quinta-feira, novembro 30, 2006

O quê?

O que significa a palavra «AMO-TE»?
Que eu olho por ti enquanto durmo?
Que penso em ti a cada segundo da minha existência?
Que só tu consegues arrancar um sorriso meu, mesmo quando choro?
Que só tu consegues afectar o meu coração e produzir em mim um estado de ânsia incontrolada?
Que só tu consegues completar as minhas virtudes e debelar as minhas fraquezas?
Que o meu espírito suspira por ti e soçobra na tua ausência?
Que os meus lábios tremem por um beijo teu?
Que a minha mão só emana calor em contacto com a tua?
Que ela só consegue afagar o teu cabelo, real e livre?
Que os meus olhos choram ao ver a tua leveza?
Que o meu corpo se agita interiormente a cada gesto teu?
Que só tu és capaz de significar a perfeição para mim?
Que nada em ti o é ao acaso?
Que a tua presença é suficiente?
Que o teu ar é o meu?
Que o meu calor é todo para ti?
Que o meu abraço só existe verdadeiramente quando é o teu corpo que é envolvido nos meus braços?
Que eu procuro os teus olhos para me fortalecer?
Que foi em ti que encontrei a minha perfeição?
Ou significa, simplesmente, que não consigo dizê-la a mais ninguém?

quarta-feira, novembro 29, 2006

Fantoches

Quem disse que não sou capaz?
Acompanhem-me... se puderem!
Bonifrates? Paradoxais...
Seres, no limite.
Continuem a julgar-me; talvez valha a pena perpetuar a vossa incapacidade.
Títeres! E eu a pensar em vocês; a ansiar por vós: a suspirar!...
Momento... uma espécie de céu, onde me encontrarão... um dia, preso pelos pés...
Para quê continuar a avisar-vos? Humanismo? Sentimento? O que é tudo isso para cabeças que são vazias? O que significa o sentimento para vocês, que o julgam amiúde, que fazem dele um jogo de forças desiguais, que confundem actuação com quixotismo? De quem esperam? Ou... do quê?
Como pode alguém compreender o outro, quando não se revê nele próprio, quando não se alcança? Não podemos ser «mais» sem sermos algo... É tão simples.
Marionetas. Só vos falta o cordelinho preso à cabeça.
Fracos! A vossa vida é um ciclo vicioso, vulgar, que gira na palma da minha mão. Manchas.
Gostam de magoar porque é a única condição que vos faz sentir vivos.
«Alguéns».
Nem raiva sinto. E a «pena» não é um sentimento, é um estado de alma... que não me afecta. É algo que se escreve, somente.
Vislumbro o fim. Pobres de espírito! Voltem à acomodação que vos identifica e serve na perfeição.
Aproveitem a paz... e inibam a plenitude que não vos espera, certamente. Ela só existe para quem sabe voar.
O céu é esse limite.

terça-feira, novembro 28, 2006

Vazio

Deito-me no chão e olho a escuridão
Aperto a mão, chamo a razão
Sinto que preciso, de novo, da solidão
Não consigo, não consigo, não consigo

Levanto-me, acendo uma vela
Seguro o pincel, miro a tela
Por entre a luz, farta de lutar
Sinto-me vazio, sem nada para dar

Largo o pincel, pego no espelho
Fixo o meu rosto, suavemente clareado
A sua cor, de um tom desmaiado
Faz-me recuar, temer o amanhã

À minha volta, sons estranhos, estridentes
Penetram o meu ouvido, não me deixam pensar
Levo a mão, suja, ao rosto branco
Branco de cor, escuro de luz

Porque procuro o sentido vazio
Encontro o seu castigo, duro e cruel
Já não sei se desejo
Desenhar a minha vida somente no papel.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Odores únicos

