quarta-feira, outubro 25, 2006

Busílis

Não consigo. Não tenho conseguido … e sinto-me impotente para contrariar essa tendência incapacitante. É duro. Queima. Faz-me sentir um mero peão num xadrez confuso e propenso ao engano. Sou assolado por uma inconstância que me assusta e descaracteriza pejorativamente; reduz-me, esquadrinha-me.
Não consigo. Tento e é infrutífero. Por ironia, sinto-me condicionado por determinadas vicissitudes controláveis e ajustáveis. Temo ter sido demasiado leviano, imprudente. Acabei por me julgar, no erro da caracterização; e acabei como os que o fizeram – separado de mim. Sinto uma força que desvanece, que me abandona - frívola.
Não consigo. A linha é diáfana, segura-me por cordas invisíveis, impalpáveis; quiçá, inexistentes. No fundo, as minhas cordas; aquelas que me sustentam estoicamente, mas que ameaçam quebrar ante a força que sobre elas é exercida. Força essa que já não controlo. Força que deixei de saber utilizar de forma doseada.
Uma vez mais, encontro-me numa região híbrida, quase surreal. De um lado e do outro, zonas antagónicas, brutalmente díspares; assustadoras. De um lado, o sucesso. Do outro, o fracasso. Estou suspenso sobre o desfiladeiro, ao sabor de um vento que me vai rasgando a pele, pela espera. Porque espero que as cordas quebrem, finalmente? Do que receio? Será assim tão difícil diferenciar o lógico?!; olhar para baixo, temerariamente, e decidir?
Apenas porque temo a queda prematura?....

quinta-feira, outubro 19, 2006

Outro ser

Os pensamentos cercam-me
Como blocos de gelo gigantes
Apertam-me num trejeito interior
Causando desgaste, que me obriga a isolar

Sem nunca ter tomado consciência
Do que fui, de quem era, e de quem seria
Deixei-me levar, sempre com a convicção
De que só assim me alcançaria

Curiosa foi a mutação do eu
Mundo, deixei de o construir
Passei a partilhá-lo com os demais
Que estoicamente do meu lado aguentaram

Para que o derradeiro passo seja dado
E as cinzas que o vento carregou
Nunca mais regressem com a tempestade
Um caminho tão curto é desbravado

Dentro de mim sinto
Finalmente posso dizê-lo
A ti e a todos que me quiserem ouvir
Algo que o eco se encarregará de reproduzir

quarta-feira, outubro 18, 2006

Primeiro encontro

«Numa festa esquisita e monótona, Nöel teve o brilhante discernimento de nos apresentar. Sam, Vera Flambeau. Prazer, disse-lhe. Encantado, foi a sua resposta, num inglês moderado. Aquele lânguido e vagaroso encolher dos lábios quando pronunciou a dita palavra mágica foi o primeiro golpe que Sam deu na minha vida. Por uma razão totalmente inexplicável, diante de um homem pouco atractivo, dei por mim com as pernas a tremer e com dificuldades em proferir alguma palavra em inglês ou em francês que não soasse a estupidez ou a conversa fiada feminina. É óbvio que eu já o conhecia de nome, todos conhecíamos Samuel B. Melillo, o jovem e promissor investigador britânico, contudo, não fui capaz de esconder o meu nervosismo inicial. O seu nome começava a aparecer em jornais e revistas universitárias que inundavam as páginas com ele, fazendo, amiúde, referência ao «bê ponto» do seu nome intermédio, magicando na remota e humorística possibilidade de se tratar de um discípulo de Samuel Beckett, o grande escritor inglês. Mais tarde, pude concluir que não passava de uma peculiar ironia do destino, reforçada pelo facto de Sam ser efectivamente um apaixonado de Beckett.
Se algum dia sentisse necessidade de pedir explicações a alguém por tudo aquilo que me aconteceu ao longo da minha vida, essa pessoa seria certamente Nöel Durrand, o homem que, naquela festa longínqua, num mês de Março, me colocou diante de Sam, numa verdadeira rota de colisão. Demasiado tarde; Nöel está morto e eu não posso pedir explicações a mais ninguém do que a mim própria.»
in «Reinventar a memória» (excerto do Capítulo 1, Parte I)

