segunda-feira, outubro 16, 2006

Confissão de uma pomba

Confesso. Não os pecados; não a culpa. Confesso ao ar que me rodeia e que eu respiro com sofreguidão e ardor. Confesso aos pássaros que cantam por entre os ramos das árvores. Confesso ao vento que sibila e provoca nos ouvidos uma sensação de quietude, de harmonia e paz. O contraste que essa sensação provoca em mim é produzido na minha cabeça, no mais recôndito do âmago. Por isso é interior. Real. Tão real que quase me confunde. Mas logo redescubro a origem do contraste, apercebendo-me da sua existência. Aí, recuo. Não sei o que fazer. Tenho medo. Receio. Receio o que passou; temo o que há-de vir. Confesso-o. Aliás, confesso-me. Sou o penitente; serei o juíz. E, por isso, confesso à natureza que me acorrenta, que me transforma num prisioneiro dos meus próprios sentimentos. Sentimentos pueris.
Só que são os meus, são os que possuo, logo, os únicos que posso julgar.
Digo que sim; afirmou, perante todoss, que não! Engano-vos. Contudo, não me engano. Resguardo-me. Invento o que não sinto dentro de mim, defendendo-me. Do quê? Nem eu sei. Talvez do sentimento. Mas, porquê, realmente? Porquê, se o sinto, se o desejo?
A verdade é que não o procuro. Ah!, essa verdade; a verdade que eu confesso. Confesso, porque a sinto. É simplesmente «a verdade». E é a minha... só minha.
No fundo, admito tratar-se de receio. Um receio malévolo que inibe e corta o passo. Trava o caminho do meu ser, da minha existência.
No entanto, por que receio, se o ambiciono?
Ambiciono o quê, se não sei o que receio?
Receio? Medo? Pavor!

Eis que os pássaros chilreiam a razão, colocando ao vento a solução. A mesma razão que o vento leva, afastando-a de mim. Apesar de escrever ao sabor dele e do seu rumorejar suave e melódico, não escrevo o que ele me diz - porque sou incapaz de o compreender. Escrevo antes a sua calma, não o significado ou o que a motiva. Sou influenciado pelo vento. E nós somos o fruto das influências que sofremos. E eu sofro.
Olho para o sol, que é ameaçador, e fecho os olhos. Ardor, ardor! Dor... Pavor.
Olho para o céu e não vejo o vento. Percebo a diferença. O sol ilumina-nos mas não nos deixa olhar para ele. Somos tímidos. Ao vento, não o vemos, mas ele fala connosco, através da mensagem dos pássaros que cantam.
Fixo ainda o céu. Está escuro, agora. A noite caiu violentamente, por entre um fechar e um abrir de olhos.
O vento sente-se, mas já não se ouve. Estranho. Vejo três pombas a cruzar o céu. Mais tarde, uma outra, sozinha. De repente, uma imensidão de pombas cruza o céu que miro. Estonteado pela beleza da sua harmonia, sorrio. Com prazer, deleite. Pouco depois, passa uma outra pomba, novamente sozinha. Aí compreendo. Só então a luz do sol faz sentido. Timidez. Solidão. Sol. Vento. Procuro a mulher que olhe para o céu ao mesmo tempo que eu, e que veja a mesma pomba. Só assim ela não estará sozinha.
A pomba, sou eu.

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