Partiste
Olho fundo nos teus olhos e nada vejo. Sinto medo. Pavor. Receio ter deixado de ser o teu fiel companheiro, o teu melhor amigo, o teu amante predilecto, o teu confidente favorito…
Um frio interior pérfido, semelhante a um temor maligno, percorre todos os meus sentidos. Apura-os ominosamente, transformando enormemente as minhas sensações, a minha percepção do mundo que me rodeia. Aquele mundo que, juntamente contigo, eu criei. O mundo que considerei “o nosso mundo” – o nosso pequeno recanto florido, algo ventoso mas aprazível, aquoso, pueril e espontâneo, sempre pronto a acolher-nos abnegadamente, quer depois de um noite de desentendimento quer após mais uma comunhão perfeita entre os nossos corpos. Aqueles corpos que eu julguei – ingenuamente, agora percebo – unidos pelo sentimento para sempre. Corpos que tão docemente deslizavam quando comungados pelo suor que nos perpetuava os movimentos libidinosos da perfeição espiritual.
Pensei que para sempre iria acordar do lado do teu rosto prudente que contemplava o aurorescer com uma complacência ao mesmo tempo dourada e plangente.
Como só tu conseguias afivelar uma expressão tão dissonante a um rosto humano: o teu rosto único. Aquele que se abria à medida que a alvorada crescia, lenta e sussurrante. E eu ficava, fascinado, a ver essa transformação matinal diante de mim. Respirava-te ardorosamente, com um vigor absoluto e sincero.
Como eu te senti perto de mim! Parte de mim…, sim, quase um prolongamento da minha boca, das minhas mãos, dos meus ouvidos…ah, como eu me enganei… Como podes ter partilhado todos aqueles momentos comigo?!
E, agora, não sentir nada, a não ser um profundo vazio nos teus olhos negros?
Será que a eternidade não existe, para ti?
Talvez… Talvez concebas a eternidade apenas como seu sujeito e nunca enquanto objecto. É curioso como sempre temi que algo semelhante sucedesse. Por isso, e incrivelmente, terei descurado os subtis sinais que foste enviando; sem nunca teres, no entanto, assumido que eu tinha deixado de ser a pessoa que tu querias ter perto de ti, todos os dias.
Não percebi por que, dias antes desse derradeiro confronto, fechaste os olhos enquanto eu olhava para ti apaixonadamente. Soergueste levemente as pálpebras; eu continuava a fixar-te mudamente. Voltaste a fechá-los e choraste. Ainda te perguntei por que é que tímidas lágrimas violentavam o teu rosto. Respondeste que fora uma memória; uma memória do teu passado. Só agora, tempos depois, concluo que a memória era do nosso passado, e que o futuro, esse sim, era só teu. Fui eu que fiquei perdido, sozinho, enterrado nas recordações do teu odor. Ainda hoje o procuro por entre a minha roupa; roupa que jamais voltei a vestir. Também mudei de cama; já não durmo no nosso quarto, na nossa cama, essa permanece intocável, com os mesmos lençóis, desfeita, ainda com as marcas da tua última noite e do teu trágico acordar. Sinto a tua falta. Desejo poder rever-te, tocar-te, beijar-te. Sussurrar ao teu ouvido o quanto tenho sentido a tua falta; o quanto a tua ausência me perturba. Por vezes, de tempos a tempos, relanceio por algumas fotografias tuas; admiro o teu rosto, comunico com o teu sorriso benevolente, relembro-me do teu cabelo confidente.
É tudo tão doloroso! Vaguear sozinho pela casa; sentar-me sem companhia à mesa; passar o serão a reler todas as cartas que me escreveste, mesmo depois de seres minha.
Talvez já não reconhecesse a tua voz… e eu acho isso cruel. É tudo cruel! A vida é cruel! Continuo a perguntar-me por que é que te afastaste de mim, por que é que me abandonaste sem avisar, sem me preparares.