terça-feira, outubro 17, 2006

Nova alma

Sou uma farsa. Desengane-se aquele que julga que me conhece – nem muito, nem pouco; não sou mensurável. É um conhecimento mutável, maleável, indirecto. Um conhecimento do não-saber.
Foi aqui que me perdi, verdadeiramente. Escondi-me, temerário, sem antever as consequências ulteriores. Talvez tenha sido demasiado ambicioso, confesso; admito. Caí no erro da minha projecção perfeita – uma existência impossível de consubstanciar; de suportar dia após dia, saudavelmente. Percorri estágios de uma plenitude egoística assombrosa, inimaginável, indescritível – momentos de valia auto-existencial; de pureza sublime e suficiente. Jamais esquecerei isso. E logo caía, contudo, em fases negras, dissimuladas intelectualmente. Fases de uma dependência atroz, violenta, insustentável. Sem leveza. Sempre imperceptível ao mundo – esse era o desafio último; o único enxergável. Uma barreira que me defendia do mundo, porque me afastava dele, progressivamente, ao mesmo tempo que me enterrava nas profundezas incomensuráveis do meu ser mais recôndito, inatingível, existencialista e indiferente. Uma projecção enquanto renúncia de uma existência cada vez mais modelada, mais pensada, mais disfarçada.
Uma farsa! Porquê?
Soubesse eu... e não estaria, hoje, a recolher pedaços de mim, esquadrinhados, pisados, perdidos imperceptivelmente em cada um de vós. Fui-me dando, sem saber, e sem que vocês o notassem. Perdi duplamente; vocês ganharam julgando que esse ganho partia do vosso âmago.
Congratulo-me; alegro-me em presença dessa condição hedionda – porque unicamente para mim. Protegi-vos sem o querer. Destrui-me, por sinal, também enganado por mim mesmo. Farsa... Farsa... Farsa...
Será possível distinguí-la na minha vida? Perceber onde acaba e onde começou? Sinto que acabou... mesmo sem saber onde terá começado. Talvez desde sempre... Talvez para sempre... Mesmo que continue enganado, na farsa da farsa. Ainda assim, e no limite da minha existência, por muitos julgada e por ninguém «assimilada» – e atenção que utilizo a palavra «assimilada» e não «compreendida»... –, que seja uma farsa alegre, alegórica. Sem logro. Assumo.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Confissão de uma pomba

Confesso. Não os pecados; não a culpa. Confesso ao ar que me rodeia e que eu respiro com sofreguidão e ardor. Confesso aos pássaros que cantam por entre os ramos das árvores. Confesso ao vento que sibila e provoca nos ouvidos uma sensação de quietude, de harmonia e paz. O contraste que essa sensação provoca em mim é produzido na minha cabeça, no mais recôndito do âmago. Por isso é interior. Real. Tão real que quase me confunde. Mas logo redescubro a origem do contraste, apercebendo-me da sua existência. Aí, recuo. Não sei o que fazer. Tenho medo. Receio. Receio o que passou; temo o que há-de vir. Confesso-o. Aliás, confesso-me. Sou o penitente; serei o juíz. E, por isso, confesso à natureza que me acorrenta, que me transforma num prisioneiro dos meus próprios sentimentos. Sentimentos pueris.
Só que são os meus, são os que possuo, logo, os únicos que posso julgar.
Digo que sim; afirmou, perante todoss, que não! Engano-vos. Contudo, não me engano. Resguardo-me. Invento o que não sinto dentro de mim, defendendo-me. Do quê? Nem eu sei. Talvez do sentimento. Mas, porquê, realmente? Porquê, se o sinto, se o desejo?
A verdade é que não o procuro. Ah!, essa verdade; a verdade que eu confesso. Confesso, porque a sinto. É simplesmente «a verdade». E é a minha... só minha.
No fundo, admito tratar-se de receio. Um receio malévolo que inibe e corta o passo. Trava o caminho do meu ser, da minha existência.
No entanto, por que receio, se o ambiciono?
Ambiciono o quê, se não sei o que receio?
Receio? Medo? Pavor!

Eis que os pássaros chilreiam a razão, colocando ao vento a solução. A mesma razão que o vento leva, afastando-a de mim. Apesar de escrever ao sabor dele e do seu rumorejar suave e melódico, não escrevo o que ele me diz - porque sou incapaz de o compreender. Escrevo antes a sua calma, não o significado ou o que a motiva. Sou influenciado pelo vento. E nós somos o fruto das influências que sofremos. E eu sofro.
Olho para o sol, que é ameaçador, e fecho os olhos. Ardor, ardor! Dor... Pavor.
Olho para o céu e não vejo o vento. Percebo a diferença. O sol ilumina-nos mas não nos deixa olhar para ele. Somos tímidos. Ao vento, não o vemos, mas ele fala connosco, através da mensagem dos pássaros que cantam.
Fixo ainda o céu. Está escuro, agora. A noite caiu violentamente, por entre um fechar e um abrir de olhos.
O vento sente-se, mas já não se ouve. Estranho. Vejo três pombas a cruzar o céu. Mais tarde, uma outra, sozinha. De repente, uma imensidão de pombas cruza o céu que miro. Estonteado pela beleza da sua harmonia, sorrio. Com prazer, deleite. Pouco depois, passa uma outra pomba, novamente sozinha. Aí compreendo. Só então a luz do sol faz sentido. Timidez. Solidão. Sol. Vento. Procuro a mulher que olhe para o céu ao mesmo tempo que eu, e que veja a mesma pomba. Só assim ela não estará sozinha.
A pomba, sou eu.

