Revelação
«Explodi interiormente. Aquele relato de Caroline fez-me vacilar. Senti-me ruborizar, possuído por uma cólera impiedosa, funesta. Embora eu tivesse – de certa forma – previsto este desenlace, jamais imaginei ser confrontado com ele de forma tão directa – e, se calhar, tão tardiamente. Agora, Caroline era também um alvo! E eu era o muro que se opunha e separava ambos os lados da verdade. Na minha cabeça, pouco ou nada fazia sentido, de novo! A imagens de Caroline sorridente, seguiam-se outras com ela a chorar nos meus braços e a ser alvejada, ignobilmente, pelas costas. Procurei controlar-me, recuperar alguma clarividência. Em vão; as peças do outrora estranho e confuso puzzle desprendiam-se umas das outras, mesmo diante dos meus olhos, e perante a minha total passividade. Cheguei a pensar que Caroline tivera razão quando me aconselhara a abandonar o caso. Mas eu sabia que não podia fazê-lo! Não então; muito menos agora! Se o emaranhado de dúvidas que eu sentia até ter entrado em casa me fizera refrear o ímpeto e imputar toda a responsabilidade à polícia britânica, aquele colocar de Caroline em risco fez-me esquecer tudo isso. Apesar de toda aquela emoção descontrolada, foi naquele momento que percebi o meu destino. Eu iria até ao fim! Até às últimas consequências! Estava disposto a arriscar a minha vida para atingir um determinado fim. Teria, somente, que retirar Caroline do caminho, e manter-me inflexível e... cruel! Aquela ameaça não podia ter acontecido sem um motivo muito forte; uma razão que ultrapassasse a própria realidade – ou aquela que nós apalpavamos. Caroline, James, e eu próprio, éramos intimidados depois da polícia ter prendido preventivamente quatro suspeitos. No mínimo, estranho. Certo era que alguém continuava a sentir-se em perigo, apesar dos últimos «desenvolvimentos». Mas quem? Quem?! A resposta era demasiado ambígua e abrangente. Tanto poderia ser um dos suspeitos presos, como não. Se fosse um dos suspeitos, alguém de fora ficara com medo, aterrorizado pela iminência da descoberta de algo. Sim, porque como dissera Fleming, a informação não seria divulgada durante as próximas horas. O que indicava que, ou alguém se tinha adiantado, ou alguém se tinha precipitado. A nuvem que ainda envolvia o caso voltou a descer sobre ele, adensando-se, tornando a visão turva, espasmódica, como que entrando no meu cérebro e impedindo o seu regular funcionamento. Mantive Caroline perto de mim por mais alguns minutos. Quando estava mais calma e sossegada, levantei-lhe a cabeça e olhei profundamente os seus olhos húmidos, desalentados, incrédulos.»
in «Verdades» (excerto do capítulo XXXV, II Parte)

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