sábado, outubro 07, 2006

Espesso sangue

Entrei. Assim que os meus olhos se adaptaram ao novo ambiente, apercebi-me que o espaço interior era sombrio, quase surreal. Sentia-se um leve aroma a raridade, algo de excepção, como um odor dulcíssimo a sabedoria ancestral, salpicada de suaves partículas de um ardor reconfortante e embalador. No entanto, claramente um ardor sublevado, não perceptível ao olfacto de qualquer ser humano...
Ainda com os meus sentidos numa espécie de transe melífero, dei alguns passos até avistar um homem baixo, curvado, de parco cabelo branco, que se dirigia ao meu encontro, vagarosamente. Subitamente, receei o confronto físico e frontal.
- Esperei-o durante anos... – A sua voz soou cava, parecendo provir dos fundos escondidos e incomensuráveis da Terra.
- Temi este momento – redargui, sem pensar, e com a saliva a escassear na minha boca.
O pequeno homem afivelou um suave sorriso de beatitude e fez um gesto com a palma da mão. Segui-o, tremente.

A passos estudados, curtos, e de dedos enclavinhados no ventre, aquela estranha criatura percorreu um comprido corredor que se estendia para lá da entrada. Alcançámos uma estreita escada de pedra, em caracol, e descemos. Quando parámos de descer, os meus olhos abriram-se desmesuradamente. Estaquei, perplexo. Ligeiramente à frente, e como que adivinhando a minha reacção estupefacta, o homem rodou o pescoço, para, numa expressão algures entre a mofa e o assentimento, me indicar o caminho, sempre a secundá-lo. Por instantes, inopinadamente, senti que algo me ligava àquele lugar. Algo... Mas, o quê?
À medida que fui progredindo, pude apreciar o novo compartimento: baixo, muito baixo, isolado, sem qualquer foco de luz exterior, natural, e com dezenas de pequenos quartinhos solitários onde se vislumbravam outras pessoas. Isso mesmo, pessoas! Pareciam totalmente alheadas deste Mundo e de um outro; presas apenas pela gravidade sugadora da Terra. Compenetrados, de rostos postados nas mesas que se desenhavam diante de cada uma delas, estavam numa espécie de estado hipnótico profundo. Gestos quase maquinais, ao mesmo tempo libidinosos, apaixonados; rotações constantes com as mãos; fechares de olhos deleitosos; sorrisos escarninhos; arqueares das sobrancelhas; rangeres de dentes; degustações sublimes e etéreas... Que visão!
Cada uma daquelas pessoas parecia ter atingido a perfeição espiritual, metafórica, mitológica. Alheados do Mundo – uns escolhiam o líquido; outros, o copo; ainda outros vertiam carinhosamente uma espécie de sangue agridoce para dentro de um copo de pé alto, enorme, cristalino. Contudo, era evidente que aqueles que levavam o respectivo copo aos lábios e deixavam que o espesso líquido os preenchesse interiormente, eram os mais ambiciosos, e os que revelavam um prazer corpóreo mais subtil...
«Já estive ali!». As imagens violentaram-me.

O meu pensamento longínquo foi interrompido pela voz surda do meu guia.
- Diferentes fases. Estados díspares. Cada um numa união perfeita, ajustada à própria capacidade momentânea.
Franzi o cenho, numa interrogação muda. Incompreensão. O que era aquilo, afinal?
- Vejo que não estava à espera... – soltou, novamente, olhando-me de soslaio.
- Não...
- Contudo, afirmou que sempre temera este momento... – e sorriu monasticamente.
- Sim...
- Compreensível. – Levou o dedo ao lábio, sabiamente. – Tememos o que compreendemos. Assustamo-nos com o que desconhecemos. Venha. Compreenda...
«E temerei!», pensei, de mim para mim.

O que vi de seguida não tem explicação; pelo menos, eu não a tenho. O ar que se respirava dentro daquela sala era seco. Contrastava com todo o ambiente em nosso redor – algo semelhante a um ninho; um ninho de magia e sonho.
Sob uma luz bruxuleante, de um azulado quente e acolhedor, várias séries de prateleiras estendiam-se geometricamente, em diversos tons acastanhados.
- A minha Família! – revelou, imbuído de um prazer contagiante.
Fixei o seu rosto. Aquele rosto de velho, com a cabeça coberta de cabelos brancos que escasseavam no cocuruto, orelhas alerta, e um olhar refulgente que mirava o que parecia o seu mundo invisível.
- Todas aquelas pessoas que viu lá fora, desejam alcançar aquilo que aqui tenho. – Dei alguns passos. Segui-o. – Demorei anos. Passei por cada uma daquelas fases. A aprendizagem, a escolha, o treino, a oxigenação, a decantação, a degustação, o preparo, a feitura... Uma vida. – Interrompeu-se, como que assolado por um sentimento ou uma experiência transcendente. – Para ter o que aqui vê. – Nova pausa. – A minha Família...
«Sinto uma força que me impele ao seu contacto, a um abraço caloroso!...». Estranheza.
Tive vontade de lhe fazer centenas de perguntas. No entanto, perante a sua atitude, preferi esperar que continuasse. Eu próprio me sentia perdido naquele lugar tão inexplicável e doentio.
- Cada uma das celas que teve oportunidade de ver, constitui uma potencial Família. É lá que cada um de “nós” vive, individualmente, as diferentes fases por que tem que passar – desde a concepção ao crescimento, à concretização, e, por fim, ao casamento. É um processo moroso, desgastante e exigente. Mas é a nossa vida, o nosso sonho. Isso basta-nos. – Olhou para as garrafas que tínhamos diante de nós e sorriu paternalmente. – Os meus filhos! Cada um deles diferente do outro; contudo, todos eles criados com o mesmo amor e a mesma dedicação. Uns pousados em madeiras quentes que os mantêm ao abrigo do frio que não suportam; como um casulo morno. Outros cobertos por um espesso pó, porque é assim que se sentem vivos. Há ainda aqueles que são alérgicos aos cheiros. Esses mantenho-os além. – Apontou para uma prateleira de cor acizentada. – É feita de um material que não exala qualquer odor perturbante. E, assim, protege-os, como uma mãe que protege um filho que venera...
Sem saber, estávamos diante dessa mesma prateleira, a olhar para um espaço vazio.
«Um casulo sem a sua larva!», exclamei, mudamente.
Senti um frémito incontrolável, uma sensação de profunda pertença. A criatura em forma de velho olhou-me com uns olhos aguados e abriu os braços. Senti uma língua gigante a percorrer as minhas veias. A degustação! Olhei-o, e exclamei:
- Pai!

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