sábado, setembro 30, 2006

Vida vil

A vida é feita de experiências. Para uns, ela só é plena se constantemente envolvidos em novas aventuras, desafios contínuos, motivações suplementares. Considero a vida um permanente mar de rios e de caminhos mutáveis. É preciso navegar; saber para onde se vai – e aceitar os riscos. No entanto, é relevante ressalvar que, actualmente, esta política de vivência não é fácil de ser seguida nestes trâmites tão simplistas, e, por vezes, até redutores. Vivemos numa era de dificuldades. Por uma ou por outra razão (diria, mais correctamente, razões), o nosso futuro vive condicionado por um rol interminável de contingências e vicissitudes. De certa forma, deixámos de ser livres no verdadeiro sentido etimológico da palavra – se é que já não deixámos de o ser há muitos séculos... Por estes dias, as portas já não se abrem sem que para tal tenhamos que fazer um esforço sobre-humano; não raras vezes, extenuante. Aproximámos os povos e os mundos; cercámos o espírito; bloqueámos o passo. Por razões nem sempre objectivas ou compreensíveis, colocámos barreiras ao nosso próprio desenvolvimento – mesmo na era em que mais o procuramos. É um paradoxo; um verdadeiro paradoxo existencial. Agora, lutamos para o derrubar, mais do que para viver, simplesmente. A vida perdeu aquele significado mais puro e genuíno; aquela grandeza sublime que nos faz mover – que nos faz ansiar um novo dia, com ardor. Passámos a dar mais importância a tudo aquilo que gravita em torno do poder, da riqueza, da ostentação vil e infame. Ficámos mais pequenos, mais afastados uns dos outros a nível humano. Perdemos a genuinidade e a inocência que tanto caracteriza o verdadeiro ser. Em vez de assumirmos a honestidade e a sinceridade, começámos a julgá-la, amiúde. Porque rara. Demasiado invulgar para a sua digna dimensão incomensurável. Somos como que obrigados a fazer alardes a ela; a reafirmá-la; a salvaguardá-la. Perdemos a fragilidade pueril. Somos assolados por todos os males que nos rodeiam. Procurámos, em demasia, refúgio e auxílio em terrenos baldios e estéreis, quando a verdadeira ajuda se encontra, sempre, do nosso lado. O primeiro passo – aquele que é mais difícil de dar; o primogénito. A verdadeira experiência. A experiência da união sentida mas não explicada ou explicável. Intraduzível.
Porquê diminuir o alheio, renunciar a ele, rebaixá-lo, quando ele pode e é, seguramente, a nossa maior e mais plena força? Porquê viver atemorizado, recear o intangível? Só nos afectamos a nós próprios, limitando o nosso horizonte, como formigas recalcadas. E, com isso, impedimos o mundo de uma força suplementar. União.
Sem ilusões – o mundo e os seus transeuntes (sim, porque não passam disso mesmo, de meros espectadores), respira o ego da glória que não existe e não perdura. Por idiotice. Por limitação lógica. Por desonra. Porque será que procura o Homem a sua honra? E tão avidamente?! Unicamente, porque a perdeu! Deu-a em troca, ignominiosamente. E, de súbito, reclama-a? Porquê, então? Não consegue viver sem ela, afinal? Mas, porquê, caro homem?! Arrependimento? Passou a viver com o seu peso na consciência, foi?! E porque não pensar nisso antes de a dar, frivolamente? De novo, a fome do Homem. Uma fome que lhe tolda a visão periférica, abrangente. Fá-lo viver o imediato anterior ao passado, e não o imediato que antecede o futuro que é construído. Por mera deformação espiritual. Porque as suas emoções são incompreensíveis. Unicamente, porque ele não as compreende. Nem tenta. É fraco. E enraíza essa fraqueza; aduba a sua pusilanimidade. E logo surge um novo grito de dor, de clemência reclamada. Estultícia! Devassidão consciencializada. Não considero, contudo, que estejamos perdidos, sequer condenados. Não. De todo. Não renunciemos à nossa mais sublime e avassaladora condição!

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