sexta-feira, novembro 03, 2006

Sentidos

«Quando cheguei ao átrio de entrada do prédio, depois de descer lentamente as escadas, a porta de entrada acabava de se fechar. Transpu-la e vi uma senhora baixa, de cabelo grisalho, a descer a última escada do pequeno lanço exterior, segurando um guarda-chuva. Fiquei, à chuva, alguns segundos a olhar em meu redor, findos os quais me encaminhei para o Morris. James não aparecia; há mais de uma hora. Começava a temer algum «acontecimento» sério. Olhei para dentro do seu carro, mas não detectei nenhuma anomalia. Nada mais havia a fazer, que não fosse esperar. Ansiosamente. Conduzi, molhado, apático e pensativo, por detrás da agitação frenética dos limpa-pára brisas. Eram movimentos estonteantes. Imaginei dois dedos gigantes, independentes, em sucessivos movimentos de negação. Involuntariamente, dei comigo a pensar em Caroline e em James; cada um deles com o seu dedo indicador gigante a abanar energicamente; dois limpa-pára brisas a sacudir a água que caía diante dos meus olhos, permitindo-me a visão, o alcance. Pensei na água e nas suas pequenas gotículas como pequenos obstáculos à verdade que eu procurava. Metaforicamente, eram eles os dois que, neste momento, desimpediam o caminho que se desenrolava à minha frente. Com uma grande e, até ver, assustadora diferença: eu sabia aonde estava Caroline. E que nesse «aonde», estava bem. Uma vez em casa, senti um ambiente frio, quase gélido. Não sei se interior, se exterior. A roupa colara-se ao meu corpo, dificultando-me a acção. Tudo o que eu fazia, e que provocasse algum ruído, parecia ser reproduzido mecanicamente pelo eco, como um alarme sincronizado. Telefonei para casa de James, mas, como eu temia, ninguém atendeu. Decidi tomar um banho quente e relaxante. Vesti-me novamente e voltei a sair. Ignoro o tempo que demorei dentro de casa, entre deambulações interiores, o banho, o vaguear, mas, quando saí para a rua, havia escurecido e deixara de chover. Sentia-se um cheiro invernoso, abafado, característico desta época de tempo instável. Entrei no Morris e conduzi sem destino. Não me lembro de ter pensado em algum acontecimento específico; não me lembro de ter perscrutado a estrada que o meu carro percorria indistintamente. Parei junto de uma cabina telefónica e fiz um telefonema rápido para uma pessoa em «Newcastle». Voltei ao carro e conduzi até «Shad Thames». Estacionei e entrei no «Dungeon». Sentei-me numa mesa junto das enormes vidraças que se estendem paralelamente ao Tamisa. Bem perto dali, sobre a minha esquerda, a esplendorosa e vitoriana Tower Bridge. Fitei-a prolongadamente. É um magistral «monumento» – quase tão famoso como o Big Ben – da cidade de Londres que evoca os tempos em que a Inglaterra era uma potência marítima poderosa. Nesses tempos, longínquos, a navegação ao longo do Tamisa era intensa e as pontes levadiças erguiam-se para deixar passar os navios. As duas torres neogóticas dissimulavam a maquinaria hidráulica, complexa, utilizada para mover os dois tabuleiros basculantes. De novo, o meu espírito sobressaltou-me com um pensamento ominoso e arrepiante: as torres representavam Caroline e James; um de cada lado, impotentes, imóveis, expectantes. Senti que as torres que sustentavam um «único» tabuleiro se afastavam lentamente. Penosamente. Dolorosamente. Se eu tivesse que alcançá-las, apenas conseguiria alcançar uma delas: ou James ou Caroline. «Apenas um». A iluminação artificial da noite, proveniente das luzes, encobria muita da beleza daquele espaço particular da cidade. Sem a ajuda da lua, tudo parecia mais afastado de mim, mais surreal, impalpável, como se tudo em meu redor estivesse prestes a desaparecer com a ajuda de uma bruma que estendia os seus tentáculos sobre essa mesma realidade, dissimulada. Passei, igualmente, bastante tempo a observar distraidamente as pessoas do «Dungeon». Sentavam-se, falavam, sorriam, degustavam, bebericavam, gesticulavam, moviam-se, levantavam-se, saíam. Sempre impassíveis com o mundo que as rodeava. Despreocupados, inclusive, com tudo aquilo que se passava nas suas vidas, e que estivesse para lá daquelas paredes. O que ali estava diante de mim não eram pessoas com a sua vida; eram segmentos estanques das suas próprias vidas. Vidas partidas, apátridas, desconexas. Quando a garrafa de vinho verteu a última gota de um líquido vermelho espesso para o copo, traguei-o de uma só vez e saí sem olhar para ninguém. Aquele ambiente superficial, fingido e fumacento, inquietava-me.
"As pessoas assumem a felicidade".»
in «Verdades» (excerto do capítulo IV, III Parte)

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