quarta-feira, outubro 18, 2006

Primeiro encontro

«Numa festa esquisita e monótona, Nöel teve o brilhante discernimento de nos apresentar. Sam, Vera Flambeau. Prazer, disse-lhe. Encantado, foi a sua resposta, num inglês moderado. Aquele lânguido e vagaroso encolher dos lábios quando pronunciou a dita palavra mágica foi o primeiro golpe que Sam deu na minha vida. Por uma razão totalmente inexplicável, diante de um homem pouco atractivo, dei por mim com as pernas a tremer e com dificuldades em proferir alguma palavra em inglês ou em francês que não soasse a estupidez ou a conversa fiada feminina. É óbvio que eu já o conhecia de nome, todos conhecíamos Samuel B. Melillo, o jovem e promissor investigador britânico, contudo, não fui capaz de esconder o meu nervosismo inicial. O seu nome começava a aparecer em jornais e revistas universitárias que inundavam as páginas com ele, fazendo, amiúde, referência ao «bê ponto» do seu nome intermédio, magicando na remota e humorística possibilidade de se tratar de um discípulo de Samuel Beckett, o grande escritor inglês. Mais tarde, pude concluir que não passava de uma peculiar ironia do destino, reforçada pelo facto de Sam ser efectivamente um apaixonado de Beckett.
Se algum dia sentisse necessidade de pedir explicações a alguém por tudo aquilo que me aconteceu ao longo da minha vida, essa pessoa seria certamente Nöel Durrand, o homem que, naquela festa longínqua, num mês de Março, me colocou diante de Sam, numa verdadeira rota de colisão. Demasiado tarde; Nöel está morto e eu não posso pedir explicações a mais ninguém do que a mim própria.»
in «Reinventar a memória» (excerto do Capítulo 1, Parte I)

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