quarta-feira, novembro 15, 2006

Prazeres

«Voltei a acordar certo tempo depois. Quanto tempo depois, não sei. Pavlovna já lá não estava. Dela apenas restava um pequeno pedaço de papel pousado sobre a sua travesseira. Dizia: «Resolvi fazer aquilo que me pediste; falarei com o meu chefe. Dir-te-ei o que conseguir – ou não – assim que puder. Mas não mais nos veremos, Simon. Trazes Nina entranhada nos teus ossos. Liberta-te dela, e procura-me, se o desejares. Tua, Pavlovna.»
Esbocei um meio sorriso de contentamento, embora aquele passado recente vivido com Pavlovna fosse, para mim, um buraco repleto de esquecimentos e omissões. O que acontecera, eu não sabia, nem sequer imaginava, no entanto, mais importante do que tudo o resto, era a certeza de que Pavlovna intercederia a meu favor. Isso encheu-me de alegria e esperança. Voltei a acreditar no futuro que me aguardava, algures.
Foi assim que, ao longo de dois dias inteiros, não saí de casa nem fiz outra coisa que não fosse esperar por notícias de Pavlovna. Cheguei, inclusive, a desejar estar com ela, abraçá-la de novo, tê-la perto de mim. Ainda assim, eram pensamentos e necessidades esporádicas e passageiras, pois logo voltava a esquecê-la enquanto mulher e tudo o que eu pretendia dela era a resolução proveitosa do imbróglio onde eu me metera.
Esse tempo que mediou a última noite com Pavlovna e a notícia que ela ficara de me transmitir, foi tudo menos pacífico. Apesar de não ter saído de casa, de ter reduzido a minha actividade a um mínimo indispensável de gestos e movimentos, e de ter procurado esquecer o episódio «Nina», algo se abateu sobre mim, inexplicavelmente. Sobre mim, dentro do meu quarto. Tudo o que eu fazia, naquele mesmo espaço, produzia eco. Um eco ensurdecedor, melancólico, que abafava no interior dos meus ouvidos e me deixava com a respiração entrecortada, quase ofegante. Era um processo estranho, lá permanecer, assim; saber, de antemão, o que aconteceria ao meu corpo indefeso. Mesmo assim, e perante essa certeza, eu não saía, temerário, quase inconsciente. Seria tal e qual: a realidade enfrentada com uma galhardia surda, oca, desprovida de heroísmo e recheada de requebros. Uma realidade quase infantil. Um tempo de espera e crescimento. A sobreposição de dois tempos vividos. Numa palavra, o espectro de Nina.

Que significavam as mulheres na minha vida? Qual a importância de cada uma, e por que razão deixei de ser capaz de amar alguém?
Nina morreu. Com a sua morte, pereceu, igualmente, uma parte de mim: aquela com a capacidade de amar. Talvez fosse essa a explicação para a minha incapacidade latente; eu amava através de Nina. Ela era não só o objecto do meu amor como o seu próprio veículo. Nina era o bode expiatório: a reflexão de um sentimento que eu jamais sentira por alguém. Nascera para odiar, somente. E com essa mesma força, amei. Amei Nina. Odiei-me na mesma proporção. Odeio o meu ser, a minha idiossincrasia. Odeio a depravação, mas sou incapaz de lhe fazer frente, de resistir ao seu chamamento. Raios! Quero mulheres e álcool para não me lembrar que existo, que cheiro mal…
Nina.
Lembrei-me de Urbénin quando ele disse ao conde e a Serguei Petróvitch que «os prazeres da depravação não valem a centésima parte do que dá uma vida calma de família». Será que agora, sem família, tenho que contentar-me com os prazeres da depravação?»
(excerto do capítulo «Rússia», in Confissão)

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