Traição?
«Uma hora depois, conforme o combinado, introduzi a chave na ranhura do quarto «212» e chamei por ela.
- Entra – respondeu-me, numa voz abafada.
Brigitte estava nervosamente sentada num sofá de veludo preto, visivelmente coçado nos braços, a fumar com sofreguidão. Quando eu entrei, e a vi pela primeira vez, julguei que estava a olhar para uma outra mulher, não para a Brigitte que eu tinha conhecido ao longo daquela semana. Acendeu um novo cigarro no anterior e continuou a expelir nuvens de fumo para o tecto, como se a sua vida dependesse disso mesmo.
- Senta-te – proferiu, num suspiro.
- Mas afinal o que é que se passa? – Começava, eu próprio, a impacientar-me.
- Eles descobriram, Sean. Sabem de nós. Desculpa. – Levou a mão à cara e escondeu-a, ligeiramente. As espirais do fumo que saíam do cigarro confundiam-se com o seu cabelo.
- Eles quem? Descobriram o quê? – E sem parar para que ela respondesse, acrescentei. – Nós, como assim, «nós»? Por que razão me pedes desculpa, Brigitte? – Deveria ter-lhe feito cada uma daquelas perguntas separadamente, mas o meu estado de espírito já não me permitia grande lucidez.
- Eu não quis que fosse assim. Quero que saibas que não quis, percebes? – Os seus olhos estavam rasos de lágrimas, vermelhos; fumava sem parar, soltando o fumo pela boca e pelo nariz, automaticamente.
- Não, Brigitte, não percebo nada. O que é que não era para ser assim?
Ouvi a sua respiração, dificultada pelos soluços que irromperam pela sua garganta, subitamente. Fui até ao sofá e aninhei-me junto dela. Passei a mão pelo seu cabelo. Peguei no cigarro e esborrachei-o no cinzeiro.
- Conta-me tudo – pedi-lhe.
Desde que falei, até que Brigitte principiou ela própria a falar, decorreram alguns segundos que pareceram demorar uma eternidade. Tínhamos os rostos extremamente próximos um do outro, tanto que dava para sentir o odor do tabaco que ela exalava ao respirar.
- Ias amanhã embora, não ias? – iniciou ela, laconicamente.
- Já não vou, Brigitte? – contrapus. – Estás a tentar dizer-me alguma coisa?
- Ah, Sean, se fosse por nós que tu amanhã não pudesses partir... – E voltou a desfazer-se em lágrimas. Naquele momento, estava, de facto, totalmente perdido e atordoado.
- E qual é o motivo? – quis saber.
- «Eles». Nunca mais serás livre...
Assustei-me com as palavras dela. Embora quem não deva não tenha nada a temer, ouvir o que ela acabara de dizer, a frio, não era agradável, nem augurava nada de bom. Para não falar do seu estado.
- Não sou uma mera cantora, Sean – retomou. Não reagi. – Trabalho para uma organização internacional que coopera com o bloco aliado... a «Allied Intelligence Services» – adiantou, num sussurro, como se pretendesse abafar o nome da organização. Tinha lágrimas no rosto. – De certa forma, podes mesmo chamar-me uma espia, embora esse não seja o meu «trabalho» – continuou, lavada em lágrimas. – Acabo por desempenhar papeis para que «outros» possam actuar, depois de mim. Entendes?
Não tinha entendido.
- Trabalhas para uma organização aliada – principiei, mecanicamente. – Não és cantora, mas uma espécie de espia que não é bem uma espia. – Cruzámos os olhares. O dela era de súplica. Sabia que eu não estava a cair no conto do vigário. – E o que é que eu tenho a ver com isso, Brigitte? Onde raio é que eu me encaixo nessa história toda? – Devo ter soado rude e zangado, uma vez que os olhos dela recuaram imediatamente. Encolheu os ombros e resfolegou.
- Tudo o que acabaste de dizer é verdade, Sean. Só que eu não sabia que «tu» eras parte da missão que me fora destinada aqui em Saint Tropez! Fiz aquilo que me mandaram; fingi ser uma cantora.... O meu papel foi esse.
- E depois só tinhas que falar aqui com o otário, não era? Pô-lo pelo beicinho...
Levantei-me e comecei a vaguear pelo quarto. Àquele ponto da conversa, ambos estávamos vencidos pelas circunstâncias. Eu dava sinais de ter acreditado em tudo o que ela me contara, apesar das tentativas infrutíferas de passar uma mensagem contrária; ela esforçava-se para que eu acreditasse realmente em tudo.
- E eu, Brigitte? Dizes-me que amanhã não vou seguir viagem. – Fiz uma pequena pausa para a encarar. – Que diabo de missão era essa que me tinha «a mim» como alvo? Vão matar-me?! – gritei.
