terça-feira, outubro 10, 2006

Sonho cruel

Sonhei contigo. Sonhei que te encontrara. Conheci-te sem saber como. O que é certo, é que nos entendemos, verdadeiramente. Só isso interessava. No entanto, como sempre, foi efémero; e, por isso mesmo, mais uma vez, doloroso.
Falamos prolongadamente sobre tudo; sobre nós. Imaginei-nos perdidos no tempo que nos unia; vislumbrei um futuro que nos contemplava, ardente, eridescente. Senti-te senhora de uma perfeição outrora inatingível ao meu entendimento. Fiquei perplexo diante dela; tudo em ti luzia como um farol que ilumina um vasto mar repleto de pequenas embarcações artesanais. As embarcações simbolizavam todas as tuas qualidades – aquelas que eu percepcionei. A luz que as clareava era a força do teu carácter espelhada pela brancura do teu rosto. Por momentos, ofuscaste os meus sentidos mais reais.
Apercebi-me, então, do quão perto estava de ti; e de todo o teu ser. Não obstante, por uma razão ou por outra, nunca conferiste ao sonho uma dimensão palpável, iminentemente táctil. Não relevei esse facto; fui incapaz de discernir tão profundamente. Estava demasiado embrenhado na perfeição do teu corpo; demasiado próximo da tua leveza transcendente e perturbadora. Quiçá, os meus sentidos pueris falharam na atribuição de um verdadeiro significado ao laço que me unia a ti. Era um laço unidireccional, meramente imaginário e onírico. Mas a culpa foi tua; sei-o, embora nunca o tenha dito antes.
Procurei não magoar a lembrança que guardava de ti, do teu odor perfurante e, ainda agora, confuso. Cheguei a pensar que nada nos separaria.
Até que saíste da minha presença e entraste no elevador do teu fim. Segui-te, rejubilante, crente, ciente de tudo aquilo que, na verdade, jamais existira. Entrei num outro elevador e carreguei no «zero». Comecei a descer, optimista... Nunca mais parou; segui, penitente, até ao infinito das minhas ilusões. Só durante essa viagem interminável me apercebi do passado platónico que nos serviu. Ouvi, repetidamente, uma voz retumbante que me dizia, «vais em direcção à morte», e «nunca mais pararás». Durante os primeiros minutos, acreditei que chegaria a um limite; a um fim que, por muito longínquo e afastado que fosse, me permitisse uma subida, um regresso, mesmo que penoso e demorado. Pura ilusão. Continuei a descer, ininterruptamente. Deixei de sentir o meu corpo. E a mente estava anestesiada. Acabei por adormecer no próprio sonho, perdido no seu realismo aterrador e doloroso.Lembro-me de ter escrito, mentalmente, toda esta «estória», ainda dentro do elevador. Até porque, quando dele saí, só tinha cabeça...

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