Estranho ser
«O ser é egotista. Eu sou, não só egotista como egoísta também. São defeitos do meu carácter. Ou qualidades, consoante a perspectiva de análise; como tudo, um pau de dois bicos.
Lembro-me de quando toda esta problemática surgiu na minha vida: Nina tinha morrido há poucos meses, toda a minha existência ruíra por completo, e eu sucumbira perante a última memória que guardava dela. Nesse dia, peguei num livro aleatoriamente, quando, pela primeira vez desde que ela falecera, me decidira a sair de casa. Estava então numa livraria, algures no Bronx, e, por acaso (ou por um acaso do destino, não sei bem), o livro que tinha nas minhas mãos possuía uma estranha força. Chamava-se «Conheça as suas doenças mentais; e seja um bom doente», e essa força oculta da parapsicologia exerceu sobre mim um domínio faiscante e inominável. Dei por mim a folheá-lo, a ler cada uma das linhas que ali estavam escritas como se essas linhas fossem autênticos tratados de demência programada, verdadeiros atestados de incapacidade ou prestidigitação… Está calor, porra! Um calor medonho. São quatro da manhã, é Agosto em Havana, e passei uma noite sem mulheres do meu lado. Quantas vezes é que isto sucedeu nos últimos anos da minha vida? O que é feito da minha vida? Ah, que estúpido que eu sou... A minha vida morreu, estraçalhada, no dia em que Nina desapareceu deste mundo. E o que é que isso tem a ver com o episódio do livro que eu estava a relatar? Estou constantemente a perder-me, os pensamentos que me invadem não param de colidir uns com os outros, e eu não consigo manter o fio da meada até ao fim. É sempre a mesma merda na porra da minha vida. Porra, estou sempre a escrever porra! Eu não era assim... Agora sou um pedaço de... de... um pedaço de... qualquer coisa que não sobrevive se for meramente um pedaço! Sou um pedaço de nada. Desde que li aquele livro. Mas não era desde que Nina falecera? Porr... Pára! Acabaram-se os palavrões; pelo menos os proferidos pela minha boca (aliás, pela minha caneta... ou melhor, porra!, pelo meu lápis, dado que escrevo sempre a lápis; tenho o secreto desejo de que um dia tudo aquilo que eu escrevi durante a desgraçada da minha vida se apague e nunca mais ninguém se lembre sequer do meu nome: Simon. Essa é a explicação que eu dou... e nem sei se é verdadeira ou não. Não faço ideia, nunca pensei no assunto, tão pouco. E chega, por agora, de pensar nele.) O livro... Que calor! Curioso, sempre que começo a falar no livro, vêm-me os calores; pareço uma cinquentona flácida na menopausa. Merda também para os calores! Merda para tudo, excepto para as cinquentonas, embora flácidas... e gordas... e quase sempre feias como o raio. Porra, que se dane. É o que se pode arranjar. Também já não sou grande coisa. Coisa. Coiso… Livro! Preciso de falar no livro: li nele que qualquer pessoa, com algum esforço, se pode transformar num perfeito e irrepreensível doente mental. Não sabia. Eu que pensava que a minha existência era a de um genuíno lunático, demente, louco, acabei por pôr em causa a minha própria condição. Lindo! Imagine-se o que aconteceu a seguir... Havia meses que eu não saía de casa, mortificado pela morte de Nina, e eis que me aparece um livro que põe tudo numa balança de merceeiro. Vacilei. Decidi não voltar a casa. E, embora não tenha cumprido a minha promessa, pelo que voltei mesmo a casa, deixei de me aprisionar nela: libertei-me dos fantasmas que lá residiam. Nina.»
Lembro-me de quando toda esta problemática surgiu na minha vida: Nina tinha morrido há poucos meses, toda a minha existência ruíra por completo, e eu sucumbira perante a última memória que guardava dela. Nesse dia, peguei num livro aleatoriamente, quando, pela primeira vez desde que ela falecera, me decidira a sair de casa. Estava então numa livraria, algures no Bronx, e, por acaso (ou por um acaso do destino, não sei bem), o livro que tinha nas minhas mãos possuía uma estranha força. Chamava-se «Conheça as suas doenças mentais; e seja um bom doente», e essa força oculta da parapsicologia exerceu sobre mim um domínio faiscante e inominável. Dei por mim a folheá-lo, a ler cada uma das linhas que ali estavam escritas como se essas linhas fossem autênticos tratados de demência programada, verdadeiros atestados de incapacidade ou prestidigitação… Está calor, porra! Um calor medonho. São quatro da manhã, é Agosto em Havana, e passei uma noite sem mulheres do meu lado. Quantas vezes é que isto sucedeu nos últimos anos da minha vida? O que é feito da minha vida? Ah, que estúpido que eu sou... A minha vida morreu, estraçalhada, no dia em que Nina desapareceu deste mundo. E o que é que isso tem a ver com o episódio do livro que eu estava a relatar? Estou constantemente a perder-me, os pensamentos que me invadem não param de colidir uns com os outros, e eu não consigo manter o fio da meada até ao fim. É sempre a mesma merda na porra da minha vida. Porra, estou sempre a escrever porra! Eu não era assim... Agora sou um pedaço de... de... um pedaço de... qualquer coisa que não sobrevive se for meramente um pedaço! Sou um pedaço de nada. Desde que li aquele livro. Mas não era desde que Nina falecera? Porr... Pára! Acabaram-se os palavrões; pelo menos os proferidos pela minha boca (aliás, pela minha caneta... ou melhor, porra!, pelo meu lápis, dado que escrevo sempre a lápis; tenho o secreto desejo de que um dia tudo aquilo que eu escrevi durante a desgraçada da minha vida se apague e nunca mais ninguém se lembre sequer do meu nome: Simon. Essa é a explicação que eu dou... e nem sei se é verdadeira ou não. Não faço ideia, nunca pensei no assunto, tão pouco. E chega, por agora, de pensar nele.) O livro... Que calor! Curioso, sempre que começo a falar no livro, vêm-me os calores; pareço uma cinquentona flácida na menopausa. Merda também para os calores! Merda para tudo, excepto para as cinquentonas, embora flácidas... e gordas... e quase sempre feias como o raio. Porra, que se dane. É o que se pode arranjar. Também já não sou grande coisa. Coisa. Coiso… Livro! Preciso de falar no livro: li nele que qualquer pessoa, com algum esforço, se pode transformar num perfeito e irrepreensível doente mental. Não sabia. Eu que pensava que a minha existência era a de um genuíno lunático, demente, louco, acabei por pôr em causa a minha própria condição. Lindo! Imagine-se o que aconteceu a seguir... Havia meses que eu não saía de casa, mortificado pela morte de Nina, e eis que me aparece um livro que põe tudo numa balança de merceeiro. Vacilei. Decidi não voltar a casa. E, embora não tenha cumprido a minha promessa, pelo que voltei mesmo a casa, deixei de me aprisionar nela: libertei-me dos fantasmas que lá residiam. Nina.»
(excerto do capítulo «Havana», in Confissão)

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