Destapo. Aponto. Vaporizo levemente sobre o pescoço nu. Uma suave fragrância envolve o ar que me cerca. Esse efeito desperta os meus sentidos mais profundos: aqueles que não consigo controlar.
É um bálsamo poderoso, algo meramente impulsivo. Bem como as minhas emoções; as minhas relações: as mulheres da minha vida. Todas elas foram «a mulher da minha vida», curiosamente. Não sei se feliz ou infelizmente, nenhuma falhou em sobrepor-se à anterior. Todas alcançaram essa dura, implacável, e injusta condição: a superação.
É que, por mais paradoxal que possa parecer, essa superação não depende das mulheres «per si», antes, e fundamentalmente, da percepção que eu próprio tenho delas – de cada uma, agora sim, «per si». É essa percepção, ou melhor, o julgamento último dessa percepção, que me perturba: fruto do bálsamo que penetra inopinadamente o meu ser mais desprotegido.
Todos os meus perfumes, aqueles que usei ao longo de todos estes anos, os mais diversos, todos representam uma mulher em particular. O odor, a doçura, o sabor implícito, a textura da pele envolta pela maciez dos pequenos respingos, tudo isso me recorda com ardor as mulheres da minha vida. Um ardor que abusivamente invade o meu espaço, o invólucro que supostamente me deveria proteger, como um escudo, das emoções e dos sentimentos do passado. Aqueles que eu já não sinto, se não por força de uma qualquer fragrância invasora. Isto, mesmo quando cada mulher superou a anterior. É doloroso.
Olho todos os frascos passados, inutilizados, dispostos em longas fileiras diante dos meus olhos. Conto cada um. Somo os iguais. Meço os líquidos que restam. Relembro cada uma. Sorrio, indistintamente. De imediato, uma nostalgia desavinda corrói a minha alma saudosista, perene. Isto, mesmo quando cada mulher superou a anterior. É impiedoso.
Logo procuro reagir; positivar a relação que me une a essas recordações que me queimam lentamente. Sofro por um odor que partiu para sempre. Um odor que outrora era meu, e que agora me mata inapelavelmente, sem recear a minha revolta.
Os perfumes simbolizam as mulheres; aquelas que tive e que, momentaneamente, significaram a minha vida, a minha existência condicionada. Condicionada pelos odores do passado. Por todos aqueles que partiram do meu corpo, levando consigo uma parte substancial do meu ser. Soçobro a cada partida. Mesmo sabendo que a chegada do próximo odor me restabelecerá por inteiro: isto porque cada mulher supera a anterior. No entanto, rebeldes, levam consigo algo só meu: o «meu» odor. Aquele que só ao meu passado diz respeito. O odor que partiu com as mulheres da minha vida.
Fixo o fundo de alguns perfumes inacabados e relembro-me dessas relações, perto de uma possível renovação. Apercebo-me de quão perto estive de comprar um novo frasco, igual ao anterior, o mesmo dessa mulher que dividiu, comigo, o meu espaço interior.
Outros perfumes repetem-se, em sucessivos frascos iguais: símbolo da longevidade, da comunhão, do amor profundo. Nunca reaproveitei um perfume. Nunca os reutilizei. Porque nenhuma mulher da minha vida passada, voltou a sê-lo no futuro desse passado – o presente.
O odor não volta.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Sobrevivência

«Logo que Carol fechou a porta do quarto, pus-me a pensar na conversa que tivéramos. Imaginei que não seria nada fácil, para mim, continuar a fazer-me passar por Billy Murray, mesmo sabendo que Carol engolira o meu logro e caíra no engodo sem pestanejar. Assim que estendi o corpo no sofá, comecei a sentir uma torrente de imagens a vaguearem pelo meu cérebro. Depois disso, como ferro em brasa, cravou-se na minha mente uma única imagem: uma imagem que, desde então, nunca mais me largou. Passei a viver com ela dentro de mim, de certa forma condicionado pela sua pujança inelutável, procurando a cada segundo da minha existência suster à sua sobrevivência. «No fim de contas, só conseguimos impedir a nossa respiração por um determinado período de tempo. Mais tarde ou mais cedo, chega um momento em que temos de começar a respirar de novo – mesmo que o ar esteja contaminado, mesmo sabendo que esse ar acabará por matar-nos.» Esse fenómeno da respiração não mais me abandonou. Todos os acontecimentos que se seguiram, na minha vida, tiveram-no ao mesmo tempo como causa e como consequência; como numa circunferência, eu não sabia onde começava o quê, o que é que desembocava onde, ou por que motivo. Deixei de saber que passado era verdadeiramente só meu e até que ponto o futuro que eu começava a construir não era alicerçado nesses terrenos ambíguos que significavam a minha vida – até àquele momento particular. No entanto, e por curioso que possa parecer, tudo isso deixou de ter a relevância que seria de esperar. Se bem que tivesse chegado até à casa de Carol Alster, naquele dia, conduzido por um misto de acasos e de intenções, subitamente, todas essas contingências deixaram de me condicionar como antes. A minha decisão era clara. Sensivelmente a meio da minha vida, decidira recomeçar tudo de novo. Como dizia Daniel de Superville, «sonhar é esquecer a materialidade do nosso corpo, e confundir, até certo ponto, o mundo exterior e o mundo interior.» Esse fora o meu grande desígnio.»
in «Reinventar a memória» (excerto do Capítulo 1, Parte II)

