Morte dupla
A chuva bate lá fora, limpando os meus pensamentos: sonhos de outrora. Uma vida passada; quando eu não era teu.
Ouço as gotas a baterem na janela de madeira já gasta, e penso no caminho que percorri até aqui chegar.
Na minha cama me estendo, quente, leve, profundamente amado. Estás deitada do meu lado, adormecida, como um ser que se projecta no infinito e se mantém lá, suspenso. É a tua magia – a arte do teu toque impalpável.
Ouço agora o vento que docemente fustiga as árvores e as folhas que aguentam toda a sua pujança dócil. É um remorejar melódico, transparente, que me leva no seu ventre até lugares inatingíveis da minha memória passada. Uma vivência que recordo com saudade. Um peso que carrego sobre os meus ombros, como um fardo de que não nos podemos libertar.
O sibilar do vento recrudesce em mim uma noção de nostalgia amargurada; um sentimento estranho, semelhante à ideia de ter vivido em vão, de não ter agarrado o meu ser verdadeiramente – de não ter sido capaz de seguir o caminho que me fora destinado. Sempre confiei em Deus, na Sua força, no Seu amor incondicional. No entanto, nunca me deixei depender Dele. Talvez por isso não tenha vivido plenamente.
Lanço um olhar ao teu cabelo desprendido e contraio os meus lábios secos.
Recordo o último beijo que troquei com o rio que banha a nossa casa. A sua água, morna no verão, gélida no inverno; o seu caudal sempre abundante.
Novo som, lá fora. Os sons de Deus. O ramo da árvore que se entrelaça; o roçagar das folhas avermelhadas, débeis.
No céu, as nuvens confundem-se, como marinheiros trajando todos a mesma farda uniforme. Saltam, ululam, engrossam e descarregam a sua imensa fúria incontida.
Permaneço a contemplá-las, sombrio. Porque chove? Talvez pela mesma razão que faz existir a tristeza. E, por isso, a felicidade só será eterna após o partir. Como o sol, que só pode brilhar intensamente e sem cessar dentro dos nossos corações. Como um paradoxo. O paradoxo de sentir dois corpos mutilados pela morte. Um a sonhar. O outro, simplesmente, a dormir.
Ouço as gotas a baterem na janela de madeira já gasta, e penso no caminho que percorri até aqui chegar.
Na minha cama me estendo, quente, leve, profundamente amado. Estás deitada do meu lado, adormecida, como um ser que se projecta no infinito e se mantém lá, suspenso. É a tua magia – a arte do teu toque impalpável.
Ouço agora o vento que docemente fustiga as árvores e as folhas que aguentam toda a sua pujança dócil. É um remorejar melódico, transparente, que me leva no seu ventre até lugares inatingíveis da minha memória passada. Uma vivência que recordo com saudade. Um peso que carrego sobre os meus ombros, como um fardo de que não nos podemos libertar.
O sibilar do vento recrudesce em mim uma noção de nostalgia amargurada; um sentimento estranho, semelhante à ideia de ter vivido em vão, de não ter agarrado o meu ser verdadeiramente – de não ter sido capaz de seguir o caminho que me fora destinado. Sempre confiei em Deus, na Sua força, no Seu amor incondicional. No entanto, nunca me deixei depender Dele. Talvez por isso não tenha vivido plenamente.
Lanço um olhar ao teu cabelo desprendido e contraio os meus lábios secos.
Recordo o último beijo que troquei com o rio que banha a nossa casa. A sua água, morna no verão, gélida no inverno; o seu caudal sempre abundante.
Novo som, lá fora. Os sons de Deus. O ramo da árvore que se entrelaça; o roçagar das folhas avermelhadas, débeis.
No céu, as nuvens confundem-se, como marinheiros trajando todos a mesma farda uniforme. Saltam, ululam, engrossam e descarregam a sua imensa fúria incontida.
Permaneço a contemplá-las, sombrio. Porque chove? Talvez pela mesma razão que faz existir a tristeza. E, por isso, a felicidade só será eterna após o partir. Como o sol, que só pode brilhar intensamente e sem cessar dentro dos nossos corações. Como um paradoxo. O paradoxo de sentir dois corpos mutilados pela morte. Um a sonhar. O outro, simplesmente, a dormir.

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