Abanou freneticamente com a cabeça. Subitamente, disse.
- Serás recrutado.
Todo o meu raciocínio fragmentara, em definitivo. Esperava ouvir mais depressa que a minha vida estava por horas, por minutos até, mas não contava ouvir as palavras que saíram da sua boca.
- Recrutado?! Ouvi bem? – Dei alguns passos na sua direcção. – E quem é que te disse, ou lhes disse a «eles», que eu queria ser «recrutado»? – perguntei, sarcástico.
- São eles que decidem, Sean. Por razões que só eles conhecem, escolheram-te a ti. Se queres aceitar ou não, não é problema deles. – Engoliu em seco. – Não é uma opção, entendes? Ou aceitas o que eles querem... ou... – interrompeu-se. Fitei-a, demoradamente. Ela desviou o olhar. – Eles matam-te, Sean! Simplesmente eliminam quem renuncia a eles depois de ter sido escolhido...!
Fui incapaz de responder. No fundo, talvez todo aquele discurso inflamado fosse uma forma de ela me preparar para o que se avizinhava. Custava a acreditar que uma organização a trabalhar para o bloco aliado fosse capaz de «matar» uma pessoa perfeitamente inocente só porque esta se recusara a entrar para a dita organização. Brigitte prosseguiu na sua tentativa de alerta.
- Dentro de minutos, entrarão por aquela porta e levar-te-ão. O resto, é contigo. A decisão é tua, Sean. – Falava como se tivesse um peso descomunal sobre o corpo.
- Traíste-me – deixei escapar, num fio de voz. Ouvi uma chave a ser introduzida na porta. Vozes no exterior falavam umas com as outras. – Confiei em ti...
Quando acabei de proferir as últimas palavras, quatro homens elegantemente vestidos entraram pelo quarto dentro. Nenhum deles abriu a boca. Brigitte limitou-se a recomeçar a chorar, silenciosamente. Dois deles agarraram-me, pelos ombros, e conduziram-me para fora do quarto. Ao passar a ombreira da porta, ouvi a voz de Brigitte.
- «É assim que deves proceder se me queres possuir...» – declamou ela.
Cerrei os maxilares de raiva e fechei os punhos em gesto de guerra.
- «Longa é a noite que vê jamais dealbar a madrugada» – respondi-lhe.
Nunca mais voltei a ver Brigitte.»
in «Mocba» (excerto do Capítulo 1)
- Entra – respondeu-me, numa voz abafada.
Brigitte estava nervosamente sentada num sofá de veludo preto, visivelmente coçado nos braços, a fumar com sofreguidão. Quando eu entrei, e a vi pela primeira vez, julguei que estava a olhar para uma outra mulher, não para a Brigitte que eu tinha conhecido ao longo daquela semana. Acendeu um novo cigarro no anterior e continuou a expelir nuvens de fumo para o tecto, como se a sua vida dependesse disso mesmo.
- Senta-te – proferiu, num suspiro.
- Mas afinal o que é que se passa? – Começava, eu próprio, a impacientar-me.
- Eles descobriram, Sean. Sabem de nós. Desculpa. – Levou a mão à cara e escondeu-a, ligeiramente. As espirais do fumo que saíam do cigarro confundiam-se com o seu cabelo.
- Eles quem? Descobriram o quê? – E sem parar para que ela respondesse, acrescentei. – Nós, como assim, «nós»? Por que razão me pedes desculpa, Brigitte? – Deveria ter-lhe feito cada uma daquelas perguntas separadamente, mas o meu estado de espírito já não me permitia grande lucidez.
- Eu não quis que fosse assim. Quero que saibas que não quis, percebes? – Os seus olhos estavam rasos de lágrimas, vermelhos; fumava sem parar, soltando o fumo pela boca e pelo nariz, automaticamente.
- Não, Brigitte, não percebo nada. O que é que não era para ser assim?
Ouvi a sua respiração, dificultada pelos soluços que irromperam pela sua garganta, subitamente. Fui até ao sofá e aninhei-me junto dela. Passei a mão pelo seu cabelo. Peguei no cigarro e esborrachei-o no cinzeiro.
- Conta-me tudo – pedi-lhe.
Desde que falei, até que Brigitte principiou ela própria a falar, decorreram alguns segundos que pareceram demorar uma eternidade. Tínhamos os rostos extremamente próximos um do outro, tanto que dava para sentir o odor do tabaco que ela exalava ao respirar.
- Ias amanhã embora, não ias? – iniciou ela, laconicamente.
- Já não vou, Brigitte? – contrapus. – Estás a tentar dizer-me alguma coisa?
- Ah, Sean, se fosse por nós que tu amanhã não pudesses partir... – E voltou a desfazer-se em lágrimas. Naquele momento, estava, de facto, totalmente perdido e atordoado.