sábado, outubro 14, 2006

Morte dupla

A chuva bate lá fora, limpando os meus pensamentos: sonhos de outrora. Uma vida passada; quando eu não era teu.
Ouço as gotas a baterem na janela de madeira já gasta, e penso no caminho que percorri até aqui chegar.
Na minha cama me estendo, quente, leve, profundamente amado. Estás deitada do meu lado, adormecida, como um ser que se projecta no infinito e se mantém lá, suspenso. É a tua magia – a arte do teu toque impalpável.
Ouço agora o vento que docemente fustiga as árvores e as folhas que aguentam toda a sua pujança dócil. É um remorejar melódico, transparente, que me leva no seu ventre até lugares inatingíveis da minha memória passada. Uma vivência que recordo com saudade. Um peso que carrego sobre os meus ombros, como um fardo de que não nos podemos libertar.
O sibilar do vento recrudesce em mim uma noção de nostalgia amargurada; um sentimento estranho, semelhante à ideia de ter vivido em vão, de não ter agarrado o meu ser verdadeiramente – de não ter sido capaz de seguir o caminho que me fora destinado. Sempre confiei em Deus, na Sua força, no Seu amor incondicional. No entanto, nunca me deixei depender Dele. Talvez por isso não tenha vivido plenamente.
Lanço um olhar ao teu cabelo desprendido e contraio os meus lábios secos.
Recordo o último beijo que troquei com o rio que banha a nossa casa. A sua água, morna no verão, gélida no inverno; o seu caudal sempre abundante.
Novo som, lá fora. Os sons de Deus. O ramo da árvore que se entrelaça; o roçagar das folhas avermelhadas, débeis.
No céu, as nuvens confundem-se, como marinheiros trajando todos a mesma farda uniforme. Saltam, ululam, engrossam e descarregam a sua imensa fúria incontida.
Permaneço a contemplá-las, sombrio. Porque chove? Talvez pela mesma razão que faz existir a tristeza. E, por isso, a felicidade só será eterna após o partir. Como o sol, que só pode brilhar intensamente e sem cessar dentro dos nossos corações. Como um paradoxo. O paradoxo de sentir dois corpos mutilados pela morte. Um a sonhar. O outro, simplesmente, a dormir.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Revelação

«Explodi interiormente. Aquele relato de Caroline fez-me vacilar. Senti-me ruborizar, possuído por uma cólera impiedosa, funesta. Embora eu tivesse – de certa forma – previsto este desenlace, jamais imaginei ser confrontado com ele de forma tão directa – e, se calhar, tão tardiamente. Agora, Caroline era também um alvo! E eu era o muro que se opunha e separava ambos os lados da verdade. Na minha cabeça, pouco ou nada fazia sentido, de novo! A imagens de Caroline sorridente, seguiam-se outras com ela a chorar nos meus braços e a ser alvejada, ignobilmente, pelas costas. Procurei controlar-me, recuperar alguma clarividência. Em vão; as peças do outrora estranho e confuso puzzle desprendiam-se umas das outras, mesmo diante dos meus olhos, e perante a minha total passividade. Cheguei a pensar que Caroline tivera razão quando me aconselhara a abandonar o caso. Mas eu sabia que não podia fazê-lo! Não então; muito menos agora! Se o emaranhado de dúvidas que eu sentia até ter entrado em casa me fizera refrear o ímpeto e imputar toda a responsabilidade à polícia britânica, aquele colocar de Caroline em risco fez-me esquecer tudo isso. Apesar de toda aquela emoção descontrolada, foi naquele momento que percebi o meu destino. Eu iria até ao fim! Até às últimas consequências! Estava disposto a arriscar a minha vida para atingir um determinado fim. Teria, somente, que retirar Caroline do caminho, e manter-me inflexível e... cruel! Aquela ameaça não podia ter acontecido sem um motivo muito forte; uma razão que ultrapassasse a própria realidade – ou aquela que nós apalpavamos. Caroline, James, e eu próprio, éramos intimidados depois da polícia ter prendido preventivamente quatro suspeitos. No mínimo, estranho. Certo era que alguém continuava a sentir-se em perigo, apesar dos últimos «desenvolvimentos». Mas quem? Quem?! A resposta era demasiado ambígua e abrangente. Tanto poderia ser um dos suspeitos presos, como não. Se fosse um dos suspeitos, alguém de fora ficara com medo, aterrorizado pela iminência da descoberta de algo. Sim, porque como dissera Fleming, a informação não seria divulgada durante as próximas horas. O que indicava que, ou alguém se tinha adiantado, ou alguém se tinha precipitado. A nuvem que ainda envolvia o caso voltou a descer sobre ele, adensando-se, tornando a visão turva, espasmódica, como que entrando no meu cérebro e impedindo o seu regular funcionamento. Mantive Caroline perto de mim por mais alguns minutos. Quando estava mais calma e sossegada, levantei-lhe a cabeça e olhei profundamente os seus olhos húmidos, desalentados, incrédulos.»
in «Verdades» (excerto do capítulo XXXV, II Parte)