Quem sabe, eu não decidiria ter ido contigo naquele dia, em vez de ter ficado a ver-te partir para sempre… Sou incapaz de o fazer…
Um frio interior pérfido, semelhante a um temor maligno, percorre todos os meus sentidos. Apura-os ominosamente, transformando enormemente as minhas sensações, a minha percepção do mundo que me rodeia. Aquele mundo que, juntamente contigo, eu criei. O mundo que considerei “o nosso mundo” – o nosso pequeno recanto florido, algo ventoso mas aprazível, aquoso, pueril e espontâneo, sempre pronto a acolher-nos abnegadamente, quer depois de um noite de desentendimento quer após mais uma comunhão perfeita entre os nossos corpos. Aqueles corpos que eu julguei – ingenuamente, agora percebo – unidos pelo sentimento para sempre. Corpos que tão docemente deslizavam quando comungados pelo suor que nos perpetuava os movimentos libidinosos da perfeição espiritual.
Pensei que para sempre iria acordar do lado do teu rosto prudente que contemplava o aurorescer com uma complacência ao mesmo tempo dourada e plangente.
Como só tu conseguias afivelar uma expressão tão dissonante a um rosto humano: o teu rosto único. Aquele que se abria à medida que a alvorada crescia, lenta e sussurrante. E eu ficava, fascinado, a ver essa transformação matinal diante de mim. Respirava-te ardorosamente, com um vigor absoluto e sincero.
Como eu te senti perto de mim! Parte de mim…, sim, quase um prolongamento da minha boca, das minhas mãos, dos meus ouvidos…ah, como eu me enganei… Como podes ter partilhado todos aqueles momentos comigo?!
E, agora, não sentir nada, a não ser um profundo vazio nos teus olhos negros?
Será que a eternidade não existe, para ti?
Talvez… Talvez concebas a eternidade apenas como seu sujeito e nunca enquanto objecto. É curioso como sempre temi que algo semelhante sucedesse. Por isso, e incrivelmente, terei descurado os subtis sinais que foste enviando; sem nunca teres, no entanto, assumido que eu tinha deixado de ser a pessoa que tu querias ter perto de ti, todos os dias.
Não percebi por que, dias antes desse derradeiro confronto, fechaste os olhos enquanto eu olhava para ti apaixonadamente. Soergueste levemente as pálpebras; eu continuava a fixar-te mudamente. Voltaste a fechá-los e choraste. Ainda te perguntei por que é que tímidas lágrimas violentavam o teu rosto. Respondeste que fora uma memória; uma memória do teu passado. Só agora, tempos depois, concluo que a memória era do nosso passado, e que o futuro, esse sim, era só teu. Fui eu que fiquei perdido, sozinho, enterrado nas recordações do teu odor. Ainda hoje o procuro por entre a minha roupa; roupa que jamais voltei a vestir. Também mudei de cama; já não durmo no nosso quarto, na nossa cama, essa permanece intocável, com os mesmos lençóis, desfeita, ainda com as marcas da tua última noite e do teu trágico acordar. Sinto a tua falta. Desejo poder rever-te, tocar-te, beijar-te. Sussurrar ao teu ouvido o quanto tenho sentido a tua falta; o quanto a tua ausência me perturba. Por vezes, de tempos a tempos, relanceio por algumas fotografias tuas; admiro o teu rosto, comunico com o teu sorriso benevolente, relembro-me do teu cabelo confidente.
É tudo tão doloroso! Vaguear sozinho pela casa; sentar-me sem companhia à mesa; passar o serão a reler todas as cartas que me escreveste, mesmo depois de seres minha.
Talvez já não reconhecesse a tua voz… e eu acho isso cruel. É tudo cruel! A vida é cruel! Continuo a perguntar-me por que é que te afastaste de mim, por que é que me abandonaste sem avisar, sem me preparares.
Quem sabe, eu não decidiria ter ido contigo naquele dia, em vez de ter ficado a ver-te partir para sempre… Sou incapaz de o fazer…
Confesso, preferia ter morrido contigo.

<< Home