quinta-feira, novembro 23, 2006

Odores únicos

Destapo. Aponto. Vaporizo levemente sobre o pescoço nu. Uma suave fragrância envolve o ar que me cerca. Esse efeito desperta os meus sentidos mais profundos: aqueles que não consigo controlar.
É um bálsamo poderoso, algo meramente impulsivo. Bem como as minhas emoções; as minhas relações: as mulheres da minha vida. Todas elas foram «a mulher da minha vida», curiosamente. Não sei se feliz ou infelizmente, nenhuma falhou em sobrepor-se à anterior. Todas alcançaram essa dura, implacável, e injusta condição: a superação.
É que, por mais paradoxal que possa parecer, essa superação não depende das mulheres «per si», antes, e fundamentalmente, da percepção que eu próprio tenho delas – de cada uma, agora sim, «per si». É essa percepção, ou melhor, o julgamento último dessa percepção, que me perturba: fruto do bálsamo que penetra inopinadamente o meu ser mais desprotegido.
Todos os meus perfumes, aqueles que usei ao longo de todos estes anos, os mais diversos, todos representam uma mulher em particular. O odor, a doçura, o sabor implícito, a textura da pele envolta pela maciez dos pequenos respingos, tudo isso me recorda com ardor as mulheres da minha vida. Um ardor que abusivamente invade o meu espaço, o invólucro que supostamente me deveria proteger, como um escudo, das emoções e dos sentimentos do passado. Aqueles que eu já não sinto, se não por força de uma qualquer fragrância invasora. Isto, mesmo quando cada mulher superou a anterior. É doloroso.
Olho todos os frascos passados, inutilizados, dispostos em longas fileiras diante dos meus olhos. Conto cada um. Somo os iguais. Meço os líquidos que restam. Relembro cada uma. Sorrio, indistintamente. De imediato, uma nostalgia desavinda corrói a minha alma saudosista, perene. Isto, mesmo quando cada mulher superou a anterior. É impiedoso.
Logo procuro reagir; positivar a relação que me une a essas recordações que me queimam lentamente. Sofro por um odor que partiu para sempre. Um odor que outrora era meu, e que agora me mata inapelavelmente, sem recear a minha revolta.
Os perfumes simbolizam as mulheres; aquelas que tive e que, momentaneamente, significaram a minha vida, a minha existência condicionada. Condicionada pelos odores do passado. Por todos aqueles que partiram do meu corpo, levando consigo uma parte substancial do meu ser. Soçobro a cada partida. Mesmo sabendo que a chegada do próximo odor me restabelecerá por inteiro: isto porque cada mulher supera a anterior. No entanto, rebeldes, levam consigo algo só meu: o «meu» odor. Aquele que só ao meu passado diz respeito. O odor que partiu com as mulheres da minha vida.
Fixo o fundo de alguns perfumes inacabados e relembro-me dessas relações, perto de uma possível renovação. Apercebo-me de quão perto estive de comprar um novo frasco, igual ao anterior, o mesmo dessa mulher que dividiu, comigo, o meu espaço interior.
Outros perfumes repetem-se, em sucessivos frascos iguais: símbolo da longevidade, da comunhão, do amor profundo. Nunca reaproveitei um perfume. Nunca os reutilizei. Porque nenhuma mulher da minha vida passada, voltou a sê-lo no futuro desse passado – o presente.
O odor não volta.

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