quinta-feira, outubro 12, 2006

Lágrimas de sonho

Com o vento a bater-me no rosto, olho para cima e miro as nuvens que se distribuem aleatoriamente sobre o azul do céu, agora suavemente tingido de cinzento. São nuvens rugosas, ásperas ao contacto que se estabelece quando me elevo e lhes toco com a palma da minha mão. Essas nuvens parecem conversar entre si; ciciar ao ouvido umas das outras uma qualquer história de embalar. Subitamente, imagino-me deitado sobre elas, como em uma cama toda ela feita de algodão. A mutação do meu pensamento perante o mesmo objecto tem a ver com a sua cor: ora mais pálida e clara, ora enegrecida como um manto aveludado. Eis, então, que se estabelece uma conversa silenciosa; deixaram de falar, de comunicar entre si.
Especado, fico a vê-las, embora já não as ouça. Provavelmente, notaram a minha presença interessada. É curioso... Enquanto me mantive invisível, distante dos seus olhares compenetrados, revelaram interesse em que eu ouvisse o que estavam a dizer. Parecia, até, que o desejavam: «ouve, ouve o que temos a dizer-te... Queremos que o saibas.» Imediatamente após o meu olhar ingénuo, meramente intuitivo e inocente, temeram-me. Recuaram no propósito explícito que defendiam. Quiseram retirar-me a legitimidade que me fora concedida, por elas mesmas. Incompreendido, magoado, iniciei uma marcha tímida, quase angustiante. Fui envolvido por uma tristeza companheira, fraterna. Deixei-me recolher pelo seu sussurro melódico e melancólico. Parecia a companheira ideal. Aquela que me faria sentir livre, tão leve quanto o vento. E, quando me senti assim, sonhei que me elevava no céu e que tocava nas nuvens, paradas, expectantes, desejosas do meu calor. Inexplicavelmente, acordei do sonho estatelado sobre a areia grossa e escaldante de uma praia sem lugar neste mundo, sem mar. Uma praia desértica, interminável ao olhar.
Só quando acordei, me apercebi que estivera todo o tempo com a mão direita fechada, sobre o meu peito, apertado pelo sentimento que me queimava. Arfei. Receoso, abri-a; pequenas e esparsas gotículas de um líquido que outrora fora água, deslizaram sobre a superfície da minha palma. Eram lágrimas. Lágrimas que havia derramado no meu sonho. Um sonho quase perfeito.

quarta-feira, outubro 11, 2006

No Golpe das asas

Voo picado! O feroz pássaro predador lança-se no desconhecido e plana, rasante, sobre a tórrida savana, atento, perscrutador.
Perspicaz, baixa as patas e aguça as garras, prontas a dilacerar mais uma vítima. Esse incauto animal, prestes a ser transformado em presa pelo pássaro, passeia-se, tranquilo, por entre a escassa e fulva vegetação queimada.
A paz que reina na savana, por esses instantes, é ilusória: sem movimentos desesperados, sem gritos de súplica, sem poeira levantada. O terror provém do ar, do céu, cruzado por um azul total e ofuscante. O pássaro fixa o animal terrestre e ataca inapelavelmente. Crava as garras na sua pele desprotegida e soergue-o no ar, imobilizando a criatura por completo. Prossegue o voo, estonteante, ao mesmo tempo que vai matando a presa, no respirar virgem do ar.
Quando desemboca no seu ninho, bem alto, no cimo da maior árvore da savana, o feroz pássaro larga violentamente o pobre animal, moribundo.
O pássaro perdeu o deleite sublime de dar o golpe de misericórdia somente chegado ao ninho. Desinteressou-se perante a agonia angustiante do último suspiro animal. Deixou de apreciar aquele torpor lívido que percorria as vísceras do animal, pouco antes de este se transformar em mais um cadáver naquele antro putrefacto. Coloca, então, a presa mais recente por entre os restos mortais de todas as que a antecederam. Imediatamente após a captura, e a sua subsequente consumação, o pássaro alheia-se da vítima. Não regozija com a captura, nem tão pouco a devora. Fica indiferente. Estranhamente, para além da cessação de mais uma vida, não retira qualquer prazer da caça que efectua. É um mero instinto.
Algo de inexplicável; é impelido a caçar, quase fazendo parte de um impulso puramente carnal; ao mesmo tempo sente-se incapaz de levar por diante um processo que é exclusivamente racional, humano.
E apenas quando o número de carcaças impede o pássaro de despejar mais uma, sob pena de não poder, ele próprio, continuar a viver no meio daquela desilusão cadavérica, é que ele recolhe as asas da liberdade e pensa. Pensa. Pensa.
Conclui, finalmente, que não pode continuar a caçar meros objectos perpetuamente. Não pode manter a simples imanência do prazer. Tem que dar o próximo passo. Decidido, contudo confuso, o feroz pássaro lança-se em nova e derradeira caçada. Persegue a presa. Fita-a… sedento da sua morte! A custo, ultrapassa esse pensamento frívolo. Detém-se. Eleva-se nos céus, aproximando-se do sol escaldante, mortífero.
Num derradeiro laivo de lucidez, desfaz a elevação e inicia uma descida veloz, vertiginosa. Sente o perigo, o seu fim; a extinção da sua espécie.
Volta a fitar a mesma presa e ataca-a. Uma vez capturada, ao de leve, no entanto segura, transporta-a para o nauseabundo ninho. Larga-a.
Perante a total e temerosa imobilidade da vítima, o pássaro dá um salto para a frente e encara-a, resoluto.
- Preciso que me quebre as asas.
A presa, não refeita do susto e do medo, não responde.
- Preciso que me quebre as asas. Ambas… – Coloca-se diante dela e estica as asas, sobre o dorso. Afaga as penas, num desconcertante ritual de tristeza profunda.
- Quer que lhe retire a liberdade? – Pergunta a ingénua presa, por fim.
- Não. Quero que me ofereça a felicidade plena.
Perante aquela resposta, repleta de significação implícita e ardorosa, a presa, num golpe seco e decidido, inutiliza ambas as asas do pássaro.
- E agora? – Pergunta a presa, perante o sofrimento contido do pássaro.
- Agora, viveremos do alimento que nos resta. Quando esse se esgotar, encontraremos uma outra forma de viver. Uma razão. Os dois.

