Recorte do vale
Quando para lá fomos viver, receava acordar de manhã. Não que temesse algo que não fosse deste mundo, uma qualquer alma perdida que vagueasse por aquelas bandas soturnas e lúgubres; no entanto, uma razão se escondia por detrás do meu medo. E eu não sabia que razão era. Todos os dias, do meu lado, me dizias para não temer o que quer que fosse, conquanto tu lá estivesses para me proteger. Ainda que ciente da força da tua coragem e da galhardia do teu amor por mim, era sempre ao acordar que o meu coração parava, literalmente. Mas, por mais estranho que pudesse parecer – e fora-o –, o meu espírito inquieto só acalmava quando olhava pela janela e mirava o vasto e extenso cemitério que se desenhava diante da nossa casa, recortando o vale como numa pintura expressionista a óleo. Aí, esquecia tudo; o receio, a inquietação, as dúvidas, os temores.
Sem saber porquê, todos os dias acordava da mesma maneira. Cheguei a tentar precipitar a ordem dos acontecimentos, levantar-me mais cedo do que tu, ir à janela, e voltar para os teus braços. De nada me valia, contudo. Algo não batia certo. A engrenagem não funcionava dessa forma. Logo que caía nos teus braços, o temor voltava, o coração não mais parava de bater descompassadamente. Claro, até que tu te levantavas, eu ficava sozinha, e, então, me dirigia titubeante até à janela; ou melhor, até ao prolongamento da nossa casa; o recorte do vale. Abria a janela, inspirava o ar frio e fresco do amanhecer e... subitamente acalmava. Que processo estranho! Incompreensível... naquela altura.
Tempos mais tarde, veio a explicação. Tinha sido tudo uma ilusão. Todos aqueles deliciosos momentos que passei contigo nada mais haviam sido do que experiências. Não vivi, verdadeiramente. Limitei-me a sugar parte do teu âmago, do teu ser. Não consubstanciei essa vivência conjunta. Tu viveste; eu vivi-te. Cometi o erro de me esquecer, de só me lembrar de ti; de ser egoísta fora de mim. E, então, tudo ficou mais negro. Faltaste-me, e a luz faltou-me, igualmente. Deixei de brilhar por dentro. Apercebi-me que a minha vida fora uma mera antevisão do meu amanhã. Vivi um presente que o passado projectou no meu futuro. O receio, a inquietação, as dúvidas, os temores, tudo fazia sentido, enfim. Passei a acordar sozinha, sem os teus braços fortes presos a mim. Esse fora sempre o meu receio. Percebi as minhas inquietações, os meus acordares temerosos e ofegantes. As dúvidas... e o quanto te temi!A violência dos meus dias passou a ser essa: o ritual. Mesmo sem ti do meu lado, continuei a acordar repleta de temores. Continuei a dirigir-me à janela para os fazer desaparecer. Agora, mesmo continuando juntos, apenas te sinto e te protejo. Todos os dias. Pelo recorte do vale.
Sem saber porquê, todos os dias acordava da mesma maneira. Cheguei a tentar precipitar a ordem dos acontecimentos, levantar-me mais cedo do que tu, ir à janela, e voltar para os teus braços. De nada me valia, contudo. Algo não batia certo. A engrenagem não funcionava dessa forma. Logo que caía nos teus braços, o temor voltava, o coração não mais parava de bater descompassadamente. Claro, até que tu te levantavas, eu ficava sozinha, e, então, me dirigia titubeante até à janela; ou melhor, até ao prolongamento da nossa casa; o recorte do vale. Abria a janela, inspirava o ar frio e fresco do amanhecer e... subitamente acalmava. Que processo estranho! Incompreensível... naquela altura.
Tempos mais tarde, veio a explicação. Tinha sido tudo uma ilusão. Todos aqueles deliciosos momentos que passei contigo nada mais haviam sido do que experiências. Não vivi, verdadeiramente. Limitei-me a sugar parte do teu âmago, do teu ser. Não consubstanciei essa vivência conjunta. Tu viveste; eu vivi-te. Cometi o erro de me esquecer, de só me lembrar de ti; de ser egoísta fora de mim. E, então, tudo ficou mais negro. Faltaste-me, e a luz faltou-me, igualmente. Deixei de brilhar por dentro. Apercebi-me que a minha vida fora uma mera antevisão do meu amanhã. Vivi um presente que o passado projectou no meu futuro. O receio, a inquietação, as dúvidas, os temores, tudo fazia sentido, enfim. Passei a acordar sozinha, sem os teus braços fortes presos a mim. Esse fora sempre o meu receio. Percebi as minhas inquietações, os meus acordares temerosos e ofegantes. As dúvidas... e o quanto te temi!A violência dos meus dias passou a ser essa: o ritual. Mesmo sem ti do meu lado, continuei a acordar repleta de temores. Continuei a dirigir-me à janela para os fazer desaparecer. Agora, mesmo continuando juntos, apenas te sinto e te protejo. Todos os dias. Pelo recorte do vale.

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