enquanto seres humanos. Em comunhão.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Manifesto de prata

Para onde vou?
Fará sentido esta pergunta? Indagar-me acerca do meu próprio caminho? Não. Demasiado racional... utópico até.
Eu sei que escrevi um dia, que «o segredo da vida não está na exteriorização dos sentimentos, mas sim na interiorização do pensamento e da crença».
Vivi o suficiente para poder afirmar, neste momento, e de forma categórica, que estava enganado. Não porque tenha deixado de acreditar nas premissas por si; discordo, no entanto, do seu alcance absolutista e obsessivo. Já não sou absolutista. Deixei de lado a obsessão que me toldava a visão, tornando-a turva, indefinida. Reaprendi a andar; começo a sentir os meus próprios pés a moldar o caminho. Sinto-me um artista a pintar com novas cores, vivas, refulgentes.
Agora percebo a incompreensão alheia; concluo, então, que não era eu o incompreendido, mas sim a minha mensagem – aquela que, propositadamente, eu transmitia. O jogo. Contudo, a vida não é um jogo. Não deve ser vivida no tal «limite da incompreensão; na fronteira do seu perigo». De facto, é um perigo fazê-lo! Devemos viver em e pela partilha; da comunhão, da reciprocidade, da dialéctica. Para isso, é imperioso falarmos a mesma língua entre nós, seres humanos. Deixar de lado o elitismo subentendido e implícito de alguns de nós. Vergarmo-nos à nossa condição de promotores e consumidores de emoções; em vez de forçarmos os outros a um entendimento descabido, impessoal, e inatingível. Há que aproveitar o instinto e a intuição. Dotá-los e servirmo-nos deles. Só assim seremos verdadeiros e unos – iguais a nós próprios. É perfeitamente inconcebível criarmos um jogo onde as nossas próprias emoções estejam a ser constantemente condicionadas, interpretadas, e urdidas. Para quê, pergunto eu? Com que finalidade? Perpetuarmos uma existência perfeita, imaculada, mitológica? Acreditarmos, primeira e aprioristicamente, na sua capacidade e exequibilidade?
Unicamente, vivermos enganados, ludibriados pelas emoções que, interiormente, gerimos e alteramos. No fundo, condicionar o outro, qualquer que este seja. Impor limites. Forjar a defesa.
O «eu mundo» já não existe...

terça-feira, dezembro 12, 2006

O sentir do pensar

Gostava de sentir, apenas. De não pensar, não criar nem imaginar; sobretudo de não conjecturar. Para não viver preso. Para não ser senhor de mim mesmo. Agir por puro desejo. Ser movido pela sua razão. Uma razão diferente; não pensada. A razão do discernimento pueril. Nessa medida, ser uma criança na plenitude do ser adulto. Ser levado pelo coração, pelo sentimento que brota a cada instante; por uma explicação dócil e meramente respirável...

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Lembrança

Lembra-me
Que posso tocar-te
Dá-me as asas do teu ser
Leva-me, pleno, até àquela nuvem
Onde escondes o viver
Na noite, envolta em doce ferrugem
Protege-me
Lembra-me que existes.

Lembra-me
Aviva-me a memória a cada passo que conseguimos dar
E a cada segundo que lado a lado tentamos
Dir-te-ei que amo, todos os dias
Porque amarei todas as melodias
Lembra-me
Não posso dizer-to, a cada segundo
Só a cada dia, mesmo que somente através do olhar
Vais entender que o sinto, nesse regaço do ar
Saber quando estou a pedir-te um beijo profundo

Lembra-me
Que ouço no silêncio da madrugada
E fico, imóvel, na sombra que nos viu nascer
Um dia, na bucólica alvorada
A mesma que me fez prometer
«Lembra-te:
De me lembrares todos os dias que me amas...
Sempre em ardentes chamas!»