terça-feira, outubro 10, 2006

Sonho cruel

Sonhei contigo. Sonhei que te encontrara. Conheci-te sem saber como. O que é certo, é que nos entendemos, verdadeiramente. Só isso interessava. No entanto, como sempre, foi efémero; e, por isso mesmo, mais uma vez, doloroso.
Falamos prolongadamente sobre tudo; sobre nós. Imaginei-nos perdidos no tempo que nos unia; vislumbrei um futuro que nos contemplava, ardente, eridescente. Senti-te senhora de uma perfeição outrora inatingível ao meu entendimento. Fiquei perplexo diante dela; tudo em ti luzia como um farol que ilumina um vasto mar repleto de pequenas embarcações artesanais. As embarcações simbolizavam todas as tuas qualidades – aquelas que eu percepcionei. A luz que as clareava era a força do teu carácter espelhada pela brancura do teu rosto. Por momentos, ofuscaste os meus sentidos mais reais.
Apercebi-me, então, do quão perto estava de ti; e de todo o teu ser. Não obstante, por uma razão ou por outra, nunca conferiste ao sonho uma dimensão palpável, iminentemente táctil. Não relevei esse facto; fui incapaz de discernir tão profundamente. Estava demasiado embrenhado na perfeição do teu corpo; demasiado próximo da tua leveza transcendente e perturbadora. Quiçá, os meus sentidos pueris falharam na atribuição de um verdadeiro significado ao laço que me unia a ti. Era um laço unidireccional, meramente imaginário e onírico. Mas a culpa foi tua; sei-o, embora nunca o tenha dito antes.
Procurei não magoar a lembrança que guardava de ti, do teu odor perfurante e, ainda agora, confuso. Cheguei a pensar que nada nos separaria.
Até que saíste da minha presença e entraste no elevador do teu fim. Segui-te, rejubilante, crente, ciente de tudo aquilo que, na verdade, jamais existira. Entrei num outro elevador e carreguei no «zero». Comecei a descer, optimista... Nunca mais parou; segui, penitente, até ao infinito das minhas ilusões. Só durante essa viagem interminável me apercebi do passado platónico que nos serviu. Ouvi, repetidamente, uma voz retumbante que me dizia, «vais em direcção à morte», e «nunca mais pararás». Durante os primeiros minutos, acreditei que chegaria a um limite; a um fim que, por muito longínquo e afastado que fosse, me permitisse uma subida, um regresso, mesmo que penoso e demorado. Pura ilusão. Continuei a descer, ininterruptamente. Deixei de sentir o meu corpo. E a mente estava anestesiada. Acabei por adormecer no próprio sonho, perdido no seu realismo aterrador e doloroso.Lembro-me de ter escrito, mentalmente, toda esta «estória», ainda dentro do elevador. Até porque, quando dele saí, só tinha cabeça...

sábado, outubro 07, 2006

Espesso sangue

Entrei. Assim que os meus olhos se adaptaram ao novo ambiente, apercebi-me que o espaço interior era sombrio, quase surreal. Sentia-se um leve aroma a raridade, algo de excepção, como um odor dulcíssimo a sabedoria ancestral, salpicada de suaves partículas de um ardor reconfortante e embalador. No entanto, claramente um ardor sublevado, não perceptível ao olfacto de qualquer ser humano...
Ainda com os meus sentidos numa espécie de transe melífero, dei alguns passos até avistar um homem baixo, curvado, de parco cabelo branco, que se dirigia ao meu encontro, vagarosamente. Subitamente, receei o confronto físico e frontal.
- Esperei-o durante anos... – A sua voz soou cava, parecendo provir dos fundos escondidos e incomensuráveis da Terra.
- Temi este momento – redargui, sem pensar, e com a saliva a escassear na minha boca.
O pequeno homem afivelou um suave sorriso de beatitude e fez um gesto com a palma da mão. Segui-o, tremente.

A passos estudados, curtos, e de dedos enclavinhados no ventre, aquela estranha criatura percorreu um comprido corredor que se estendia para lá da entrada. Alcançámos uma estreita escada de pedra, em caracol, e descemos. Quando parámos de descer, os meus olhos abriram-se desmesuradamente. Estaquei, perplexo. Ligeiramente à frente, e como que adivinhando a minha reacção estupefacta, o homem rodou o pescoço, para, numa expressão algures entre a mofa e o assentimento, me indicar o caminho, sempre a secundá-lo. Por instantes, inopinadamente, senti que algo me ligava àquele lugar. Algo... Mas, o quê?
À medida que fui progredindo, pude apreciar o novo compartimento: baixo, muito baixo, isolado, sem qualquer foco de luz exterior, natural, e com dezenas de pequenos quartinhos solitários onde se vislumbravam outras pessoas. Isso mesmo, pessoas! Pareciam totalmente alheadas deste Mundo e de um outro; presas apenas pela gravidade sugadora da Terra. Compenetrados, de rostos postados nas mesas que se desenhavam diante de cada uma delas, estavam numa espécie de estado hipnótico profundo. Gestos quase maquinais, ao mesmo tempo libidinosos, apaixonados; rotações constantes com as mãos; fechares de olhos deleitosos; sorrisos escarninhos; arqueares das sobrancelhas; rangeres de dentes; degustações sublimes e etéreas... Que visão!
Cada uma daquelas pessoas parecia ter atingido a perfeição espiritual, metafórica, mitológica. Alheados do Mundo – uns escolhiam o líquido; outros, o copo; ainda outros vertiam carinhosamente uma espécie de sangue agridoce para dentro de um copo de pé alto, enorme, cristalino. Contudo, era evidente que aqueles que levavam o respectivo copo aos lábios e deixavam que o espesso líquido os preenchesse interiormente, eram os mais ambiciosos, e os que revelavam um prazer corpóreo mais subtil...
«Já estive ali!». As imagens violentaram-me.