quarta-feira, novembro 15, 2006

Prazeres

«Voltei a acordar certo tempo depois. Quanto tempo depois, não sei. Pavlovna já lá não estava. Dela apenas restava um pequeno pedaço de papel pousado sobre a sua travesseira. Dizia: «Resolvi fazer aquilo que me pediste; falarei com o meu chefe. Dir-te-ei o que conseguir – ou não – assim que puder. Mas não mais nos veremos, Simon. Trazes Nina entranhada nos teus ossos. Liberta-te dela, e procura-me, se o desejares. Tua, Pavlovna.»
Esbocei um meio sorriso de contentamento, embora aquele passado recente vivido com Pavlovna fosse, para mim, um buraco repleto de esquecimentos e omissões. O que acontecera, eu não sabia, nem sequer imaginava, no entanto, mais importante do que tudo o resto, era a certeza de que Pavlovna intercederia a meu favor. Isso encheu-me de alegria e esperança. Voltei a acreditar no futuro que me aguardava, algures.
Foi assim que, ao longo de dois dias inteiros, não saí de casa nem fiz outra coisa que não fosse esperar por notícias de Pavlovna. Cheguei, inclusive, a desejar estar com ela, abraçá-la de novo, tê-la perto de mim. Ainda assim, eram pensamentos e necessidades esporádicas e passageiras, pois logo voltava a esquecê-la enquanto mulher e tudo o que eu pretendia dela era a resolução proveitosa do imbróglio onde eu me metera.
Esse tempo que mediou a última noite com Pavlovna e a notícia que ela ficara de me transmitir, foi tudo menos pacífico. Apesar de não ter saído de casa, de ter reduzido a minha actividade a um mínimo indispensável de gestos e movimentos, e de ter procurado esquecer o episódio «Nina», algo se abateu sobre mim, inexplicavelmente. Sobre mim, dentro do meu quarto. Tudo o que eu fazia, naquele mesmo espaço, produzia eco. Um eco ensurdecedor, melancólico, que abafava no interior dos meus ouvidos e me deixava com a respiração entrecortada, quase ofegante. Era um processo estranho, lá permanecer, assim; saber, de antemão, o que aconteceria ao meu corpo indefeso. Mesmo assim, e perante essa certeza, eu não saía, temerário, quase inconsciente. Seria tal e qual: a realidade enfrentada com uma galhardia surda, oca, desprovida de heroísmo e recheada de requebros. Uma realidade quase infantil. Um tempo de espera e crescimento. A sobreposição de dois tempos vividos. Numa palavra, o espectro de Nina.

Que significavam as mulheres na minha vida? Qual a importância de cada uma, e por que razão deixei de ser capaz de amar alguém?
Nina morreu. Com a sua morte, pereceu, igualmente, uma parte de mim: aquela com a capacidade de amar. Talvez fosse essa a explicação para a minha incapacidade latente; eu amava através de Nina. Ela era não só o objecto do meu amor como o seu próprio veículo. Nina era o bode expiatório: a reflexão de um sentimento que eu jamais sentira por alguém. Nascera para odiar, somente. E com essa mesma força, amei. Amei Nina. Odiei-me na mesma proporção. Odeio o meu ser, a minha idiossincrasia. Odeio a depravação, mas sou incapaz de lhe fazer frente, de resistir ao seu chamamento. Raios! Quero mulheres e álcool para não me lembrar que existo, que cheiro mal…
Nina.
Lembrei-me de Urbénin quando ele disse ao conde e a Serguei Petróvitch que «os prazeres da depravação não valem a centésima parte do que dá uma vida calma de família». Será que agora, sem família, tenho que contentar-me com os prazeres da depravação?»
(excerto do capítulo «Rússia», in Confissão)

quinta-feira, novembro 09, 2006

Traição?

