O quarto fechado
Acordo sobressaltado, com um pulsar espasmódico, um respirar ofegante, e o corpo esbraseado. No sonho, sentia-me incapaz de me libertar da total imobilidade em que me encontrava. Todos os meus movimentos conscientes estavam presos, bloqueados, como se alguém sobre-humano me segurasse com uma força descomunal, puramente irreal. Mantive-me deitado na cama, prostrado; sentia-me cansado, débil.
Que explicação? Que significado teria aquele sonho na minha vida? A minha vida... Uma vida digerida diariamente, feita de permanentes deambulações condicionadas pelo espaço exíguo e castrante do quarto onde sobrevivia penosamente. Um quarto onde ninguém entrava; onde ninguém queria entrar.
Naquele momento, apertei o meu braço silenciosamente. Tremia de desejo. Sentia uma vontade indizível de sair dali, abandonar aquele quarto, aquele mundo. Ser livre. Voar. Sentir o vento a percorrer-me a face, a penetrar por entre os meus cabelos, outrora livres e sedentos de novas experiências; agora, ressequidos e desventurosos.
Era, de certa forma, uma visão conflituante, contrastante. O perfeito conhecimento do passado dificultava a minha tentativa de desbloqueio. Sentia nas minhas veias essa tentativa estóica, contudo infrutífera.
Subitamente, uma cólera muda começou a trespassar a minha mente; o sangue corria, irado. Seria terror?
«Não!», gritei. Um grito velado, triste, sem a verdadeira pujança de um sentimento e um desejo capazes de mudar o rumo de um caminho aparentemente intransitável.
Curioso... Sentia-me a percorrer um caminho impossível de desbravar... como se a minha alma desmaiasse vagarosamente, a meu pedido implícito. Então, porquê lutar? Porquê tentar fazer algo da minha vida, quando eu próprio assumia e respeitava as suas contingências, os meus desígnios cruciantes e penosos?
Pressentia que essa mesma alma houvesse mergulhado num sono profundo, de certa forma eterno. Caber-me-ia, por conseguinte, a mim, dar o grito da revolta.
No entanto, a cada grito que dava, a voz perdia a parca força que ainda resistia dentro de mim. O quarto estava frio, e eu sentia um arrepio maledicente dentro de mim.
Levantei-me com sacrifício e peguei numa vela. A luz fraca da chama da vela mal conseguia iluminar o reduzido espaço onde me encontrava, preso às minhas próprias convicções surdas. Todos os anos de existência sombria perpassaram diante dos meus olhos, como imagens fidedignas desse passado que eu pretendia ofuscar. Mas não tinha forças...
Mirei a única porta do quarto. Uma porta com menos de quarenta centímetros de largura e apenas quinze centímetros de altura. A porta que representava o outro lado do meu ser: o oposto; a libertação; a minha própria explicação. Voltei a fixar o olhar na dita porta: permanecia inalterável, dia após dia, mês após mês, todos os anos da minha curta existência. Outrora, no meu passado, tive a oportunidade de a atravessar, de passar para esse «outro» lado.
Que explicação? Que significado teria aquele sonho na minha vida? A minha vida... Uma vida digerida diariamente, feita de permanentes deambulações condicionadas pelo espaço exíguo e castrante do quarto onde sobrevivia penosamente. Um quarto onde ninguém entrava; onde ninguém queria entrar.
Naquele momento, apertei o meu braço silenciosamente. Tremia de desejo. Sentia uma vontade indizível de sair dali, abandonar aquele quarto, aquele mundo. Ser livre. Voar. Sentir o vento a percorrer-me a face, a penetrar por entre os meus cabelos, outrora livres e sedentos de novas experiências; agora, ressequidos e desventurosos.
Era, de certa forma, uma visão conflituante, contrastante. O perfeito conhecimento do passado dificultava a minha tentativa de desbloqueio. Sentia nas minhas veias essa tentativa estóica, contudo infrutífera.
Subitamente, uma cólera muda começou a trespassar a minha mente; o sangue corria, irado. Seria terror?
«Não!», gritei. Um grito velado, triste, sem a verdadeira pujança de um sentimento e um desejo capazes de mudar o rumo de um caminho aparentemente intransitável.
Curioso... Sentia-me a percorrer um caminho impossível de desbravar... como se a minha alma desmaiasse vagarosamente, a meu pedido implícito. Então, porquê lutar? Porquê tentar fazer algo da minha vida, quando eu próprio assumia e respeitava as suas contingências, os meus desígnios cruciantes e penosos?
Pressentia que essa mesma alma houvesse mergulhado num sono profundo, de certa forma eterno. Caber-me-ia, por conseguinte, a mim, dar o grito da revolta.
No entanto, a cada grito que dava, a voz perdia a parca força que ainda resistia dentro de mim. O quarto estava frio, e eu sentia um arrepio maledicente dentro de mim.
Levantei-me com sacrifício e peguei numa vela. A luz fraca da chama da vela mal conseguia iluminar o reduzido espaço onde me encontrava, preso às minhas próprias convicções surdas. Todos os anos de existência sombria perpassaram diante dos meus olhos, como imagens fidedignas desse passado que eu pretendia ofuscar. Mas não tinha forças...
Mirei a única porta do quarto. Uma porta com menos de quarenta centímetros de largura e apenas quinze centímetros de altura. A porta que representava o outro lado do meu ser: o oposto; a libertação; a minha própria explicação. Voltei a fixar o olhar na dita porta: permanecia inalterável, dia após dia, mês após mês, todos os anos da minha curta existência. Outrora, no meu passado, tive a oportunidade de a atravessar, de passar para esse «outro» lado.
Entrementes, fui crescendo, ficando maior, mais preso a mim mesmo. Fisicamente, já não sou capaz de a transpor. Contudo, desejo-o. Resta saber se possuo as forças necessárias para respeitar esse desejo. Esse desejo que me queima, imperceptivelmente, por dentro, durante todos os segundos que permaneço no quarto. O quarto que, estranhamente, continua a representar a minha vida. Será que algum dia terei coragem suficiente para cortar sem clemência ambos os meus braços? Ou ficarei, para sempre, aprisionado no meu próprio quarto fechado?

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