segunda-feira, outubro 02, 2006

Silêncios Falantes

Acordo com um céu que, no seu interior, parece estar coberto de ondas salpicadas. O ar saúda-me de forma benevolente e acaricia-me o rosto, como se fosse a tua mão a envolver-me a cútis. Esboço um sorriso discreto, algo tímido, que não reflecte com exactidão o sentimento que me percorre a alma. Desloco-me até à janela que se encontra aberta e fecho-a. A cortina que outrora dançava ao sabor da rebeldia, estende-se, agora, imóvel. Sou, de novo, engolido por uma escuridão que me sussurra um cântico brumoso e provoca o arrepiar de todos os meus nervos. Sou percorrido de lés a lés, prazerosamente, por uma chama ígnea que me impele ao teu contacto, sempre doce e carinhoso. Pé ante pé, sem te acordar, regresso ao leito e reentro nele, silencioso. Clamo por uma inocência que nos une e espero que o eco te acorde com uma suavidade que a minha voz mais melodiosa não conseguiria imitar. E eis que o milagre acontece! Profundamente adormecida, e sem abrires os olhos esverdeados, perguntas-me o que se passa. Fico mudo, silencioso. Sou incapaz de reagir. Sem pensar, elevo-me no ar e prossigo numa viagem desconhecida. Desejada, contudo, inexplorada; totalmente nova. E é com a magia do teu abraço que o meu corpo é sustentado. Vagueio por entre planícies fúlvidas e por planaltos repletos de pequenas árvores coloridas, que me entretêm o olhar com uma matiz de cores berrantes; amarelo, verde, castanho, vermelho. Cada cor representa um estado. E todos eles nos unem, curiosamente. Nada nos separa. Nem a condição de mais gritante dureza. Com todos os meus músculos ainda retesados, caminho, oscilante, planando melifluamente sobre um silêncio que me revela um futuro baseado no presente que abraçamos, constantemente. Avidamente. Como um segredo milenar que é guardado com reverência, escrupulosamente. É a nossa magia; a força que nos move no segundo imediatamente posterior ao anterior. Um pleonasmo temporal. Como numa bala que não sai do canhão mas é perpetuamente disparada. O fogo; a chama. A ideia reflectida num espelho invisível. Dou comigo a pensar no amanhã; apenas no sonho que transporto sobre o meu corpo. Somente o presente nos move. A orgânica da natureza que nos conquista a cada momento, impedindo-nos de olhar para lá do rosto um do outro. Ainda que no sonho esse caminho se prolongue e se projecte no indizível. Uma projecção real numa concepção iminentemente surreal e onírica. O nosso caminho. No sonho e na realidade. No presente e no futuro. Pelo passado; no além. O fruto que vaza dos nosso corpos. A comunhão. Eu, tu, eles. Faça-se silêncio. Por nós.

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