O meu pensamento longínquo foi interrompido pela voz surda do meu guia.
- Diferentes fases. Estados díspares. Cada um numa união perfeita, ajustada à própria capacidade momentânea.
Franzi o cenho, numa interrogação muda. Incompreensão. O que era aquilo, afinal?
- Vejo que não estava à espera... – soltou, novamente, olhando-me de soslaio.
- Não...
- Contudo, afirmou que sempre temera este momento... – e sorriu monasticamente.
- Sim...
- Compreensível. – Levou o dedo ao lábio, sabiamente. – Tememos o que compreendemos. Assustamo-nos com o que desconhecemos. Venha. Compreenda...
«E temerei!», pensei, de mim para mim.

O que vi de seguida não tem explicação; pelo menos, eu não a tenho. O ar que se respirava dentro daquela sala era seco. Contrastava com todo o ambiente em nosso redor – algo semelhante a um ninho; um ninho de magia e sonho.
Sob uma luz bruxuleante, de um azulado quente e acolhedor, várias séries de prateleiras estendiam-se geometricamente, em diversos tons acastanhados.
- A minha Família! – revelou, imbuído de um prazer contagiante.
Fixei o seu rosto. Aquele rosto de velho, com a cabeça coberta de cabelos brancos que escasseavam no cocuruto, orelhas alerta, e um olhar refulgente que mirava o que parecia o seu mundo invisível.
- Todas aquelas pessoas que viu lá fora, desejam alcançar aquilo que aqui tenho. – Dei alguns passos. Segui-o. – Demorei anos. Passei por cada uma daquelas fases. A aprendizagem, a escolha, o treino, a oxigenação, a decantação, a degustação, o preparo, a feitura... Uma vida. – Interrompeu-se, como que assolado por um sentimento ou uma experiência transcendente. – Para ter o que aqui vê. – Nova pausa. – A minha Família...
«Sinto uma força que me impele ao seu contacto, a um abraço caloroso!...». Estranheza.
Tive vontade de lhe fazer centenas de perguntas. No entanto, perante a sua atitude, preferi esperar que continuasse. Eu próprio me sentia perdido naquele lugar tão inexplicável e doentio.
- Cada uma das celas que teve oportunidade de ver, constitui uma potencial Família. É lá que cada um de “nós” vive, individualmente, as diferentes fases por que tem que passar – desde a concepção ao crescimento, à concretização, e, por fim, ao casamento. É um processo moroso, desgastante e exigente. Mas é a nossa vida, o nosso sonho. Isso basta-nos. – Olhou para as garrafas que tínhamos diante de nós e sorriu paternalmente. – Os meus filhos! Cada um deles diferente do outro; contudo, todos eles criados com o mesmo amor e a mesma dedicação. Uns pousados em madeiras quentes que os mantêm ao abrigo do frio que não suportam; como um casulo morno. Outros cobertos por um espesso pó, porque é assim que se sentem vivos. Há ainda aqueles que são alérgicos aos cheiros. Esses mantenho-os além. – Apontou para uma prateleira de cor acizentada. – É feita de um material que não exala qualquer odor perturbante. E, assim, protege-os, como uma mãe que protege um filho que venera...
Sem saber, estávamos diante dessa mesma prateleira, a olhar para um espaço vazio.
«Um casulo sem a sua larva!», exclamei, mudamente.
Senti um frémito incontrolável, uma sensação de profunda pertença. A criatura em forma de velho olhou-me com uns olhos aguados e abriu os braços. Senti uma língua gigante a percorrer as minhas veias. A degustação! Olhei-o, e exclamei:
- Pai!

