Viagem
«Entrei no primeiro táxi que me apareceu à frente. Devo alertar o leitor para o significado da palavra taxi. Pois bem, por taxi não quero que pense num automóvel pintado de uma cor característica, capaz de percorrer grandes distâncias em pouco tempo. Na China, os taxis são movidos ao pedal. Nem mais, leu muito bem, o taxi que eu encontrei (e não se pense que, lá por ter entrado no primeiro, não procurei por um que fosse movido a gasolina...) tinha uma casotita atrás de uma bicicleta, e era puxado por um louco de um chinês. Nunca antes tinha sentido tanto cagaço na minha vida! O raio do homem acelerou a fundo mal eu me sentei num banco que parecia de madeira, quase provocando um acidente ali mesmo. Ainda assim, e depois de uns tantos palavrões que chamei à sua mãe, o anormal continuou a viagem num ritmo diabólico. Só mais tarde me apercebi que talvez estivesse a pressentir o que viria a suceder e tivesse encetado uma derradeira tentativa de viver a vida toda de uma só vez. Mas, vamos por partes. Por mais estúpido que possa parecer, somente uns minutos mais tarde, já nós tínhamos evitado por um triz meia dúzia de acidentes mortais, é que tive oportunidade para lhe indicar o destino pretendido. Abafada por aquele chinfrim ensurdecedor que são as ruas de qualquer cidade chinesa, a minha voz teve dificuldade em ser ouvida pelo condutor, embora tenha achado, na altura, que era a barreira da língua que retardava a reacção dele.
- Water – disse eu. – I want to see some water. Ocean, I mean – acrescentei.
Respondeu-me como se estivesse bêbado. Resolvi fazer alguns gestos, enquanto lhe dizia novamente o que pretendia.
- Sand. Sun. Got it? – E fingia estar a apanhar sol, ou a nadar no mar.
Nesse instante, em que os meus olhos se fecharam um segundo, deleitosos, o anormal do chinês deve ter achado muita piada à minha momice, pelo que se demorou a contemplá-la, enquanto soltava uma gargalhada entrecortada. Voltado para trás, o burro esqueceu-se que estava a conduzir um taxi algures no fim do mundo, em ruas que não tinham nem sinais nem regras. Só me apercebi da gravidade da situação, quando o ouvi pronunciar um seco «uhh!», ao mesmo tempo que sentia o ruído desesperado dos pneus de um automóvel que vinha em sentido contrário ao nosso. Voltei a fechar os olhos, desta vez de pânico, e esperei pelo pior. Não rezei. De entre todo o azar que tivera ao escolher aquele taxista desvairado, acertei igualmente naquele que teria, provavelmente, a perícia mais apurada. Ignoro por completo a forma que ele utilizou para se desenvencilhar da morte que o esperava (ou devo dizer, que «nos» esperava?), mas o que é certo é que conseguiu mesmo. Sem nunca se ter servido dos travões da bicicleta em forma de taxi, senti a velocidade a aumentar ainda mais, e uma súbita guinada para a esquerda. Durante alguns segundos pensei ter perdido a materialidade. «Será que é um sinal do outro mundo, pensei. Voamos?» Que voamos, qual quê! No instante seguinte, uma força esmagou-me contra o centro da terra, aniquilando qualquer teoria teológica daquilo que nos espera do outro lado. A bicicleta voltou a pousar sobre as três rodas (talvez lhe devesse chamar, por conseguinte, um triciclo), e nós regressámos, incrédulos, à nossa peculiar viagem. Lembro-me que nem consegui pronunciar o mais anódino dos palavrões. A minha boca estava seca de adrenalina. Deixei que escoassem dois ou três minutos, o palerma reduziu a velocidade, e tudo acalmou.
- Go? – perguntou ele. – Go where?
Sorri, perante aquele taxista louco mas poliglota.
- Beach – respondi prontamente.
- Beech?
- B-e-a-c-h! – reforcei. – Beach, bitch!
- Okay! Okay!
Meneei a cabeça e recostei-me no acento de pau. O que eu queria era descansar.»
(excerto do capítulo «Paris», in Confissão)

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