- E qual é o motivo? – quis saber.
- «Eles». Nunca mais serás livre...
Assustei-me com as palavras dela. Embora quem não deva não tenha nada a temer, ouvir o que ela acabara de dizer, a frio, não era agradável, nem augurava nada de bom. Para não falar do seu estado.
- Não sou uma mera cantora, Sean – retomou. Não reagi. – Trabalho para uma organização internacional que coopera com o bloco aliado... a «Allied Intelligence Services» – adiantou, num sussurro, como se pretendesse abafar o nome da organização. Tinha lágrimas no rosto. – De certa forma, podes mesmo chamar-me uma espia, embora esse não seja o meu «trabalho» – continuou, lavada em lágrimas. – Acabo por desempenhar papeis para que «outros» possam actuar, depois de mim. Entendes?
Não tinha entendido.
- Trabalhas para uma organização aliada – principiei, mecanicamente. – Não és cantora, mas uma espécie de espia que não é bem uma espia. – Cruzámos os olhares. O dela era de súplica. Sabia que eu não estava a cair no conto do vigário. – E o que é que eu tenho a ver com isso, Brigitte? Onde raio é que eu me encaixo nessa história toda? – Devo ter soado rude e zangado, uma vez que os olhos dela recuaram imediatamente. Encolheu os ombros e resfolegou.
- Tudo o que acabaste de dizer é verdade, Sean. Só que eu não sabia que «tu» eras parte da missão que me fora destinada aqui em Saint Tropez! Fiz aquilo que me mandaram; fingi ser uma cantora.... O meu papel foi esse.
- E depois só tinhas que falar aqui com o otário, não era? Pô-lo pelo beicinho...
Levantei-me e comecei a vaguear pelo quarto. Àquele ponto da conversa, ambos estávamos vencidos pelas circunstâncias. Eu dava sinais de ter acreditado em tudo o que ela me contara, apesar das tentativas infrutíferas de passar uma mensagem contrária; ela esforçava-se para que eu acreditasse realmente em tudo.
- E eu, Brigitte? Dizes-me que amanhã não vou seguir viagem. – Fiz uma pequena pausa para a encarar. – Que diabo de missão era essa que me tinha «a mim» como alvo? Vão matar-me?! – gritei.
Abanou freneticamente com a cabeça. Subitamente, disse.
- Serás recrutado.
Todo o meu raciocínio fragmentara, em definitivo. Esperava ouvir mais depressa que a minha vida estava por horas, por minutos até, mas não contava ouvir as palavras que saíram da sua boca.
- Recrutado?! Ouvi bem? – Dei alguns passos na sua direcção. – E quem é que te disse, ou lhes disse a «eles», que eu queria ser «recrutado»? – perguntei, sarcástico.
- São eles que decidem, Sean. Por razões que só eles conhecem, escolheram-te a ti. Se queres aceitar ou não, não é problema deles. – Engoliu em seco. – Não é uma opção, entendes? Ou aceitas o que eles querem... ou... – interrompeu-se. Fitei-a, demoradamente. Ela desviou o olhar. – Eles matam-te, Sean! Simplesmente eliminam quem renuncia a eles depois de ter sido escolhido...!
Fui incapaz de responder. No fundo, talvez todo aquele discurso inflamado fosse uma forma de ela me preparar para o que se avizinhava. Custava a acreditar que uma organização a trabalhar para o bloco aliado fosse capaz de «matar» uma pessoa perfeitamente inocente só porque esta se recusara a entrar para a dita organização. Brigitte prosseguiu na sua tentativa de alerta.
- Dentro de minutos, entrarão por aquela porta e levar-te-ão. O resto, é contigo. A decisão é tua, Sean. – Falava como se tivesse um peso descomunal sobre o corpo.
- Traíste-me – deixei escapar, num fio de voz. Ouvi uma chave a ser introduzida na porta. Vozes no exterior falavam umas com as outras. – Confiei em ti...
Quando acabei de proferir as últimas palavras, quatro homens elegantemente vestidos entraram pelo quarto dentro. Nenhum deles abriu a boca. Brigitte limitou-se a recomeçar a chorar, silenciosamente. Dois deles agarraram-me, pelos ombros, e conduziram-me para fora do quarto. Ao passar a ombreira da porta, ouvi a voz de Brigitte.
- «É assim que deves proceder se me queres possuir...» – declamou ela.
Cerrei os maxilares de raiva e fechei os punhos em gesto de guerra.
- «Longa é a noite que vê jamais dealbar a madrugada» – respondi-lhe.
Nunca mais voltei a ver Brigitte.»
in «Mocba» (excerto do Capítulo 1)

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