«Uma hora depois, conforme o combinado, introduzi a chave na ranhura do quarto «212» e chamei por ela.
- Entra – respondeu-me, numa voz abafada.
Brigitte estava nervosamente sentada num sofá de veludo preto, visivelmente coçado nos braços, a fumar com sofreguidão. Quando eu entrei, e a vi pela primeira vez, julguei que estava a olhar para uma outra mulher, não para a Brigitte que eu tinha conhecido ao longo daquela semana. Acendeu um novo cigarro no anterior e continuou a expelir nuvens de fumo para o tecto, como se a sua vida dependesse disso mesmo.
- Senta-te – proferiu, num suspiro.
- Mas afinal o que é que se passa? – Começava, eu próprio, a impacientar-me.
- Eles descobriram, Sean. Sabem de nós. Desculpa. – Levou a mão à cara e escondeu-a, ligeiramente. As espirais do fumo que saíam do cigarro confundiam-se com o seu cabelo.
- Eles quem? Descobriram o quê? – E sem parar para que ela respondesse, acrescentei. – Nós, como assim, «nós»? Por que razão me pedes desculpa, Brigitte? – Deveria ter-lhe feito cada uma daquelas perguntas separadamente, mas o meu estado de espírito já não me permitia grande lucidez.
- Eu não quis que fosse assim. Quero que saibas que não quis, percebes? – Os seus olhos estavam rasos de lágrimas, vermelhos; fumava sem parar, soltando o fumo pela boca e pelo nariz, automaticamente.
- Não, Brigitte, não percebo nada. O que é que não era para ser assim?
Ouvi a sua respiração, dificultada pelos soluços que irromperam pela sua garganta, subitamente. Fui até ao sofá e aninhei-me junto dela. Passei a mão pelo seu cabelo. Peguei no cigarro e esborrachei-o no cinzeiro.
- Conta-me tudo – pedi-lhe.
Desde que falei, até que Brigitte principiou ela própria a falar, decorreram alguns segundos que pareceram demorar uma eternidade. Tínhamos os rostos extremamente próximos um do outro, tanto que dava para sentir o odor do tabaco que ela exalava ao respirar.
- Ias amanhã embora, não ias? – iniciou ela, laconicamente.
- Já não vou, Brigitte? – contrapus. – Estás a tentar dizer-me alguma coisa?
- Ah, Sean, se fosse por nós que tu amanhã não pudesses partir... – E voltou a desfazer-se em lágrimas. Naquele momento, estava, de facto, totalmente perdido e atordoado.
- E qual é o motivo? – quis saber.
- «Eles». Nunca mais serás livre...
Assustei-me com as palavras dela. Embora quem não deva não tenha nada a temer, ouvir o que ela acabara de dizer, a frio, não era agradável, nem augurava nada de bom. Para não falar do seu estado.
- Não sou uma mera cantora, Sean – retomou. Não reagi. – Trabalho para uma organização internacional que coopera com o bloco aliado... a «Allied Intelligence Services» – adiantou, num sussurro, como se pretendesse abafar o nome da organização. Tinha lágrimas no rosto. – De certa forma, podes mesmo chamar-me uma espia, embora esse não seja o meu «trabalho» – continuou, lavada em lágrimas. – Acabo por desempenhar papeis para que «outros» possam actuar, depois de mim. Entendes?
Não tinha entendido.