quarta-feira, dezembro 06, 2006

K-Space

Pegaste no teu carro e iniciaste a marcha. Conduziste durante horas a fio, talvez dias, semanas, ou até anos, sempre em busca daquilo que te faltava: a felicidade; a plenitude do sentimento; a tua cara metade. As curvas da estrada foram as lições na tua vida, o caminho que percorreste até lograres ser quem és, hoje.
Prosseguiste, cega, receosa mas decidida, no teu peculiar desabrochar. Tornaste-te mulher, alcançaste uma beleza interior indizível, e, embora as curvas do caminho te tenham perturbado a condução, mantiveste-te fiel aos princípios que sempre regeram e regerão a tua existência. Admiro-te por isso. Por isso e por tudo o que és, o que sentes, o que fazes, o que dizes. Vivo pelo teu sorriso, para o ver cintilante e sincero, para tocar nos contornos da tua boca e afagar o teu cabelo comprido que me chama.
Durante a tua viagem, um dia, distraída, abusaste na velocidade do teu crescimento e saíste da estrada violentamente. O carro virou várias vezes no ar, rodopiou como um pião maldito, tu adormeceste ainda antes do impacto, e só voltaste a recuperar os sentidos quando foste envolvida por uma imensa poeira esbranquiçada. À tua volta tudo era o «caos»... Supuseste-te, não obstante, no Céu, algures entre as nuvens com que sonhavas todos os dias... Sorriste. Assim que a poeira assentou, vislumbraste um sofá, uma mesa, uma televisão acesa, e uma água que escorria não sabias tu de onde... mas que era tranquilizadora.
Talvez tenha sido tudo propositado, e o teu desejo fosse o de seres, finalmente, carregada até essas mesmas nuvens, acariciada por elas, as mesmas que te proporcionaram sempre o conforto do sonho e da felicidade onírica.
Demoraste alguns minutos a concluir que, apesar da semelhança pensada, aquilo não era o Céu, nem as nuvens, nem um sonho proporcionado pela tua agência de viagens única... Era a realidade nua e crua.
Subitamente, ainda contigo dentro do habitáculo do carro, apareceu um ser diferente, todo de azul, alto, sorriso franqueado, que caminhava em direcção a ti, seguro. Sem que mexesses um músculo, esse ser retirou-te de dentro do carro e levou-te, ao colo, até à sua nave espacial. Ofereceu-te abrigo, conforto, respeito, admiração, amor, carinho, amizade, devoção, compreensão, e um sorriso no coração. Olhou-te nos olhos, inclinou a cabeça, e disse-te, ao ouvido:
- Os amores risíveis chegaram ao fim, K. Não mais precisarás de sonhar com as nuvens. Eu sou a tua nuvem. Para sempre.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Testemunho

«Sam não sabia conhecer as pessoas; era um homem crédulo, desinteressado, demasiado afastado do mundo real e das pessoas em geral. Embora nunca o tenha considerado alguém egocêntrico, ou achasse que só pensava em si mesmo, a sua forma de estar e de viver roçava amiúde algumas das idiossincrasias que normalmente modelam o ser humano egoísta e que vive num mundo próprio onde ninguém entra. Sam era, assim, alguém iminentemente estranho e reservado, que alternava o bom humor e a disponibilidade com o mau génio de um predestinado. Ele sabia que o era, que nascera com aquela centelha de virtuosismo que só os grandes possuem ou alcançam; estava talhado para grandes voos, descobertas incomensuráveis, e o seu nome talvez merecesse ficar na história, não como o homem que abriu caminho para algo, mas como aquele que o logrou e que lá chegou, efectivamente. Sempre fora esse o seu desejo mais irreprimível: não ficar a meio; não morrer na praia; Sam temia que fosse outra pessoa, anos mais tarde, a ser reconhecida por aquilo que só ele lograra imaginar e realizar, anos antes.
Mesmo quando comecei a conviver com ele quase diariamente – exceptuando as alturas em que ele não abandonava o laboratório ou a própria cave –, demorei alguns anos a aperceber-me da dimensão absurda e irreal do seu estudo – e do empreendimento em si. Claro que nunca lhe perguntava nada em concreto, pelo que sempre evitei penetrar num mundo para mim tão denso e incompreensível como o da investigação, no entanto, e ocasionalmente, Sam deixava escapar uma ou outra frase ou comentário, eu ouvia uma conversa ao telefone, lia partes dos seus organizados dossiers, e fui assim tendo algum contacto com a sua realidade; aquilo que ele escondia de mim, e do resto do mundo, na verdade. Exceptuando estes acontecimentos esporádicos, nenhum outro contacto tive. Durante largo tempo do nosso casamento, cheguei mesmo a parar para pensar mais aprofundadamente sobre o assunto. Afinal, o que faz o meu marido?»
in «Reinventar a memória» (excerto do Capítulo 5, Parte I)

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Porque quando sentimos, vivemos

Somos porque pensamos
Queremos porque temos
Sentimos porque vemos
Damos porque criamos

Sei quando conheço
Percebo quando entendo
Encontro quando procuro
Suspiro quando respiro

Vê, sentimos ardor
Toca, sentimos arrepio
Beija, sentimos frio
Tu e eu, sentimos fulgor

Porque vivemos juntos
Quando estamos separados
Sentimos, vivemos, desejamos
O nosso amor, tu e eu.

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