terça-feira, outubro 03, 2006

Caminhos Paralelos

Encontro-me deitado, com a tua fotografia de outrora do meu lado. Estás vestida de azul, provocando uma estranha e peculiar confusão entre o teu corpo e o céu que te envolve. Corpo azul. Céu. Procuro refúgio em ti, no teu rosto de papel brilhante e colorido. É a nostalgia que me falta. A fotografia que não tenho. A prova que não possuo. Assim, quando morrer, irei para sempre; desaparecerei de vez, sem deixar rasto. Marca, talvez. Rasto, não. Nunca. Quiçá, a minha forma derradeira de demonstrar o meu egoísmo, mesmo depois do último suspiro. Curioso, então, entender-te. O quarto – onde durmo –, a sala – onde partilhamos a comida –, o outro quarto – vazio –, o corredor – que nos une –; todos estes espaços estão cobertos de fotografias tuas. Vaidade? Não somente...
A vaidade é interior ao ser humano; exteriormente, é imagem. Interior. Exterior. Dicotomia. Busílis. A fotografia é o traço da nossa identidade; o reflexo da nossa alma – saudosista. Uma existência dentro da existência ela própria. Como um espelho que reflecte a sua própria imagem, para além do objecto real. Uma cópia fiel. Objecto. Interior. Exterior. Descendência. Carne da carne. O fruto da comunhão. Esse sim, pode ser fotografado. Pode construir o seu caminho. E relembrar-me, no dele, depois do meu terminar. A memória do futuro passado. O presente esquecido, na memória do futuro não vivido. O tempo onde os nossos caminhos se fundirão, enfim, definitivamente. No eterno sentido.

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