No Golpe das asas
Voo picado! O feroz pássaro predador lança-se no desconhecido e plana, rasante, sobre a tórrida savana, atento, perscrutador.
Perspicaz, baixa as patas e aguça as garras, prontas a dilacerar mais uma vítima. Esse incauto animal, prestes a ser transformado em presa pelo pássaro, passeia-se, tranquilo, por entre a escassa e fulva vegetação queimada.
A paz que reina na savana, por esses instantes, é ilusória: sem movimentos desesperados, sem gritos de súplica, sem poeira levantada. O terror provém do ar, do céu, cruzado por um azul total e ofuscante. O pássaro fixa o animal terrestre e ataca inapelavelmente. Crava as garras na sua pele desprotegida e soergue-o no ar, imobilizando a criatura por completo. Prossegue o voo, estonteante, ao mesmo tempo que vai matando a presa, no respirar virgem do ar.
Quando desemboca no seu ninho, bem alto, no cimo da maior árvore da savana, o feroz pássaro larga violentamente o pobre animal, moribundo.
O pássaro perdeu o deleite sublime de dar o golpe de misericórdia somente chegado ao ninho. Desinteressou-se perante a agonia angustiante do último suspiro animal. Deixou de apreciar aquele torpor lívido que percorria as vísceras do animal, pouco antes de este se transformar em mais um cadáver naquele antro putrefacto. Coloca, então, a presa mais recente por entre os restos mortais de todas as que a antecederam. Imediatamente após a captura, e a sua subsequente consumação, o pássaro alheia-se da vítima. Não regozija com a captura, nem tão pouco a devora. Fica indiferente. Estranhamente, para além da cessação de mais uma vida, não retira qualquer prazer da caça que efectua. É um mero instinto.
Algo de inexplicável; é impelido a caçar, quase fazendo parte de um impulso puramente carnal; ao mesmo tempo sente-se incapaz de levar por diante um processo que é exclusivamente racional, humano.
E apenas quando o número de carcaças impede o pássaro de despejar mais uma, sob pena de não poder, ele próprio, continuar a viver no meio daquela desilusão cadavérica, é que ele recolhe as asas da liberdade e pensa. Pensa. Pensa.
Conclui, finalmente, que não pode continuar a caçar meros objectos perpetuamente. Não pode manter a simples imanência do prazer. Tem que dar o próximo passo. Decidido, contudo confuso, o feroz pássaro lança-se em nova e derradeira caçada. Persegue a presa. Fita-a… sedento da sua morte! A custo, ultrapassa esse pensamento frívolo. Detém-se. Eleva-se nos céus, aproximando-se do sol escaldante, mortífero.
Num derradeiro laivo de lucidez, desfaz a elevação e inicia uma descida veloz, vertiginosa. Sente o perigo, o seu fim; a extinção da sua espécie.
Volta a fitar a mesma presa e ataca-a. Uma vez capturada, ao de leve, no entanto segura, transporta-a para o nauseabundo ninho. Larga-a.
Perante a total e temerosa imobilidade da vítima, o pássaro dá um salto para a frente e encara-a, resoluto.
- Preciso que me quebre as asas.
A presa, não refeita do susto e do medo, não responde.
- Preciso que me quebre as asas. Ambas… – Coloca-se diante dela e estica as asas, sobre o dorso. Afaga as penas, num desconcertante ritual de tristeza profunda.
- Quer que lhe retire a liberdade? – Pergunta a ingénua presa, por fim.
- Não. Quero que me ofereça a felicidade plena.
Perante aquela resposta, repleta de significação implícita e ardorosa, a presa, num golpe seco e decidido, inutiliza ambas as asas do pássaro.
- E agora? – Pergunta a presa, perante o sofrimento contido do pássaro.
Perspicaz, baixa as patas e aguça as garras, prontas a dilacerar mais uma vítima. Esse incauto animal, prestes a ser transformado em presa pelo pássaro, passeia-se, tranquilo, por entre a escassa e fulva vegetação queimada.
A paz que reina na savana, por esses instantes, é ilusória: sem movimentos desesperados, sem gritos de súplica, sem poeira levantada. O terror provém do ar, do céu, cruzado por um azul total e ofuscante. O pássaro fixa o animal terrestre e ataca inapelavelmente. Crava as garras na sua pele desprotegida e soergue-o no ar, imobilizando a criatura por completo. Prossegue o voo, estonteante, ao mesmo tempo que vai matando a presa, no respirar virgem do ar.
Quando desemboca no seu ninho, bem alto, no cimo da maior árvore da savana, o feroz pássaro larga violentamente o pobre animal, moribundo.
O pássaro perdeu o deleite sublime de dar o golpe de misericórdia somente chegado ao ninho. Desinteressou-se perante a agonia angustiante do último suspiro animal. Deixou de apreciar aquele torpor lívido que percorria as vísceras do animal, pouco antes de este se transformar em mais um cadáver naquele antro putrefacto. Coloca, então, a presa mais recente por entre os restos mortais de todas as que a antecederam. Imediatamente após a captura, e a sua subsequente consumação, o pássaro alheia-se da vítima. Não regozija com a captura, nem tão pouco a devora. Fica indiferente. Estranhamente, para além da cessação de mais uma vida, não retira qualquer prazer da caça que efectua. É um mero instinto.
Algo de inexplicável; é impelido a caçar, quase fazendo parte de um impulso puramente carnal; ao mesmo tempo sente-se incapaz de levar por diante um processo que é exclusivamente racional, humano.
E apenas quando o número de carcaças impede o pássaro de despejar mais uma, sob pena de não poder, ele próprio, continuar a viver no meio daquela desilusão cadavérica, é que ele recolhe as asas da liberdade e pensa. Pensa. Pensa.
Conclui, finalmente, que não pode continuar a caçar meros objectos perpetuamente. Não pode manter a simples imanência do prazer. Tem que dar o próximo passo. Decidido, contudo confuso, o feroz pássaro lança-se em nova e derradeira caçada. Persegue a presa. Fita-a… sedento da sua morte! A custo, ultrapassa esse pensamento frívolo. Detém-se. Eleva-se nos céus, aproximando-se do sol escaldante, mortífero.
Num derradeiro laivo de lucidez, desfaz a elevação e inicia uma descida veloz, vertiginosa. Sente o perigo, o seu fim; a extinção da sua espécie.
Volta a fitar a mesma presa e ataca-a. Uma vez capturada, ao de leve, no entanto segura, transporta-a para o nauseabundo ninho. Larga-a.
Perante a total e temerosa imobilidade da vítima, o pássaro dá um salto para a frente e encara-a, resoluto.
- Preciso que me quebre as asas.
A presa, não refeita do susto e do medo, não responde.
- Preciso que me quebre as asas. Ambas… – Coloca-se diante dela e estica as asas, sobre o dorso. Afaga as penas, num desconcertante ritual de tristeza profunda.
- Quer que lhe retire a liberdade? – Pergunta a ingénua presa, por fim.
- Não. Quero que me ofereça a felicidade plena.
Perante aquela resposta, repleta de significação implícita e ardorosa, a presa, num golpe seco e decidido, inutiliza ambas as asas do pássaro.
- E agora? – Pergunta a presa, perante o sofrimento contido do pássaro.
- Agora, viveremos do alimento que nos resta. Quando esse se esgotar, encontraremos uma outra forma de viver. Uma razão. Os dois.

<< Home