- Trabalhas para uma organização aliada – principiei, mecanicamente. – Não és cantora, mas uma espécie de espia que não é bem uma espia. – Cruzámos os olhares. O dela era de súplica. Sabia que eu não estava a cair no conto do vigário. – E o que é que eu tenho a ver com isso, Brigitte? Onde raio é que eu me encaixo nessa história toda? – Devo ter soado rude e zangado, uma vez que os olhos dela recuaram imediatamente. Encolheu os ombros e resfolegou.
- Tudo o que acabaste de dizer é verdade, Sean. Só que eu não sabia que «tu» eras parte da missão que me fora destinada aqui em Saint Tropez! Fiz aquilo que me mandaram; fingi ser uma cantora.... O meu papel foi esse.
- E depois só tinhas que falar aqui com o otário, não era? Pô-lo pelo beicinho...
Levantei-me e comecei a vaguear pelo quarto. Àquele ponto da conversa, ambos estávamos vencidos pelas circunstâncias. Eu dava sinais de ter acreditado em tudo o que ela me contara, apesar das tentativas infrutíferas de passar uma mensagem contrária; ela esforçava-se para que eu acreditasse realmente em tudo.
- E eu, Brigitte? Dizes-me que amanhã não vou seguir viagem. – Fiz uma pequena pausa para a encarar. – Que diabo de missão era essa que me tinha «a mim» como alvo? Vão matar-me?! – gritei.
Abanou freneticamente com a cabeça. Subitamente, disse.
- Serás recrutado.
Todo o meu raciocínio fragmentara, em definitivo. Esperava ouvir mais depressa que a minha vida estava por horas, por minutos até, mas não contava ouvir as palavras que saíram da sua boca.
- Recrutado?! Ouvi bem? – Dei alguns passos na sua direcção. – E quem é que te disse, ou lhes disse a «eles», que eu queria ser «recrutado»? – perguntei, sarcástico.
- São eles que decidem, Sean. Por razões que só eles conhecem, escolheram-te a ti. Se queres aceitar ou não, não é problema deles. – Engoliu em seco. – Não é uma opção, entendes? Ou aceitas o que eles querem... ou... – interrompeu-se. Fitei-a, demoradamente. Ela desviou o olhar. – Eles matam-te, Sean! Simplesmente eliminam quem renuncia a eles depois de ter sido escolhido...!
Fui incapaz de responder. No fundo, talvez todo aquele discurso inflamado fosse uma forma de ela me preparar para o que se avizinhava. Custava a acreditar que uma organização a trabalhar para o bloco aliado fosse capaz de «matar» uma pessoa perfeitamente inocente só porque esta se recusara a entrar para a dita organização. Brigitte prosseguiu na sua tentativa de alerta.
- Dentro de minutos, entrarão por aquela porta e levar-te-ão. O resto, é contigo. A decisão é tua, Sean. – Falava como se tivesse um peso descomunal sobre o corpo.
- Traíste-me – deixei escapar, num fio de voz. Ouvi uma chave a ser introduzida na porta. Vozes no exterior falavam umas com as outras. – Confiei em ti...
Quando acabei de proferir as últimas palavras, quatro homens elegantemente vestidos entraram pelo quarto dentro. Nenhum deles abriu a boca. Brigitte limitou-se a recomeçar a chorar, silenciosamente. Dois deles agarraram-me, pelos ombros, e conduziram-me para fora do quarto. Ao passar a ombreira da porta, ouvi a voz de Brigitte.
- «É assim que deves proceder se me queres possuir...» – declamou ela.
Cerrei os maxilares de raiva e fechei os punhos em gesto de guerra.
- «Longa é a noite que vê jamais dealbar a madrugada» – respondi-lhe.
Nunca mais voltei a ver Brigitte.»
in «Mocba» (excerto do Capítulo 1)