sexta-feira, outubro 06, 2006

Recorte do vale

Quando para lá fomos viver, receava acordar de manhã. Não que temesse algo que não fosse deste mundo, uma qualquer alma perdida que vagueasse por aquelas bandas soturnas e lúgubres; no entanto, uma razão se escondia por detrás do meu medo. E eu não sabia que razão era. Todos os dias, do meu lado, me dizias para não temer o que quer que fosse, conquanto tu lá estivesses para me proteger. Ainda que ciente da força da tua coragem e da galhardia do teu amor por mim, era sempre ao acordar que o meu coração parava, literalmente. Mas, por mais estranho que pudesse parecer – e fora-o –, o meu espírito inquieto só acalmava quando olhava pela janela e mirava o vasto e extenso cemitério que se desenhava diante da nossa casa, recortando o vale como numa pintura expressionista a óleo. Aí, esquecia tudo; o receio, a inquietação, as dúvidas, os temores.
Sem saber porquê, todos os dias acordava da mesma maneira. Cheguei a tentar precipitar a ordem dos acontecimentos, levantar-me mais cedo do que tu, ir à janela, e voltar para os teus braços. De nada me valia, contudo. Algo não batia certo. A engrenagem não funcionava dessa forma. Logo que caía nos teus braços, o temor voltava, o coração não mais parava de bater descompassadamente. Claro, até que tu te levantavas, eu ficava sozinha, e, então, me dirigia titubeante até à janela; ou melhor, até ao prolongamento da nossa casa; o recorte do vale. Abria a janela, inspirava o ar frio e fresco do amanhecer e... subitamente acalmava. Que processo estranho! Incompreensível... naquela altura.
Tempos mais tarde, veio a explicação. Tinha sido tudo uma ilusão. Todos aqueles deliciosos momentos que passei contigo nada mais haviam sido do que experiências. Não vivi, verdadeiramente. Limitei-me a sugar parte do teu âmago, do teu ser. Não consubstanciei essa vivência conjunta. Tu viveste; eu vivi-te. Cometi o erro de me esquecer, de só me lembrar de ti; de ser egoísta fora de mim. E, então, tudo ficou mais negro. Faltaste-me, e a luz faltou-me, igualmente. Deixei de brilhar por dentro. Apercebi-me que a minha vida fora uma mera antevisão do meu amanhã. Vivi um presente que o passado projectou no meu futuro. O receio, a inquietação, as dúvidas, os temores, tudo fazia sentido, enfim. Passei a acordar sozinha, sem os teus braços fortes presos a mim. Esse fora sempre o meu receio. Percebi as minhas inquietações, os meus acordares temerosos e ofegantes. As dúvidas... e o quanto te temi!A violência dos meus dias passou a ser essa: o ritual. Mesmo sem ti do meu lado, continuei a acordar repleta de temores. Continuei a dirigir-me à janela para os fazer desaparecer. Agora, mesmo continuando juntos, apenas te sinto e te protejo. Todos os dias. Pelo recorte do vale.

quinta-feira, outubro 05, 2006

O quarto fechado

Acordo sobressaltado, com um pulsar espasmódico, um respirar ofegante, e o corpo esbraseado. No sonho, sentia-me incapaz de me libertar da total imobilidade em que me encontrava. Todos os meus movimentos conscientes estavam presos, bloqueados, como se alguém sobre-humano me segurasse com uma força descomunal, puramente irreal. Mantive-me deitado na cama, prostrado; sentia-me cansado, débil.
Que explicação? Que significado teria aquele sonho na minha vida? A minha vida... Uma vida digerida diariamente, feita de permanentes deambulações condicionadas pelo espaço exíguo e castrante do quarto onde sobrevivia penosamente. Um quarto onde ninguém entrava; onde ninguém queria entrar.
Naquele momento, apertei o meu braço silenciosamente. Tremia de desejo. Sentia uma vontade indizível de sair dali, abandonar aquele quarto, aquele mundo. Ser livre. Voar. Sentir o vento a percorrer-me a face, a penetrar por entre os meus cabelos, outrora livres e sedentos de novas experiências; agora, ressequidos e desventurosos.
Era, de certa forma, uma visão conflituante, contrastante. O perfeito conhecimento do passado dificultava a minha tentativa de desbloqueio. Sentia nas minhas veias essa tentativa estóica, contudo infrutífera.
Subitamente, uma cólera muda começou a trespassar a minha mente; o sangue corria, irado. Seria terror?
«Não!», gritei. Um grito velado, triste, sem a verdadeira pujança de um sentimento e um desejo capazes de mudar o rumo de um caminho aparentemente intransitável.
Curioso... Sentia-me a percorrer um caminho impossível de desbravar... como se a minha alma desmaiasse vagarosamente, a meu pedido implícito. Então, porquê lutar? Porquê tentar fazer algo da minha vida, quando eu próprio assumia e respeitava as suas contingências, os meus desígnios cruciantes e penosos?
Pressentia que essa mesma alma houvesse mergulhado num sono profundo, de certa forma eterno. Caber-me-ia, por conseguinte, a mim, dar o grito da revolta.
No entanto, a cada grito que dava, a voz perdia a parca força que ainda resistia dentro de mim. O quarto estava frio, e eu sentia um arrepio maledicente dentro de mim.
Levantei-me com sacrifício e peguei numa vela. A luz fraca da chama da vela mal conseguia iluminar o reduzido espaço onde me encontrava, preso às minhas próprias convicções surdas. Todos os anos de existência sombria perpassaram diante dos meus olhos, como imagens fidedignas desse passado que eu pretendia ofuscar. Mas não tinha forças...
Mirei a única porta do quarto. Uma porta com menos de quarenta centímetros de largura e apenas quinze centímetros de altura. A porta que representava o outro lado do meu ser: o oposto; a libertação; a minha própria explicação. Voltei a fixar o olhar na dita porta: permanecia inalterável, dia após dia, mês após mês, todos os anos da minha curta existência. Outrora, no meu passado, tive a oportunidade de a atravessar, de passar para esse «outro» lado.
Entrementes, fui crescendo, ficando maior, mais preso a mim mesmo. Fisicamente, já não sou capaz de a transpor. Contudo, desejo-o. Resta saber se possuo as forças necessárias para respeitar esse desejo. Esse desejo que me queima, imperceptivelmente, por dentro, durante todos os segundos que permaneço no quarto. O quarto que, estranhamente, continua a representar a minha vida. Será que algum dia terei coragem suficiente para cortar sem clemência ambos os meus braços? Ou ficarei, para sempre, aprisionado no meu próprio quarto fechado?

quarta-feira, outubro 04, 2006

Lágrimas por ti

Sonho no sonho da maré
Voo na altura do sonho
Limpo com a palma da mão
A lágrima que no meu rosto ponho.

