Sobrevivência
«Logo que Carol fechou a porta do quarto, pus-me a pensar na conversa que tivéramos. Imaginei que não seria nada fácil, para mim, continuar a fazer-me passar por Billy Murray, mesmo sabendo que Carol engolira o meu logro e caíra no engodo sem pestanejar. Assim que estendi o corpo no sofá, comecei a sentir uma torrente de imagens a vaguearem pelo meu cérebro. Depois disso, como ferro em brasa, cravou-se na minha mente uma única imagem: uma imagem que, desde então, nunca mais me largou. Passei a viver com ela dentro de mim, de certa forma condicionado pela sua pujança inelutável, procurando a cada segundo da minha existência suster à sua sobrevivência. «No fim de contas, só conseguimos impedir a nossa respiração por um determinado período de tempo. Mais tarde ou mais cedo, chega um momento em que temos de começar a respirar de novo – mesmo que o ar esteja contaminado, mesmo sabendo que esse ar acabará por matar-nos.» Esse fenómeno da respiração não mais me abandonou. Todos os acontecimentos que se seguiram, na minha vida, tiveram-no ao mesmo tempo como causa e como consequência; como numa circunferência, eu não sabia onde começava o quê, o que é que desembocava onde, ou por que motivo. Deixei de saber que passado era verdadeiramente só meu e até que ponto o futuro que eu começava a construir não era alicerçado nesses terrenos ambíguos que significavam a minha vida – até àquele momento particular. No entanto, e por curioso que possa parecer, tudo isso deixou de ter a relevância que seria de esperar. Se bem que tivesse chegado até à casa de Carol Alster, naquele dia, conduzido por um misto de acasos e de intenções, subitamente, todas essas contingências deixaram de me condicionar como antes. A minha decisão era clara. Sensivelmente a meio da minha vida, decidira recomeçar tudo de novo. Como dizia Daniel de Superville, «sonhar é esquecer a materialidade do nosso corpo, e confundir, até certo ponto, o mundo exterior e o mundo interior.» Esse fora o meu grande desígnio.»
in «Reinventar a memória» (excerto do Capítulo 1, Parte II)

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