terça-feira, novembro 07, 2006

Viagem

«Entrei no primeiro táxi que me apareceu à frente. Devo alertar o leitor para o significado da palavra taxi. Pois bem, por taxi não quero que pense num automóvel pintado de uma cor característica, capaz de percorrer grandes distâncias em pouco tempo. Na China, os taxis são movidos ao pedal. Nem mais, leu muito bem, o taxi que eu encontrei (e não se pense que, lá por ter entrado no primeiro, não procurei por um que fosse movido a gasolina...) tinha uma casotita atrás de uma bicicleta, e era puxado por um louco de um chinês. Nunca antes tinha sentido tanto cagaço na minha vida! O raio do homem acelerou a fundo mal eu me sentei num banco que parecia de madeira, quase provocando um acidente ali mesmo. Ainda assim, e depois de uns tantos palavrões que chamei à sua mãe, o anormal continuou a viagem num ritmo diabólico. Só mais tarde me apercebi que talvez estivesse a pressentir o que viria a suceder e tivesse encetado uma derradeira tentativa de viver a vida toda de uma só vez. Mas, vamos por partes. Por mais estúpido que possa parecer, somente uns minutos mais tarde, já nós tínhamos evitado por um triz meia dúzia de acidentes mortais, é que tive oportunidade para lhe indicar o destino pretendido. Abafada por aquele chinfrim ensurdecedor que são as ruas de qualquer cidade chinesa, a minha voz teve dificuldade em ser ouvida pelo condutor, embora tenha achado, na altura, que era a barreira da língua que retardava a reacção dele.
- Water – disse eu. – I want to see some water. Ocean, I mean – acrescentei.
Respondeu-me como se estivesse bêbado. Resolvi fazer alguns gestos, enquanto lhe dizia novamente o que pretendia.
- Sand. Sun. Got it? – E fingia estar a apanhar sol, ou a nadar no mar.
Nesse instante, em que os meus olhos se fecharam um segundo, deleitosos, o anormal do chinês deve ter achado muita piada à minha momice, pelo que se demorou a contemplá-la, enquanto soltava uma gargalhada entrecortada. Voltado para trás, o burro esqueceu-se que estava a conduzir um taxi algures no fim do mundo, em ruas que não tinham nem sinais nem regras. Só me apercebi da gravidade da situação, quando o ouvi pronunciar um seco «uhh!», ao mesmo tempo que sentia o ruído desesperado dos pneus de um automóvel que vinha em sentido contrário ao nosso. Voltei a fechar os olhos, desta vez de pânico, e esperei pelo pior. Não rezei. De entre todo o azar que tivera ao escolher aquele taxista desvairado, acertei igualmente naquele que teria, provavelmente, a perícia mais apurada. Ignoro por completo a forma que ele utilizou para se desenvencilhar da morte que o esperava (ou devo dizer, que «nos» esperava?), mas o que é certo é que conseguiu mesmo. Sem nunca se ter servido dos travões da bicicleta em forma de taxi, senti a velocidade a aumentar ainda mais, e uma súbita guinada para a esquerda. Durante alguns segundos pensei ter perdido a materialidade. «Será que é um sinal do outro mundo, pensei. Voamos?» Que voamos, qual quê! No instante seguinte, uma força esmagou-me contra o centro da terra, aniquilando qualquer teoria teológica daquilo que nos espera do outro lado. A bicicleta voltou a pousar sobre as três rodas (talvez lhe devesse chamar, por conseguinte, um triciclo), e nós regressámos, incrédulos, à nossa peculiar viagem. Lembro-me que nem consegui pronunciar o mais anódino dos palavrões. A minha boca estava seca de adrenalina. Deixei que escoassem dois ou três minutos, o palerma reduziu a velocidade, e tudo acalmou.
- Go? – perguntou ele. – Go where?
Sorri, perante aquele taxista louco mas poliglota.
- Beach – respondi prontamente.
- Beech?
- B-e-a-c-h! – reforcei. – Beach, bitch!
- Okay! Okay!
Meneei a cabeça e recostei-me no acento de pau. O que eu queria era descansar.»
(excerto do capítulo «Paris», in Confissão)