Odor de ontem, ser de hoje
Pele eterna sem odor ou razão
Unida, movida ou achada
No seio da palavra em vão.

O corpo no calor do ardor
Detido no abraço sem fim
O ouvido que no ventre coloco
Pela vida que em ti evoco.

A mão que além nos agarra
Vívida, na doçura do momento
Aninhados e perdidos no tempo
No beijo, ensejo do desejo que nos uniu.

Advento de um outrora que há-de vir
Preso nas asas desse sonho
Que exponho por medo do tempo
Sem saber quando vou partir.

Conjugo o verbo que nos viu nascer
Do ocaso,
Assim o tempo não esquece
As palavras que jamais te disse
E que, sem as dizer... as ouviste.

terça-feira, outubro 03, 2006

Caminhos Paralelos

Encontro-me deitado, com a tua fotografia de outrora do meu lado. Estás vestida de azul, provocando uma estranha e peculiar confusão entre o teu corpo e o céu que te envolve. Corpo azul. Céu. Procuro refúgio em ti, no teu rosto de papel brilhante e colorido. É a nostalgia que me falta. A fotografia que não tenho. A prova que não possuo. Assim, quando morrer, irei para sempre; desaparecerei de vez, sem deixar rasto. Marca, talvez. Rasto, não. Nunca. Quiçá, a minha forma derradeira de demonstrar o meu egoísmo, mesmo depois do último suspiro. Curioso, então, entender-te. O quarto – onde durmo –, a sala – onde partilhamos a comida –, o outro quarto – vazio –, o corredor – que nos une –; todos estes espaços estão cobertos de fotografias tuas. Vaidade? Não somente...
A vaidade é interior ao ser humano; exteriormente, é imagem. Interior. Exterior. Dicotomia. Busílis. A fotografia é o traço da nossa identidade; o reflexo da nossa alma – saudosista. Uma existência dentro da existência ela própria. Como um espelho que reflecte a sua própria imagem, para além do objecto real. Uma cópia fiel. Objecto. Interior. Exterior. Descendência. Carne da carne. O fruto da comunhão. Esse sim, pode ser fotografado. Pode construir o seu caminho. E relembrar-me, no dele, depois do meu terminar. A memória do futuro passado. O presente esquecido, na memória do futuro não vivido. O tempo onde os nossos caminhos se fundirão, enfim, definitivamente. No eterno sentido.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Silêncios Falantes

Acordo com um céu que, no seu interior, parece estar coberto de ondas salpicadas. O ar saúda-me de forma benevolente e acaricia-me o rosto, como se fosse a tua mão a envolver-me a cútis. Esboço um sorriso discreto, algo tímido, que não reflecte com exactidão o sentimento que me percorre a alma. Desloco-me até à janela que se encontra aberta e fecho-a. A cortina que outrora dançava ao sabor da rebeldia, estende-se, agora, imóvel. Sou, de novo, engolido por uma escuridão que me sussurra um cântico brumoso e provoca o arrepiar de todos os meus nervos. Sou percorrido de lés a lés, prazerosamente, por uma chama ígnea que me impele ao teu contacto, sempre doce e carinhoso. Pé ante pé, sem te acordar, regresso ao leito e reentro nele, silencioso. Clamo por uma inocência que nos une e espero que o eco te acorde com uma suavidade que a minha voz mais melodiosa não conseguiria imitar. E eis que o milagre acontece! Profundamente adormecida, e sem abrires os olhos esverdeados, perguntas-me o que se passa. Fico mudo, silencioso. Sou incapaz de reagir. Sem pensar, elevo-me no ar e prossigo numa viagem desconhecida. Desejada, contudo, inexplorada; totalmente nova. E é com a magia do teu abraço que o meu corpo é sustentado. Vagueio por entre planícies fúlvidas e por planaltos repletos de pequenas árvores coloridas, que me entretêm o olhar com uma matiz de cores berrantes; amarelo, verde, castanho, vermelho. Cada cor representa um estado. E todos eles nos unem, curiosamente. Nada nos separa. Nem a condição de mais gritante dureza. Com todos os meus músculos ainda retesados, caminho, oscilante, planando melifluamente sobre um silêncio que me revela um futuro baseado no presente que abraçamos, constantemente. Avidamente. Como um segredo milenar que é guardado com reverência, escrupulosamente. É a nossa magia; a força que nos move no segundo imediatamente posterior ao anterior. Um pleonasmo temporal. Como numa bala que não sai do canhão mas é perpetuamente disparada. O fogo; a chama. A ideia reflectida num espelho invisível. Dou comigo a pensar no amanhã; apenas no sonho que transporto sobre o meu corpo. Somente o presente nos move. A orgânica da natureza que nos conquista a cada momento, impedindo-nos de olhar para lá do rosto um do outro. Ainda que no sonho esse caminho se prolongue e se projecte no indizível. Uma projecção real numa concepção iminentemente surreal e onírica. O nosso caminho. No sonho e na realidade. No presente e no futuro. Pelo passado; no além. O fruto que vaza dos nosso corpos. A comunhão. Eu, tu, eles. Faça-se silêncio. Por nós.

visitas