segunda-feira, novembro 06, 2006

Estranho ser

«O ser é egotista. Eu sou, não só egotista como egoísta também. São defeitos do meu carácter. Ou qualidades, consoante a perspectiva de análise; como tudo, um pau de dois bicos.
Lembro-me de quando toda esta problemática surgiu na minha vida: Nina tinha morrido há poucos meses, toda a minha existência ruíra por completo, e eu sucumbira perante a última memória que guardava dela. Nesse dia, peguei num livro aleatoriamente, quando, pela primeira vez desde que ela falecera, me decidira a sair de casa. Estava então numa livraria, algures no Bronx, e, por acaso (ou por um acaso do destino, não sei bem), o livro que tinha nas minhas mãos possuía uma estranha força. Chamava-se «Conheça as suas doenças mentais; e seja um bom doente», e essa força oculta da parapsicologia exerceu sobre mim um domínio faiscante e inominável. Dei por mim a folheá-lo, a ler cada uma das linhas que ali estavam escritas como se essas linhas fossem autênticos tratados de demência programada, verdadeiros atestados de incapacidade ou prestidigitação… Está calor, porra! Um calor medonho. São quatro da manhã, é Agosto em Havana, e passei uma noite sem mulheres do meu lado. Quantas vezes é que isto sucedeu nos últimos anos da minha vida? O que é feito da minha vida? Ah, que estúpido que eu sou... A minha vida morreu, estraçalhada, no dia em que Nina desapareceu deste mundo. E o que é que isso tem a ver com o episódio do livro que eu estava a relatar? Estou constantemente a perder-me, os pensamentos que me invadem não param de colidir uns com os outros, e eu não consigo manter o fio da meada até ao fim. É sempre a mesma merda na porra da minha vida. Porra, estou sempre a escrever porra! Eu não era assim... Agora sou um pedaço de... de... um pedaço de... qualquer coisa que não sobrevive se for meramente um pedaço! Sou um pedaço de nada. Desde que li aquele livro. Mas não era desde que Nina falecera? Porr... Pára! Acabaram-se os palavrões; pelo menos os proferidos pela minha boca (aliás, pela minha caneta... ou melhor, porra!, pelo meu lápis, dado que escrevo sempre a lápis; tenho o secreto desejo de que um dia tudo aquilo que eu escrevi durante a desgraçada da minha vida se apague e nunca mais ninguém se lembre sequer do meu nome: Simon. Essa é a explicação que eu dou... e nem sei se é verdadeira ou não. Não faço ideia, nunca pensei no assunto, tão pouco. E chega, por agora, de pensar nele.) O livro... Que calor! Curioso, sempre que começo a falar no livro, vêm-me os calores; pareço uma cinquentona flácida na menopausa. Merda também para os calores! Merda para tudo, excepto para as cinquentonas, embora flácidas... e gordas... e quase sempre feias como o raio. Porra, que se dane. É o que se pode arranjar. Também já não sou grande coisa. Coisa. Coiso… Livro! Preciso de falar no livro: li nele que qualquer pessoa, com algum esforço, se pode transformar num perfeito e irrepreensível doente mental. Não sabia. Eu que pensava que a minha existência era a de um genuíno lunático, demente, louco, acabei por pôr em causa a minha própria condição. Lindo! Imagine-se o que aconteceu a seguir... Havia meses que eu não saía de casa, mortificado pela morte de Nina, e eis que me aparece um livro que põe tudo numa balança de merceeiro. Vacilei. Decidi não voltar a casa. E, embora não tenha cumprido a minha promessa, pelo que voltei mesmo a casa, deixei de me aprisionar nela: libertei-me dos fantasmas que lá residiam. Nina.»
(excerto do capítulo «Havana», in Confissão)

sexta-feira, novembro 03, 2006

Sentidos

«Quando cheguei ao átrio de entrada do prédio, depois de descer lentamente as escadas, a porta de entrada acabava de se fechar. Transpu-la e vi uma senhora baixa, de cabelo grisalho, a descer a última escada do pequeno lanço exterior, segurando um guarda-chuva. Fiquei, à chuva, alguns segundos a olhar em meu redor, findos os quais me encaminhei para o Morris. James não aparecia; há mais de uma hora. Começava a temer algum «acontecimento» sério. Olhei para dentro do seu carro, mas não detectei nenhuma anomalia. Nada mais havia a fazer, que não fosse esperar. Ansiosamente. Conduzi, molhado, apático e pensativo, por detrás da agitação frenética dos limpa-pára brisas. Eram movimentos estonteantes. Imaginei dois dedos gigantes, independentes, em sucessivos movimentos de negação. Involuntariamente, dei comigo a pensar em Caroline e em James; cada um deles com o seu dedo indicador gigante a abanar energicamente; dois limpa-pára brisas a sacudir a água que caía diante dos meus olhos, permitindo-me a visão, o alcance. Pensei na água e nas suas pequenas gotículas como pequenos obstáculos à verdade que eu procurava. Metaforicamente, eram eles os dois que, neste momento, desimpediam o caminho que se desenrolava à minha frente. Com uma grande e, até ver, assustadora diferença: eu sabia aonde estava Caroline. E que nesse «aonde», estava bem. Uma vez em casa, senti um ambiente frio, quase gélido. Não sei se interior, se exterior. A roupa colara-se ao meu corpo, dificultando-me a acção. Tudo o que eu fazia, e que provocasse algum ruído, parecia ser reproduzido mecanicamente pelo eco, como um alarme sincronizado. Telefonei para casa de James, mas, como eu temia, ninguém atendeu. Decidi tomar um banho quente e relaxante. Vesti-me novamente e voltei a sair. Ignoro o tempo que demorei dentro de casa, entre deambulações interiores, o banho, o vaguear, mas, quando saí para a rua, havia escurecido e deixara de chover. Sentia-se um cheiro invernoso, abafado, característico desta época de tempo instável. Entrei no Morris e conduzi sem destino. Não me lembro de ter pensado em algum acontecimento específico; não me lembro de ter perscrutado a estrada que o meu carro percorria indistintamente. Parei junto de uma cabina telefónica e fiz um telefonema rápido para uma pessoa em «Newcastle». Voltei ao carro e conduzi até «Shad Thames». Estacionei e entrei no «Dungeon». Sentei-me numa mesa junto das enormes vidraças que se estendem paralelamente ao Tamisa. Bem perto dali, sobre a minha esquerda, a esplendorosa e vitoriana Tower Bridge. Fitei-a prolongadamente. É um magistral «monumento» – quase tão famoso como o Big Ben – da cidade de Londres que evoca os tempos em que a Inglaterra era uma potência marítima poderosa. Nesses tempos, longínquos, a navegação ao longo do Tamisa era intensa e as pontes levadiças erguiam-se para deixar passar os navios. As duas torres neogóticas dissimulavam a maquinaria hidráulica, complexa, utilizada para mover os dois tabuleiros basculantes. De novo, o meu espírito sobressaltou-me com um pensamento ominoso e arrepiante: as torres representavam Caroline e James; um de cada lado, impotentes, imóveis, expectantes. Senti que as torres que sustentavam um «único» tabuleiro se afastavam lentamente. Penosamente. Dolorosamente. Se eu tivesse que alcançá-las, apenas conseguiria alcançar uma delas: ou James ou Caroline. «Apenas um». A iluminação artificial da noite, proveniente das luzes, encobria muita da beleza daquele espaço particular da cidade. Sem a ajuda da lua, tudo parecia mais afastado de mim, mais surreal, impalpável, como se tudo em meu redor estivesse prestes a desaparecer com a ajuda de uma bruma que estendia os seus tentáculos sobre essa mesma realidade, dissimulada. Passei, igualmente, bastante tempo a observar distraidamente as pessoas do «Dungeon». Sentavam-se, falavam, sorriam, degustavam, bebericavam, gesticulavam, moviam-se, levantavam-se, saíam. Sempre impassíveis com o mundo que as rodeava. Despreocupados, inclusive, com tudo aquilo que se passava nas suas vidas, e que estivesse para lá daquelas paredes. O que ali estava diante de mim não eram pessoas com a sua vida; eram segmentos estanques das suas próprias vidas. Vidas partidas, apátridas, desconexas. Quando a garrafa de vinho verteu a última gota de um líquido vermelho espesso para o copo, traguei-o de uma só vez e saí sem olhar para ninguém. Aquele ambiente superficial, fingido e fumacento, inquietava-me.
"As pessoas assumem a felicidade".»
in «Verdades» (excerto do capítulo IV, III Parte)

quinta-feira, novembro 02, 2006

Paisagem

Deixei de ser um Castelo. Grande, pequeno; sem muralhas. Não o destruí, não o abandonei por temor ou imposição. Somente, deixei de viver na época das conquistas pela vã glória, pelo ensejo desmedido de se ser maior e mais influente.
Sem metáfora, cautela. Não se aventure; não deduza, induza. Respire pelas palavras que escrevo, leves e perfumadas. Sinta-o. Deixe que esses odores o invadam, balsâmicos.
Campo. Paisagem. Flores. Odores.
Compreenda o sentido implícito, a justificação da não-criação metafórica. Acredite, deixei de ser o Castelo. Abaixo as muralhas defensivas e bloqueadoras!
Imperceptível.
A muralha tolda; impede a visão longínqua – do exterior para o interior. Defende o interior, pelo impedimento ostensivo. Cerca. No entanto, a muralha, bem situada no sopé da montanha, permite uma percepção única, inigualável... inefável. Introduz o sentido do horizonte. A passagem é clara. Para o espírito sagaz. Prossiga em mim, se o é. Abandone-me, caso contrário. Não minta. Vejo tudo.

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